T-shirt esconde pegada ambiental

O local de produção de uma peça de vestuário não conta toda a história sobre a sua quilometragem, como mostra um recente estudo britânico, que revela que uma t-shirt fabricada no Camboja terá percorrido não apenas os 18.244 quilómetros que separam o país asiático do Reino Unido, mas um total de cerca de 64 mil quilómetros.

[©Unsplash/Brando Makes]

Como explica Laurie Parsons, professora de geografia humana na Holloway University of London e uma das autoras do estudo “Disaster Trade – the hidden footprint of UK production overseas”, num artigo publicado no The Conversation, «produzir uma única t-shirt depende de uma série coordenada de cadeias de aprovisionamento interconectadas, normalmente espalhadas por múltiplas nações», o que «pode obscurecer a quantidade real de emissões de carbono dos produtos que usamos, levantando questões sérias sobre a sua sustentabilidade». Além disso, sublinha, «permite que países mais ricos façam o outsourcing efetivo das suas emissões para países menos abastados através do “colonialismo de carbono”».

O Camboja exporta 40 mil toneladas de roupa para o Reino Unido todos os anos, o equivalente a 4% das exportações de vestuário do país, e a maior parte sai do porto de Sihanoukville para o porto britânico de Felixstowe, que estão separados por 18.244 quilómetros. O estudo mostra, contudo, que quando chega ao Reino Unido, essa t-shirt tem muitos mais quilómetros.

«Ao contrário de outros exportadores de vestuário, como o Bangladesh ou o Vietname, o Camboja não cultiva algodão», afirma Laurie Parsons, assegurando que o país também não faz fiação nem produz fibras artificiais. «Em vez disso, as fábricas do Camboja importam têxteis do estrangeiro, muitas vezes fazendo apenas o acabamento em peças de vestuário já parcialmente confecionadas», destaca.

Entre 2015 e 2019, do total de 161.455 toneladas de vestuário importado pelo Reino Unido a partir do Camboja, 89.721 toneladas podem ser indiretamente ligadas a produtos de algodão, malhas e fibras artificiais fornecidas pela China ao Camboja. E quase toda a indústria de vestuário chinesa está localizada nas províncias costeiras de Jiangsu, Zhejiang, Guangdong e Hubei, ou seja, entre 2.500 e 6.000 quilómetros de distância do Camboja, indica o estudo.

Mas a distância é ainda superior se for tido em conta que 84% da produção de algodão da China é proveniente de Xinjiang, no noroeste do país, o que significa que o algodão bruto processado nas fábricas na costa da China teve de viajar quase 4.300 quilómetros por comboio a partir de Xinjiang, o que faz com que, ainda antes da t-shirt chegar ao Camboja, as matérias-primas tenham já percorrido quase 10.300 quilómetros por mar e comboio. «Isto soma um enorme custo de carbono escondido na peça final», salienta Laurie Parsons no seu artigo.

[©Flickr/Cambodia4kids.org Beth Kanter]
Isto sem contar que parte dos produtos em algodão que saem da China são feitos com algodão importado de outros países produtores, nomeadamente Austrália, EUA, Uzbequistão, Índia e Brasil, que em conjunto representam 88% das importações de algodão do Império do Meio.

Por isso, «antes de ser comprada no Reino Unido, essa t-shirt – e as matérias-primas usadas para a fazer – percorreram provavelmente uns impressionantes 64 mil quilómetros, que é mais de que 1,5 vezes a circunferência da Terra», explica a coautora do estudo.

Emissões multiplicam

As implicações destas viagens são enormes ao nível das emissões. Uma t-shirt normal terá implicado 6,75 kg em emissões de carbono durante a sua produção e venda. Quando um país importa essa t-shirt, as emissões do transporte são adicionadas à sua pegada de carbono, mas como os processos envolvidos são complexos, «tendemos a usar números médios para uma parte específica do processo de produção, em vez de medir empiricamente toda a cadeia de aprovisionamento», revela Laurie Parsons.

Isso, aponta a coautora do estudo, faz com que «o sistema falhe a ter em conta as vastas distâncias “escondidas” que a nossa t-shirt – e as matérias-primas por detrás dela – viajou. Com 25 mil quilómetros, considerando que o algodão usado é exclusivamente proveniente da China ocidental, o transporte de uma única t-shirt do Camboja deverá emitir 47 gramas de CO2 – o que é 50% mais do que as estimativas de grupos vocacionados para a sustentabilidade, como a Carbon Trust, revela Laurie Parsons. Com 64 mil quilómetros, quando o algodão é proveniente dos EUA ou do Brasil, a t-shirt gera 103 gramas de CO2, o que é mais do triplo do valor médio das calculadoras existentes de pegadas de carbono.

«Estes erros podem não parecer muito quando falamos de uma única t-shirt. Mas fazem uma enorme diferença quando escalamos para cobrir todo o comércio de vestuário entre o Reino Unido e o Camboja», destaca a coautora, acrescentando que considerando 40 mil toneladas de vestuário importado todos os anos, significa que, em vez da estimativa de 8.304 toneladas de CO2 emitidas, o número real varia entre 13.400 toneladas e 28.770 toneladas de CO2 – o que implica até mais 20.466 toneladas, ou o equivalente a conduzir 4.4422 automóveis durante um ano, que não estão a ser contabilizadas.

[©Unsplash/Diego Fernandez]
De acordo com Laurie Parsons, a «esta capacidade de “esconder” emissões em processos produtivos mundiais complexos chama-se “falha de carbono” ou colonialismo de carbono, já que permite que grandes economias importadoras movam processos de produção intensivos em carbono para fora das suas estatísticas de emissões e para as de outros países, muitas vezes com menos capacidade de medir a extensão completa destes impactos».

Como tal, esclarece, «a etiqueta com um único país de origem cosida na nossa t-shirt é uma ilusão, refletindo um problema que afeta muitos dos artigos que compramos e usamos todos os dias. Na verdade, esse país de origem é apenas uma paragem numa jornada mundial de confeção que é um anátema para a produção verdadeiramente sustentável e um grande obstáculo na nossa luta contra a crise climática». Por isso, acredita Laurie Parsons, «uma melhor compreensão desta geografia escondida é o primeiro passo para abordar as pegas de carbono opacas e incompreendidas da nossa economia mundial – e descolonizar os sistemas de responsabilidade ambiental que favorecem os maiores poluidores mundiais».