tica, mais do que uma Moda

Há já alguns anos que, mais do que um fenómeno em voga, os designers valorizam a moda equitativa, que rapidamente encontrou eco nos numerosos fashion victims defensores das causas ambientais. Uma moda ética que rima com fibras naturais, condições justas de produção, consumo inteligente e vestuário reciclado. «A moda tem uma elevada responsabilidade nos interesses mundiais: a maior parte dos produtos têxteis são fabricados nos países em vias de desenvolvimento, e particularmente na Ásia; certos materiais utilizados encontram-se entre os mais poluentes do mundo», afirma Sébastien Kopp, um dos fundadores da Veja, a primeira marca de sapatilhas nascida do comércio justo. «A cultura do algodão, por exemplo, utiliza 25% dos pesticidas mundiais, e representa apenas 2,5 da terra cultivada». Os ténis Veja, fabricados no Brasil, provam que se pode fazer moda sem quebrar os princípios éticos: as matérias-primas são 100% naturais – algodão biológico e borracha natural oriunda da Amazónia – e os produtores são pagos 30 a 65% mais do que o preço do mercado local. O objectivo é poder financiar projectos concretos de desenvolvimento: saúde, educação, ambiente, etc. «Promover o comércio equitativo constitui um acto de desobediência comercial. O sistema clássico concentra-se nos baixos preços, negligenciando completamente os aspectos humanos. Por consequência, muitos produtores não conseguem viver condignamente do seu trabalho, e muitos trabalhadores não têm condições de trabalho dignas nem beneficiam de qualquer regime social», declara Kopp. Têxteis nacionais equitativos A primeira etiqueta equitativa ligada aos têxteis surgiu em Março de 2005, graças ao trabalho realizado pela Max Havelaar em África (ver notícia PT). Em Portugal, a Tearfil dá a cara pelo algodão equitativo da Max Havellar. «Embora não sendo uma solução universal, constitui uma resposta concreta à delicada situação que atravessam os produtores dos países do Sul», sustenta o responsável de exportação João Silva. A NaturaPura é outra das empresas nacionais que promove a sustentabilidade, neste caso da natureza. Com efeito, a única empresa têxtil portuguesa certificada com o Rótulo Ecológico Europeu cria produtos sem recurso a qualquer químico, quer nas matérias-primas quer nos processos. «Quem usa os produtos NaturaPura está não só a proteger-se como também a proteger o planeta», afirma Christine Araújo, directora comercial da marca. Na mesma “onda verde” posiciona-se o GoBlue, um projecto realizado por um consórcio nacional (Orfama, Crispim Abreu, Citeve, Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa e Bayer Portugal) que visa o processamento de uma linha de vestuário ecológica em ambiente biológico. Tal como explicava recentemente Paulo Rodrigues, administrador da Orfama, a entidade responsável pelo projecto, ao Portugal Têxtil, «foi a nossa procura contínua de uma tecnologia de ponta, como a biotecnologia, que permitiu abraçar o GoBlue, numa indústria tradicional como a têxtil, e pensar de que forma seria possível trazer “mais-valias” ao negócio e simultaneamente contribuir para dar os passos mais adequados rumo à eco-eficiência têxtil». Salões de ética A moda equitativa gerou já uma corrente em que os salões são também elos fortes, e a melhor das janelas sobre um mundo mais justo. O Ethical Fashion Show é o seu mais emblemático salão que, desde há 2 anos a esta parte, promove na sua edição anual a moda ligada ao desenvolvimento sustentável e ao comércio equitativo. Este salão reúne criadores de todo o mundo que desenvolvem projectos éticos. «Queremos mostrar que é possível criar produtos éticos com uma forte componente moda, que os consumidores têm outras opções de compra. E não necessariamente mais caras. Gostaríamos de passar a mensagem de que a moda ética não é unicamente um acto militante mas um negócio como qualquer outro, demarcarmo-nos da imagem de “boa acção”», explica Isabelle Quéhé, organizadora do salão parisiense. Mas também o mítico salão de moda Prêt à Porter Paris (PPP), nesta sua primeira edição de 2006, consagrou uma plataforma de 400 metros quadrados ao pronto-a-vestir feminino “ético”. Cerca de 20 marcas assim como instituições como a Yamana com o programa “Fibra Cidad㔠ou a Max Havelaar com o seu algodão equitativo marcaram presença no salão. «Esta iniciativa ilustra uma verdadeira tomada de consciência e uma verdadeira expectativa», declara Maul Blondel, responsável do projecto no PPP. «Estamos convictos que o desenvolvimento durável vai adquirir uma importância cada vez maior, e desejamos que os visitantes e compradores do nosso salão possam dispor de toda a informação para melhor compreenderem do que se trata». Consciência corporativa A mão-de-obra afrontosamente explorada é também uma tendência obrigatória na moda equitativa. Os industriais da moda são forçados cada vez mais a provar que a bela roupa a preço atraente não provém deste tipo de mão-de-obra, para não cair em descrédito junto dos consumidores mais atentos à justiça social. Nike, Reebok e Gap viram já a sua reputação manchada por acusações de exploração dos seus trabalhadores nos países em vias de desenvolvimento. Deste modo, as empresas de moda continuam à procura do custo de produção mais baixo do outro lado do planeta, mas hoje também se esforçam por tranquilizar os consumidores sobre as condições de fabricação das suas compras. «Há actualmente cerca de 10 a 12 estações por ano no meio da moda. E este apetite dos consumidores por esta moda que muda o tempo todo origina violações das normas de trabalho, nomeadamente no âmbito do trabalho temporário», explica Júlia Hawkins, porta-voz da “Iniciativa para um Comércio Ético” (ETI – Ethical Trade Initiative). A tentação é grande, numa indústria tão cíclica como a da moda, de tirar o máximo proveito de uma mão-de-obra de baixo custo num período de grande procura, para depois desembaraçar-se da mesma sem grande cerimónia. Mas a ETI é simultaneamente testemunha e agente de uma certa mudança: esta associação criada há 8 anos reagrupa cerca de 40 organizações não governamentais (ONG), sindicatos e empresas com o objectivo de implementar códigos de boa conduta nas relações sociais. A Marks & Spencer sentiu um impacto de bala quando, em 1996, um documentário televisivo a acusou de utilizar mão-de-obra infantil. «Atacámos em justiça e ganhámos», relembra Rowland Hill, director e responsável pela “responsabilidade social” no seio do grupo. Entretanto, a cadeia britânica acabou por estabelecer um código de conduta válido na globalidade das suas unidades de produção. O gigante americano Gap, acusado no passado, quer hoje dar provas de uma conduta irrepreensível. «Dispomos de uma equipa com mais de 90 pessoas pelo mundo fora que vigiam as fábricas e trabalham em parceria com governos, privados e OGNs no sentido de melhorar as condições de trabalho», afirma Dan Henkle, vice-presidente e responsável pela “responsabilidade social” na Gap. «Constatámos que devíamos comunicar mais os nossos esforços neste domínio, e acabámos por publicar o nosso primeiro relatório sobre a nossa responsabilidade social em 2003». No entanto, os mais sépticos vêem nesta atitude de boa vontade um simples procedimento do que é hoje politicamente correcto. «Neste sector extraordinariamente competitivo, as empresas tentam encontrar um meio de se distinguirem», conclui Craig Smith, professor de marketing e ética na London Business School. «Um grande grupo não tem consciência, mas esperamos que as pessoas que o constituem tenham uma».