Tecidos inteligentes procuram fama e fortuna

A segunda edição da conferência “Tecidos Inteligentes: desenvolvendo a Tecnologia, Aplicações e Mercados para têxteis interactivos”, que teve lugar na Florida, EUA, entre 6 e 8 do corrente mês, foi o palco por excelência dos mais inovadores tecidos da actualidade, onde se cruzam circuitos flexíveis, células solares e sensores integrados. Neste mundo de ficção científica já transformado em realidade comercial, a conclusão foi uma só e a uma só voz: o sector continua à procura da aplicação “decisiva”. «Penso que estes encontros serão vistos futuramente como tendo tido lugar no limiar de uma nova indústria», declarou Stacey Burr, presidente da Textronics, a spin-off de e-têxteis da DuPont, que co-presidiu o evento com Martin Krans da Philips Research. «O desafio agora é acelerar o desenvolvimento tecnológico equilibrando a necessidade de abertura por parte das empresas com o seu desejo de protecção e sigilo». Ao que Martin Krans acrescentou que «o sucesso do iPod permitiu-nos a entrada no mercado do vestuário, e um número razoável de produtos com sensores e circuitos integrados têm surgido desde então. As células solares flexíveis apresentam uma acessibilidade crescente, e tornar-se-ão cada vez menos dispendiosas, constituindo outro desenvolvimento chave. Mas continua a faltar a aplicação “decisiva” para estas tecnologias». Entre os admiráveis desenvolvimentos apresentados no evento destacou a nova tecnologia Circuitex da SauQuoit Industries, que consiste num método de gravar por corrosão circuitos integrados nos tecidos – inicialmente de poliamida – de uma forma muito similar à actualmente usada para depositá-los nos bifenílos policlorados rígidos. A vantagem reside no facto de o tecido poder ser comprimido sem que tal afecte os respectivos circuitos. «Isto representa um grande avanço», afirmou Tony Sosnowski, director de produto da SauQuoit. O vice-presidente da tecnologia da Textronics, Roger Armitage, referiu que o crescimento da sua empresa está sustentado em produtos como o sutiã desportivo de monitorização do ritmo cardíaco NuMetrex, já lançado no circuito comercial, ou o cabo elástico Textro Interconnect para ligação de hardware electrónico. «A elasticidade tem sido, compreensivelmente, um alicerce fundamental do trabalho da Textronics e uma herança da Lycra da DuPont, sendo o Textro Interconnect actualmente concebido com base numa tecnologia de não-tecidos destinada à indústria das fraldas», explicou Armitage. Os revestimentos de tecido de polímero condutor à escala micro e nano, comercializados actualmente pela Eeonyx Corporation, tiveram a sua origem numa tecnologia da Miliken e são fornecidos em polvilho ou no próprio tecido através de um processo de polimerização e outros métodos relacionados realizados nas instalações da empresa. Há já uma extensa gama de aplicações comerciais para estes tecidos, tais como sensores de radiação e pressão, compósitos absorventes de radar ou sistemas de antena, e muitas mais estão em desenvolvimento. Durante o evento, Daniel McGahn revelou o “segredo” do Power Plastic, que permite converter a luz em energia. A empresa está a trabalhar com um largo espectro de parceiros com vista ao desenvolvimento de aplicações para este produto, que já resultou num conjunto de 250 patentes tecnológicas. Também no estádio de exequibilidade encontra-se o Power Cloth, constituído por fios especificamente desenvolvidos para permitirem o mesmo modelo de colocação das películas no Power Plastic. A tecnologia de tricotagem seamless teve um papel de relevo em inúmeros dos papers apresentados sobre a integração da electrónica nos têxteis, principalmente nos trabalhos realizados pela Smartex, Sensatex e Textronic, todos com base na tecnologia da Santoni. Ao longo dos 3 dias de conferência distinguiu-se um sem fim de desenvolvimentos e conceitos inovadores, mas um aviso de prudência – apoiado na sua considerável experiência – foi lançado por Bob Miller, responsável pelo grupo de investigação da marca Sara Lee. «O mundo têxtil está à beira de uma grande mudança. Tem que mudar e vai mudar, e as empresas presentes nesta conferência poderão ser o motor dessa mudança. Mas precisam de foco e centrarem-se em coisas específicas. O custo será sempre uma força condutora, assim como a confiança. É preciso criar uma necessidade, sendo uma questão de combinar a tecnologia com a forma como o consumidor vê a marca», explica Miller. «Trata-se de ter um parceiro suficientemente grande porque o objectivo é mostrar aos retalhistas como podem retirar mais valor do seu espaço. O que me assusta é que esta indústria acabe demasiado absorvida pela tecnologia e perca o foco». Bob Miller terminou sublinhando que «o retalhista não poderia importar-se menos com a tecnologia, somente o que preenche o seu espaço pode-lhe acrescentar valor».