Têxteis da Hungria em declínio – Parte 1

Com 10,1 milhões de habitantes e ocupando uma área de 93.000 Km2, a Hungria parecia reunir, em 1990, as condições necessárias para se tornar um dos países mais fortes e influentes da Europa de Leste, na fase de transição de um regime dominado pela União Soviética para uma economia de mercado liberal.

Com efeito, nenhum outro país da Europa Central e de Leste parecia combinar em simultâneo a longa experiência de comércio com os outros estados do Leste europeu com a familiariedade e proximidade com as nações ocidentais.

No entanto, a Hungria não logrou conquistar o lugar desejado no contexto europeu, já que Viena, capital da Áustria, se tornou a cidade preferida pelas grandes multinacionais para se instalarem, tendo em vista uma melhor abordagem ao mercado da Europa de Leste.

E, embora a Hungria tenha conseguido atrair quase 50% dos 15 mil milhões de euros de investimentos estrangeiros canalizados para os paísesVisegrad (Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria), na primeira metade dos anos 90, o certo é que se deixou ultrapassar, em termos de competitividade internacional, pela República Checa e Polónia.

A indústria têxtil existe na Hungria há mais de 250 anos, tendo uma das suas empresas mais antigas, a Golgberger, fundada em 1784, sido encerrada em 1994, depois de ter exportado os seus produtos durante dois séculos, em especial para França e Inglaterra.

A antiga sede desta fábrica, em Budapeste, viria a ser transformado, em 1999, no museu da indústria têxtil e do vestuário.

Durante a década de 80, a indústria do vestuário húngara dedicou-se especialmente ao trabalho por medida, encomendado pelos seus clientes ocidentais, tendo muitas destas empresas encerrado portas nos anos 90, em especial no sector dos lanifícios, que praticamente desapareceu na Hungria.

Mesmo assim, e graças ao sistema de sub-contratação, esta indústria tem vindo a mater-se no referido país do Leste da Europa, assegurando 70% da produção total nacional e 52% do volume de negócios do sector do vestuário.

No entanto, outros países da região com salários mais baixos, como a Polónia, República Checa, Eslováquia, Roménia e Bulgária, têm vindo a mostrar-se mais competitivos que a Hungria no mercado internacional dos têxteis e vestuário, o que coloca a ITV deste país numa posição bastante vulnerável.

Assim, de uma forma geral, a indústria têxtil e do vestuário húngara encontra-se em declínio.

Para explicar esta situação, a Associação da Indústria Têxtil e do Vestuário da Hungria invoca diversos factores, entre os quais a forte desvalorização da moeda húngara (forint) face ao dólar americano (20%) e ao euro (15%), bem como o elevado nível dos salários no sector.

A somar a isto, as importações a preços baixos, oriundas especialmente da China e Hong Kong, atingem igualmente valores recorde.

Segundo dados relativos a 2002, a Hungria importou 4,39 milhões de peças de vestuário masculino da China e 847.000 de Hong Kong, enquanto no segmento de senhora o cenário se revela ainda mais preocupante.

A indústria têxtil da Hungria está assim a perder cada vez mais a sua competitividade a nível internacional, e segundo o gabinete de estatísticas deste país, no primeiro semestre de 2003, acentuou-se o fosso entre as importações e têxteis deste tipo de produtos.

De acordo com o referido organismo oficial, as compras de têxteis ao estrangeiro aumentaram 5,3%, enquanto as exportações baixaram 20,2%.

No que toca ao vestuário, as exportações diminuíram 10,9%, tendo as importações decrescido igualmente, embora apenas 5,5%.