Dez anos depois do lançamento das primeiras sementes, as actividades de I&D em têxteis hospitalares não-tecidos de uso único levadas a cabo pelo Centro de Ciência e Tecnologia (2C2T) da Universidade do Minho deram frutos quer para a comunidade científica quer para o meio industrial. Aquilo que começou como um projecto da casa, teve a ambivalência de imediatamente responder a necessidades prementes da Fapomed, empresa nacional especialista em dispositivos médicos não activos de uso único a base de estudo do projecto.
«Começámos por determinar quais as principais propriedades físicas e mecânicas das batas de uso único em não-tecido usadas no bloco operatório em função dos tipos de esterilização ETO (óxido de etileno) e radiação gama», explica Maria José Abreu, que levou a cabo as investigações no âmbito dos seus trabalhos de mestrado e doutoramento. «Deste modo, pudemos constatar que a esterilização com menor impacto na performance físico-mecânica da bata era o ETO». Este processo de esterilização acabou, todavia, por ser eliminado do projecto na sequência da interdição da sua utilização devido à presença de clorofluorcarbonos (CFCs), substâncias nocivas para o meio ambiente. Face aos excelentes resultados, o projecto adquiriu, em 1999, dimensão internacional com a parceria com a Escola Superior Têxtil (ENSITM) da Universidade de Alta Alsácia, em França, e maior projecção nacional com a colaboração do Instituto Tecnológico Nuclear (ITN). Nesta segunda fase, o projecto incluiu um novo tipo de esterilização radiação por feixe de electrões. «O nosso principal objectivo foi determinar a dose máxima admissível, tendo em conta que a dose mínima é de 25 kGy. No entanto, para garantir esta dose mínima, o valor industrial pode chegar até aos 70 kGy, portanto foi considerada também uma dose intermédia de 80 kGy», revela Maria José Abreu. Nesta fase, a equipa focalizou-se também sobre o processo de envelhecimento artificial do material, de forma a prever se ao fim do seu prazo de validade haveria ou não degradação ao nível da sua performance. «Face aos resultados obtidos, foi possível determinar que as propriedades de conforto e de barreira eram mais importantes do que as propriedades físicas e mecânicas. Além disso, a irradiação por feixe de electrões revelou-se menos agressiva para o material em estudo», divulga Maria José Abreu. O estudo do conforto dos dispositivos têxteis foi realizado no Laboratório de Física e Mecânica Têxtil da ENSITM, enquadrado nos trabalhos realizados pela equipa dirigida por Laurence Schacher e Dominique Adolphe. «Os não-tecidos pesam 50% na indústria têxtil da Alsácia, por isso este projecto reteve imediatamente a nossa atenção», afirma Laurence Schacher. «Além do mais, as parcerias internacionais com instituições científicas de grande nível é algo que sempre procuramos fomentar». Este trabalho foi também o ponto de partida para a criação de um eixo integrado nos Pólos de Competitividade, uma iniciativa do governo francês que, face às mutações económicas internacionais e, por consequência, locais, decidiu empreender uma política industrial de grande envergadura sustentada na capacidade de inovação pela I&D. Para a sua directora, Maria Elisabete Cabeço Silva, este projecto permitiu mostrar «a importância máxima das propriedades de conforto e de barreira e a influência mínima do envelhecimento, assim como fixar a dose máxima de irradiação que os dispositivos médicos em não-tecidos suportam». Por um lado, estes resultados despertaram o imediato interesse do meio industrial que planeia a implementação no país de uma unidade de irradiação por feixe de electrões multipropósitos. Por outro lado, permitiram que fossem considerados como valores de referência nas normas nacionais CT 87 (dispositivos médicos) e europeias TC 205 WG 14 (batas e coberturas cirúrgicas), conduzindo previamente à nomeação de Maria José Abreu e da Fapomed como peritos na elaboração das mesmas. Actualmente, a boa interface entre o 2C2T e a Fapomed mantém-se, encontrando-se ambas a colaborar na investigação do envelhecimento natural, assim como na optimização do design do vestuário cirúrgico através do estudo do conforto fisiológico (com recurso a um manequim térmico) para a sua avaliação objectiva. Maria José Abreu adianta que, em seguida, a equipa pretende realizar «uma avaliação subjectiva no bloco operatório a fim de criar a bata ideal, que permita posteriormente classificar as batas com uma escala de conforto».Em estado embrionário está a introdução de sensores nos dispositivos cirúrgicos não activos, nomeadamente em coberturas cirúrgicas, com o objectivo de controlar os sinais vitais do paciente. «A longo prazo, pretendemos ainda desenvolver têxteis terapêuticos para queimados assim como aplicar PCMs (materiais com mudança de fase) neste tipo de produtos para incrementar o conforto», anuncia Maria José Abreu.










