Três empresas, três oportunidades de negócio?

No âmbito da Missão Empresarial à China, organizada pela ANIVEC/APIV, que decorreu em Outubro, a que o JT já fez referência em artigos anteriores, foram visitadas sete empresas. Neste artigo, pretendemos analisar, duma forma mais detalhada, três dessas empresas, com modelos de negócio diferentes e que por isso mesmo, podem perspectivar oportunidades de negócio, também diferentes, para as empresas portuguesas .

ShenZhen Kamcaine Manufacturing Co

Localizada na cidade de Shenzhen, na província de Guangdong, e que é, actualmente, considerada a sua capital económica,  é uma das cinco Zonas Económicas Especiais da China e foi a primeira a ser estabelecida pelo governo Chinês, após a abertura da China ao exterior.

Fundada em 1993, ShenZhen Kamcaine Manufacturing Co. é constituída por cinco unidades fabris subsidiárias, uma dedicada à produção de vestuário em malha e as outras quatro dedicadas à produção de vestuário em tecido. Segundo Marco Lozano, o director de marketing de origem espanhola que nos recebeu e acompanhou a nossa visita, «a empresa tem uma grande experiência profissional de produção em OEM (Original Equipment Manufacturer) para clientes internacionais, originários dos mercados japonês, europeu, e americano, com marcas como La Redoute, MonoPrix, Nike, Mango, Esprit ou Escada, e para o mercado interno, com marcas chinesas, como Baleno, FreeBird, ou Giordano». Possui 1.500 trabalhadores e apresenta uma produção de 400.000 peças/mês, com um peso de cerca de 60%  para os artigos em tecido, na sua maioria calças e camisas. «A nossa prioridade é satisfazer o nosso cliente. Assim, pretendemos oferecer o melhor serviço, a melhor qualidade, os preços mais competitivos, e apostamos sempre na organização da produção e no cumprimento dos prazos de entrega. Um passo muito importante foi a obtenção, pela SGS, em Julho deste ano, da certificação SA 800:2001», afirmou Marco Lozano.

No entanto, apesar do bom nível de equipamento, do baixo custo de produção e da presença de trabalhadores e técnicos qualificados, a empresa não nos surpreendeu, quer em termos de qualidade, nomeadamente ao nível do detalhe, quer em termos de organização da produção. Acrescentar valor ainda não é uma preocupação da ShenZhen Kamcaine Manufacturing Co. Assim, esta empresa, talvez tenha sido a que melhor correspondeu às nossas «mistificações» acerca do sector do vestuário chinês, mas que simultâneamente pode ser encarada pelas empresas portuguesas numa perspectiva de oportunidades de sourcing de baixo-custo ou mesmo de criar uma preocupação em acrescentar valor, para o qual necessitam claramente de apoio ocidental.

China Silk Enterprise

Também localizada em Shenzhen, a China Silk Enterprise (CSE), fundada em 1985, é uma joint-venture entre as empresas Zhejiang Silk Import & Export Corp, Hangzhou HSDP Group Co, Shanghai INNO Investment and Development Co Ltd, Hong Kong Merchants Development  Co Ltd e Auro Enterprise Company Ltd, num investimento total de 6.5 milhões de dólares, que se especializou na produção e exportação de tecidos de seda, tingidos e estampados, e de artigos de vestuário. Nos últimos 20 anos, aproveitando o facto de Shenzhen se ter tornado numa Zona Económica Especial, transformando-se num espaço económico de grande crescimento, o grupo atingiu uma posição, em termos de negócio, muito sólida e uma escala muito considerável, com cinco unidades de produção, que incluem uma tinturaria e uma estamparia, e 5.000 trabalhadores. Produz mais de 9 milhões de metros de tecidos (tingidos ou estampados) e 9 milhões de peças/ano, com um volume de negócios anual que excede os 90 milhões de dólares. Na unidade visitada, em contraste com a empresa referida anteriormente, a qualidade do trabalho e da organização eram irrepreensíveis. Com 1.900 trabalhadores, produz 3.5 milhões de peças/ano, para as melhores marcas internacionais, destinadas, em exclusivo à exportação (60% para os EUA e 30% para a Europa).

 

Segundo o nosso anfitrião, Zhai Xiao Ping, director geral da CSE, o grupo estabeleceu agentes em várias regiões da China e no estrangeiro, e os seus produtos são vendidos no Japão, EUA e Europa, num total de mais de 10 países. «Temos um lema: a cultura da empresa tem como base a qualidade dos nossos produtos e oferecer esses produtos, num contexto de um serviço de excelência, é o nosso principal objectivo. Assim, combinamos a componente industrial, comercial e de desenvolvimento, apostando sempre na mais avançada tecnologia». O recente processo de implementação da norma ISO 9000 Quality System, foi um marco na evolução da CSE, já que representou, nas palavras de Zhai Xiao Ping, um passo muito importante no sentido da empresa ir de encontro com os standards internacionais.

 

Recentemente, a empresa estabeleceu uma estratégia de dinamização da gestão, que se enquadra claramente nas indicações dadas pelo governo chinês em relação ao sector, que passa pela aposta em factores intangíveis, nomeadamente, moda, design e marca. Assim, a empresa iniciou uma cooperação com designers internacionais, no sentido de, numa primeira fase, criar internamente uma equipa de design, que deverá estar na génese da criação de uma marca própria, e numa segunda fase criar uma estrutura de retalho no mercado interno, sendo que este processo deverá ser acompanhado por investimentos em marketing e publicidade. Não nos devemos esquecer que as dimensões do mercado chinês, em oposição, por exemplo, ao português, permite a rentabilização de marcas sem necessidade de se enveredar por processos de internacionalização. Por outro lado, há um inegável crescimento de uma classe média urbana, que representa um elevado número de consumidores com um crescente poder de compra, brand-addicted, e que já valoriza o vestuário de qualidade. Este processo, pelo qual muitas empresas chinesas estão a passar, pode constituir uma oportunidade para as empresas portuguesas, numa perspectiva de aproveitar as debilidades das empresas chinesas ao nível do marketing e da distribuição ou de estabelecimento de parcerias no estudo de novas tendências, no desenvolvimento de produtos mais complexos e de novos materiais, que exijam níveis mais elevados de I&D.

Ohsmén Clothing Manufacturing Co 

Em Guangzhou (tradução em mandarim para Cantão), que é capital da província de Guangdong, está sedeada a Ohsmén Clothing Manufacturing Co. Fundada em 1989, dedica-se à produção de vestuário para homem, num segmento médio-alto e tem mais de 800 funcionários, produzindo entre 800 e 1.000 fatos por dia. 70% da produção é para a própria marca, Oshmén, que goza de um elevado prestígio e popularidade no mercado chinês. A empresa possui 200 pontos de venda em toda a China, entre lojas próprias e corners. Os restantes 30% são artigos para exportação, produzidos em regime de private label, para mercados como Austrália, EUA, e países do Médio-Oriente.

 

A visita, conduzida pela sua directora de produção, mostrou uma empresa muito bem estrutura, equipada com a mais avançada tecnologia, com grandes preocupações ao nível da qualidade e do serviço. «Em 2002, a Ohsmén Clothing Manufacturing Co foi a primeira empresa de Guangzhou a obter a certificação “ISO9001, 9002 NQA” e em 2004, a marca Oshmén integrou o ranking “One Of Ten Top Apparel Brand Names Of Guangzhou”», afirmou a nossa anfitriã.

 

A marca, que teve a sua origem em França, apresenta um conceito muito bem definido, assente nas palavras-chave «simple, fashion, elegance». Incorpora uma gama muito completa de artigos de vestuário e de acessórios, tais como sapatos, camisas, t-shirts, sweaters, underwear, gravatas, meias, cintos, carteiras,… Com base no design, qualidade excelente e um correcto posicionamento no mercado, a marca está e pleno crescimento.

 

Recentemente, e no sentido de expandir a sua quota de mercado na China, a empresa fez um grande investimento na imagem e na promoção e convidou uma estrela de cinema muito popular em toda a Ásia, Donnie Yen, para ser a «cara» da marca, uma vez que possui uma imagem que reflecte, na perfeição, o estilo Oshmén, o “new generation of glamour men”, sem ser “demasiadamente” asiático, em consonância com o fascínio dos consumidores chineses pelos conceitos de moda ocidentais

Apesar da Ohsmén Clothing Manufacturing Co mostrar que já não tem dificuldade em desenvolver actividades mais a jusante na cadeia de valor tais como logística, vendas, pós-venda e promoção de marca, esta empresa sente ainda dificuldades em trabalhar no desenvolvimento de originalidade e de modernidade da marca, áreas em que as empresas portuguesas podem ter um papel importante.