«Temos de nos manter, continuar a trabalhar e a ir às feiras»

Face à redução das vendas sentida nos últimos meses, a Lemar intensificou a sua atividade comercial através da presença em mais certames e na diversificação de mercados, como revela a CEO Manuela Araújo.

Manuela Araújo

A esta fórmula, a empresa liderada por Manuela Araújo acrescenta ainda a aposta em novas matérias-primas sustentáveis, como é o caso do Q-Cycle, uma poliamida reciclada a partir de pneus descartados, e do Evo by Fulgar, uma biopoliamida, enumera a CEO da empresa, que na entrevista ao Jornal Têxtil, publicada na edição de outubro, aponta a necessidade de proximidade com os atuais e potenciais clientes.

Qual é a situação atual da Lemar em termos de negócio?

Está tudo mais brando. Não quer dizer, no meu caso, que esteja catastrófico, que não está, mas temos descido entre 15% e 20%. Nestes meses, a partir de maio, fins de abril, começou a descer gradualmente. As encomendas não eram tão grandes.

Então os primeiros meses do ano foram bons?

Foram ótimos.

E já há uma tendência de retoma?

Não. Ainda estamos com uma tendência de quebra. O governo e todas as instituições só deram por ela agora ou pelo menos só se pronunciaram agora.

Há algum mercado especificamente que esteja em queda ou sente que é no geral?

Todos em geral. As pessoas estão sem dinheiro, o que é muito mau. França foi um dos que notei mais. Itália, que é o meu ex-libris, está a funcionar, mas não é com o gás do ano passado. Mas para nós, funciona bem.

Este ano decidiu ir a muitas feiras para testar mercados. Como correram?

Cheguei a maio e comecei a ficar um bocadinho preocupada. As feiras eram todas em julho, o que eu acho um perfeito disparate – achei desde sempre, mas ninguém me deu ouvidos. É tudo muito caro, as viagens são caras, há muita gente e é muito cansativo para nós que vamos trabalhar. Os hotéis estão sempre cheios, caríssimos. Tudo isso é contra o nosso espírito de trabalho. Eles vão passear. Portanto, não gosto. Mas tenho de aceitar. Em maio já estava inscrita nessas feiras e resolvi ir a quase todas, as principais, e nelas todas notei uma aglomeração de gente de manhã e, a partir da hora de almoço, 15h, mais ou menos, começava a ficar tudo em velocidade de cruzeiro, coisa que eu não gosto, porque normalmente numa Première Vision ou numa Milano Unica há sempre um movimento grande. Este ano, notei nas feiras a que fui, e fui a quase todas, que foi isso que aconteceu.

As feiras continuam a ser fundamentais?

Acho que sim. Indiscutivelmente. Agora, convenhamos que uma feira como a Premère Vision é muito cara e, portanto, no ano passado não houve subsídio, este ano não sabemos se vai haver. Acho que o nosso governo tem de ter muita atenção com a indústria, que isto é do país. Acho que a bem do Norte do país, que é quem trabalha, devemos ter um determinado número de incentivos, todos nós, que nos permita amenizar um bocadinho o que gastamos nas feiras a que vamos, acho que é muito importante. Não é online que vamos mostrar a coleção. Os meus clientes gostam de chegar aqui, ver e tocar, porque online é tudo muito lindo, mas o resultado final nem sempre é bom. Não é a mesma coisa.

O que é que perspetiva no curto, médio prazo, para o sector?

Tão rápido não vai melhorar. Temos de nos manter, continuar a trabalhar e a ir às feiras. Isso é muito importante. Desde que a fábrica reabriu depois das férias, no final de agosto, já estive em Estocolmo e até correu muito bem essa feira. Temos de apanhar nichos de mercado e coisas boas, com qualidade. Não vale a pena estarmos a perder tempo com uma questão de dez cêntimos para trás, dez cêntimos para a frente. Nós temos preços justos mediante o artigo que propomos ao cliente. Vamos entrar em guerras com a China, Bangladesh, Vietname, Indonésia? Não, não vale a pena. O que queremos é que aquela gente ganhe muito dinheiro para que eles paguem ao povinho que está ali a trabalhar. Que não pagam e isso é uma injustiça.

Para a Lemar, as expectativas de futuro são positivas?

Eu espero bem que sim. Tenho os meus dois filhos na fábrica e queria que continuassem a obra do meu avô. Não há desastre nenhum à vista. Agora, temos de andar, não podemos estar parados e não procurar muito sítios que discutam ao cêntimo. Isso não interessa. Temos de estar no nosso nível. Produzimos para a Fendi, um dos nossos grandes clientes é a Vilebrequin. Portanto, temos de nos colocar dentro desse parâmetro porque o descer não nos leva a lado nenhum, até porque temos muita concorrência e nós somos muito pequenos.