Materiais têxteis como novas vidasSegundo Manuela Pintado, da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, a biotecnologia consiste «na aplicação em grande escala, ou na transferência para a indústria, dos avanços científicos e tecnológicos resultantes da investigação em biologia e áreas afins». No âmbito têxtil, a biotecnologia abriu dois caminhos: a melhoria da performance da Natureza, com a manipulação genética de matérias-primas como o algodão, a lã, o linho e até a seda, e a optimização do processamento têxtil, com a aplicação de enzimas em processos como a desencolagem, o tratamento prévio, a eliminação de impurezas, o ensaboamento, o tratamento das águas, etc. Em especial, a biotecnologia é a última adição às ferramentas usadas pelos investigadores e, em particular, pelos produtores de algodão, para melhorar a produtividade das colheitas. Ao longo dos últimos anos, desde 1996-97, a área das colheitas de transgénicos no mundo foi multiplicada por 30. A utilização tecnológica da engenharia genética apresentou a taxa mais alta de aceitação, relativamente a qualquer outra tecnologia agrícola. Na realidade, têm-se desenvolvido grandes esforços no sentido de melhorar diversas características em várias colheitas, mas a resistência a insectos e a tolerância a herbicidas são ainda as únicas características usadas à escala comercial (para além destas, a resistência a vírus e a outros factores representa menos de 1% do total da área de transgénicos).Na sua inata ambição de imitar o melhor da Natureza, o Homem tem também procurado produzir fibras não-naturais a partir de fontes naturais e, em especial, renováveis. Neste âmbito, um dos mais recentes desenvolvimentos foi a fibra Sorona, considerada como uma criação biotecnológica pela sua "progenitora", a DuPont. «A Sorona constitui um excelente exemplo do trabalho da ciência através da biologia e da ciência dos materiais, combinando a disciplina emergente da engenharia metabólica (a capacidade da biologia produzir produtos com mais-valias) com as grandes capacidades da DuPont em engenharia de polímeros», afirma John Ranieri, vice-presidente e director-geral da DuPont Bio-Based Materials. O polímero Sorona existe desde há vários anos, mas os investigadores da DuPont utilizavam inicialmente derivados petroquímicos para criá-lo. Contudo, recentemente, desenvolveram um novo processo a partir da glucose de milho. A nova fibra apresenta-se como parcimoniosa em petróleo. Além do mais, o seu processo de fabricação consome menos 40% de energia do que as fibras sintéticas, reduz a emissão de substâncias poluentes e utiliza matéria-prima obtida a partir de uma fonte renovável – o milho. Projecto GoBlueO projecto Goblue mudou para sempre a face da ITV portuguesa, revelando uma sustentabilidade desconhecida até então no panorama industrial nacional. O avanço tecnológico, as questões ecológicas e o desenvolvimento produtos com valor acrescentado adquiriram uma maior visibilidade no quotidiano das empresas têxteis envolvidas – Orfama e Crispim Abreu – que contaram com mais 3 motores de I&D para levar a bom porto a missão – a multinacional Bayer, a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica e o Citeve.Tendo encetado com o levantamento das melhores tecnologias que podiam ser aplicadas ao longo do processo de ultimação têxtil, o GoBlue resultou na formulação de novas enzimas e de novos cocktails enzimáticos para a optimização de todo este processo. Mas o GoBlue não terminou às portas das fábricas, percorre já o caminho que o leva até ao consumidor final. Depois do desenvolvimento de linhas de vestuário ecológico em ambiente biológico ser já uma realidade industrial, chegou o momento de convertê-la num sucesso comercial. «Actualmente, estamos a ultimar o lançamento dos produtos biotecnológicos, que no caso da Orfama constituem uma nova colecção de malhas exteriores baptizada de "GoBlue by Orfama" e para a Crispim Abreu integram as colecções das suas marcas "Agatha Ruiz de la Prada" e "Cenoura". Além disso, estamos a desenvolver esforços no sentido de transformar o GoBlue num rótulo de certificação biológico», revela José Morgado, responsável do projecto pelo Citeve, a entidade que leva a cabo a coordenação técnica dos trabalhos. Quanto mais pequeno melhorA nanotecnologia é "simplesmente" uma tecnologia de fabricação que opera na gama dos nanómetros (1 nm = 0,000001 mm). Na sua essência, a nanotecnologia tem a capacidade de ordenar o caos. Sem K. Eric Drexler, a nanotecnologia teria provavelmente ficado confinada ao mundo da ficção científica ou, pior, subterrada pelo peso das instituições académicas. Apesar da ideia original não ter sido sua, pois em 1959 Richard Feyman tinha já antevisto os princípios da nanotecnologia no seu artigo "Plenty of Room at this Bottom", Dexler trouxe a nanotecnologia até ao grande público e revelou as suas implicações positivas e negativas. Apesar dos seus quase 50 anos, somente neste século a nanotecnologia se tornou num tema escaldante, não só no mundo académico mas também para um leque de indústrias que aspira a melhorar a performance dos seus produtos através da sua aplicação. Como tecnologia em tenra idade, oferece a qualquer jogador mundial a possibilidade de participar e competir. Nesta era de constante mudança, a nanotecnologia surge sobretudo como uma "arma de arremesso", que permite alargar horizontes e romper fronteiras. Objecto de diversas obras de ficção científica nos mais variados formatos, esta área serve hoje como imagem promocional de governos que vêem na sua aposta uma forte componente de desenvolvimento económico. Em particular, a nanotecnologia é uma reconhecida aposta estratégica do governo dos Estados Unidos, pioneiro nesta área, que procura transformá-la no motor da próxima revolução económica. De acordo com a Fundação Nacional da Ciência, vão ser necessários «2 milhões de trabalhadores nos próximos 15 anos para responder às necessidades mundiais das indústrias ligadas à nanotecnologia».Utilizando a tecnologia à escala nano, as empresas são capazes de conferir determinadas propriedades específicas aos tecidos ou melhorar de modo geral o seu desempenho. O tecido com NanoSphere da Schoeller, por exemplo, oferece níveis de desempenho mais elevados que outros tratamentos não-nanotecnológicos existentes no mercado.«Isto deve-se ao facto das moléculas usadas nesta tecnologia aderirem permanentemente às fibras em vez de apenas revestirem a superfície e não partirem com a lavagem», explica Sheree Hallaran, director de marketing da empresa. «O maior benefício é que oferece performance sem sacrificar o conforto do tecido».A oportunidade de modificar a natureza dos tecidos significa essencialmente que o mercado tem as portas abertas para os produtos melhorados pela nanotecnologia. Mas a nanotecnologia traz também alguns desafios, nomeadamente em questões de marketing. Para além do marketing, o maior problema de empresas como a Nano-Tex, Schoeller e outras, é encontrar utilizações que correspondam às necessidades dos consumidores e depois executá-las em ambiente industrial. Esta tecnologia é mais complexa do que qualquer outra que tenha historicamente surgido na arena da química. O lado bom é que todo o investimento em tecnologia, processos e investigação está a valer a pena, e promete continuar a valer muito mais no futuro.Projecto InteltexO projecto internacional Inteltex, que integra o Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil (2C2T) da Universidade do Minho como parceiro, enceta uma nova era na I&D têxtil não só a nível nacional mas também internacional. Com um enfoque no combate à concorrência dos países de baixos custos e na melhoria da competitividade da indústria têxtil europeia, este projecto tem como objectivo principal o desenvolvimento de uma abordagem radicalmente nova a fim de conceber têxteis inteligentes que combinem três funções inovadoras: a medição contínua das forças mecânicas aplicadas à estrutura têxtil, propriedades térmicas auto-reguladoras e a detecção de químicos, como por exemplo solventes voláteis tóxicos.Esta sensibilidade múltipla será assegurada através da integração compósitos poliméricos condutores (CPC) em materiais têxteis fibrosos. O desenvolvimento deste têxtil multifuncional envolve a concepção de nanotubos; a obtenção de aditivos específicos para as fibras CPC; a optimização dos parâmetros processuais das fibras CPC e da fabricação têxtil; o desenho de sensores para monitorização e controlo das funções deste novo têxtil inteligente; e a avaliação da sua performance.
Para além do 2C2T, integram este consórcio internacional 19 parceiros entre universidades, empresas e centros de I&D com competências nos campos da nanotecnologia e da têxtil. «A criação de novos têxteis técnicos e multifuncionais como os propostos pela Inteltex promoverá a transição para uma indústria têxtil sustentada mais no capital do conhecimento e menos na mão-de-obra intensiva. O mercado estratégico dos têxteis técnicos regista um forte crescimento e mostra-se perfeitamente maduro para beneficiar das inovações geradas pela nanotecnologia.










