Têxteis glutões

Investigadores europeus têm demonstrado que é possível fabricar filmes poliméricos contendo enzimas activas, como as existentes nos detergentes de roupa biológicos. O processo utilizado é baseado no tradicionalmente usado para produzir produtos poliméricos finos e planos, como CDs, DVDs e monitores de ecrã plano. Conhecido como “spin coating”, o processo envolve colocar uma determinada quantidade de um líquido sobre uma superfície plana que é então rodada a grande velocidade. A rotação gera poderosas forças centrífugas que empurram a solução para as bordas da superfície e causam a evaporação de parte do líquido, deixando uma fina película sólida sobre toda a superfície. A espessura do filme depende das propriedades da solução original, tal como a sua viscosidade, e da velocidade de rotação. Usando discos plásticos de 10 cm como superfície plana, a equipa chefiada por Wang Ping da Universidade de Minnesota, em St. Paul, nos EUA, utilizou o “spin coating” para sobrepor quatro camadas de filme. Primeiro foi colocado um filme fino de poliestireno modificado quimicamente para se ligar com as enzimas. Em seguida, Wang e a sua equipa cobriram esta camada com uma solução contendo uma enzima que digere proteínas, conhecida como Subtilisina Carlsberg, comummente utilizada no pó de lavagem para remover manchas. As enzimas na solução ligam-se naturalmente aos grupos químicos existentes no filme de poliestireno. A equipa adicionou depois uma nova camada de um produto químico chamado glutaraldeído, que cria ligações entre as enzimas para garantir que estão solidamente fixadas ao plástico. Finalmente, uma nova camada de Subtilisina Carlsberg é colocada sobre o filme. Os testes mostraram que nada menos “suave” que a incineração ou tratamentos químicos agressivos consegue desalojar as enzimas. O vínculo entre a enzima e o revestimento de polímero é tão forte como as ligações químicas que são responsáveis pela integridade dos plásticos», explicou Wang. Apesar desta forte ligação, as enzimas ainda conservaram grande parte da sua actividade, sendo capazes de digerir a proteína albumina quando espalhada, em solução ou depositada sobre o filme usando “spin coating”. Construir um filme destes em tecido poderia permitir a digestão de manchas logo que estas ocorrem. O método poderá também representar uma alternativa à utilização de nanopartículas de prata (as quais escapam com facilidade, podendo causar danos ambientais) para conferir propriedades anti-bacterianas aos tecidos. As enzimas poderiam actuar sobre as bactérias, atacando as proteínas no exterior das células. Os nossos resultados preliminares mostraram que as enzimas podem ser “spin-coated” em qualquer estrutura de plástico pré-preparada e, além disso, provavelmente em estruturas inorgânicas como metais e cerâmicas», revelou Wang. A química subjacente é suficientemente flexível para aplicar o “spin-coat” directamente sobre o tecido, alternativamente poderia ser feito um filme plástico de enzimas em primeiro lugar e mais tarde incorporado no material. Wang diz que estes materiais revestidos a enzimas podem ter uma vasta gama de aplicações, incluindo materiais de auto-tratamento ou fatos de protecção capazes de digerir produtos químicos. Suwan Jayasinghe, um biofísico no University College London, Reino Unido, concorda que existe uma vasta gama de potenciais utilizações para estes materiais inorgânicos revestidos de enzimas. As estruturas funcionais, tais como estas, estão a ser generalizadas e a sua grande promessa para as ciências biomédicas é continuamente ilustrada», concluiu Jayasinghe.