Sustentabilidade e inclusividade

Na área da saúde, a introdução de mais produtos reutilizáveis sem comprometer a segurança de pacientes e profissionais é uma realidade. Já no vestuário corporativo, a inclusividade é uma das principais preocupações.

Natalie Wilson, Elena Lai e Joseph Ricci

A reutilização parece ser o tema do momento na área da saúde. Joseph Ricci, presidente e CEO da Textile Rental Services Association (TRSA), deu conta de uma realidade diferente da europeia nos EUA, onde atualmente 90% dos têxteis usados na saúde são limpos através de serviços comerciais de lavandaria.

Um estudo realizado com a Home European Textile Services Association (ETSA) «demonstrou que a lavagem doméstica não limpa suficientemente bem o vestuário. Não são usados os químicos certos. Para que os têxteis usados na saúde sejam limpos e descontaminados, é necessária uma lavagem comercial», sublinhou.

Durante a pandemia, «nas primeiras duas semanas, [os serviços de saúde] gastaram todos os seus stocks de têxteis descartáveis e começaram a procurar têxteis reutilizáveis, porque não havia disponibilidade de descartáveis. Por isso, ficou muito evidente que tínhamos de fazer alguma coisa», explicou o CEO da TRSA. «Tivemos de criar um EPI reutilizável», capaz de aguentar lavagens industriais. Apesar de ter sido um processo moroso, o objetivo foi conseguido e há já três Estados nos EUA que criaram legislação para permitir a sua utilização. «Estamos agora em conversações com o departamento governamental responsável pela área da saúde sobre a aquisição de um inventário de reutilizáveis na saúde», antecipou, dando conta que os produtos reutilizáveis que foram desenvolvidos «têm sido bem acolhidos», tendo vantagens ambientais e permitindo uma maior disponibilidade. «Ser possível ter um produto reutilizável e ter o produto disponível será crítico no futuro», acredita Joseph Ricci.

No Reino Unido, Natalie Wilson, diretora-geral da Shield 360, agência especialista em EPIs, revelou que «um dos principais desafios é que há 10 ou 15 anos, a maior parte dos hospitais tinha a sua própria lavandaria. Com o recurso a serviços externos, o que começou a acontecer foi que artigos que deviam ser reutilizáveis começaram a ser usados como de uso único e incinerados após uma utilização». No fundo, «há tentativas para encorajar a utilização de artigos reutilizáveis, mas não há um sistema que seja seguro para que os mesmos sejam limpos e possam ser novamente usados», apontou Natalie Wilson.

A diretora-geral da Shield 360 deu conta da existência de pesquisas para encontrar as melhores soluções de lavagem, inclusivamente para assegurar que não há contaminação entre diferentes tipos de vestuário nem a entrada de contaminantes no meio ambiente. «Temos de ter linhas de lavagem diferentes, com a utilização de temperaturas diferentes para lavar, por exemplo, produtos de alta visibilidade e vestuário hospitalar», exemplificou.

«As lavandarias comerciais têm de perceber que não se lava vestuário de alta visibilidade da mesma forma que se lavam batas ou campos de isolamento. Há muita formação que está por detrás. Estamos a trabalhar para criar essas diretrizes», anunciou Joseph Ricci, realçando que as mesmas irão igualmente permitir o aumento da durabilidade destes têxteis.

Fardas para todos

Já no vestuário corporativo, dar resposta à identidade de género dos trabalhadores, responder a necessidades ligadas a diferentes fases da vida, como a menopausa, ou incluir no catálogo opções para pessoas com deficiência, ao mesmo tempo que se mantém uma imagem coerente da empresa, são cada vez mais exigências.

«A nossa indústria está a começar a falar de inclusividade e diversidade e a tornar normal que temos de vestir toda a gente e não criar barreiras ao que as pessoas precisam, quer seja uma questão médica, o seu género ou a forma como se identificam», afirmou Sarah Wilsher, fundadora da The Menopause at Work.

Gresham Blake, que detém a Gresham Blake Bespoke Uniforms, tem incluído cada vez mais propostas neutras em género, inclusivamente para hotéis históricos e mais tradicionais, o mesmo acontecendo com a IncorporateWear. «São pequenos passos. Claro que há clientes que querem um uniforme para homem e um uniforme para mulher. Mas tentamos que não tenha a ver com género, mas com forma corporal. Não interessa se é um homem ou uma mulher a usá-lo, desde que sirva a forma corporal, a pessoa esteja confortável e represente bem a marca», frisou Kelly Palmer, account manager da empresa.

Gresham Blake, Nisha Muire, Sarah Wilsher e Kelly Palmer

Na Air Canada, a obrigatoriedade de escolher a farda no catálogo correspondente ao género civil deixou de existir, primeiro por pressão por parte de funcionários não-binários. «Mas rapidamente descobrimos nos inquéritos que era muito mais vasto. Havia pessoas de ambos os géneros que se sentiam mais confortáveis em peças pensadas para o género oposto por causa do fit. Por isso abrimos todos os catálogos a toda a gente», explicou Nisha Muire, diretora do programa de uniformes da companhia aérea, que criou um sistema em que cada funcionário pode pedir peças de qualquer género.

Nisha Muire realçou ainda a necessidade de ter um design bem pensado e adaptado à função desempenhada. «Em 2017 criámos um novo uniforme, com umas calças justas muito bonitas que ficavam ótimas nos modelos em cima de um palco, mas que não funcionavam bem para os pilotos, alguns muito musculados porque praticam hóquei – quando se sentavam as calças subiam até meio das pernas e eles não as conseguiam pôr para baixo. Tornavam-se muito desconfortáveis. Tivemos de as redesenhar e optar por um modelo clássico, mais funcional», exemplificou.

Os tamanhos são igualmente importantes para a área dos uniformes, devendo ter uma grande abrangência para incluir toda a gente. «As pessoas têm de ter a mesma imagem e sentirem-se bem no seu uniforme. Já não fazemos um catálogo de tamanhos grandes. Os tamanhos existem, mas já não fazemos a distinção. É apenas um tamanho, não interessa», concluiu Kelly Palmer.