Sustentabilidade da ITV desaponta

Uma nova ferramenta desenvolvida pela The Industry We Want para medir salários, práticas de compras e emissões de gases com efeito de estufa das indústrias de vestuário e de calçado revela que, apesar da evolução registada nos últimos anos, estes sectores estão ainda longe do desejado.

Os resultados iniciais da ferramenta da The Industry We Want (TIWW), que está a ser usada para medir o progresso nos sectores de vestuário e de calçado ao nível da diferença salarial, práticas de compra e emissões de gases com efeito de estufa, sugerem que a indústria de vestuário precisa de «mudanças profundas», considera Olivia Windham Stewart, consultora sénior da TIWW e especialista independente em negócios e direitos humanos.

Em declarações exclusivas ao Just Style, Olivia Windham Stewart afirmou que a The Industry We Want ficou desiludida com os resultados iniciais, que são baseados nos dados salariais dos 13 principais países produtores de vestuário, do feedback de mais de 500 fornecedores em 46 países e de novas estimativas de emissões do sector de vestuário. «Anos de esforço não produziram os resultados que qualquer um de nós gostaria de ver. O significado disso é tal, que não acho que dececionante seja uma palavra suficientemente forte», admite.

Os resultados iniciais revelam que muitos trabalhadores do vestuário não recebem um salário suficiente alto para terem um padrão de vida decente. As práticas de compra estão igualmente abaixo do ideal, com a maioria das parcerias a não terem a transparência adequada e, em termos de emissões, as métricas mostram que, nos níveis atuais, a redução necessária de 45% (para limitar o aquecimento a 1,5 ºC) está bastante atrasada.

«A exploração contínua de trabalhadores, parceiros de negócios e meio ambiente é uma acusação ao nosso sector e, mais amplamente, à nossa sociedade», reconhece Olivia Windham Stewart, que sugere haver também uma crescente sensação de frustração com a falta de progressos e uma maior consciência de que é preciso haver intervenções mais significativas para alcançar a transformação desejável da indústria de vestuário. «O tique-taque muito alto do relógio climático significa que estamos num ponto de inflexão, gostemos ou não. Só temos de ter a certeza de que damos o passo para o sítio certo», explica.

O painel da The Industry We Want foi criado em colaboração com a Wage Indicator Foundation, o Better Buying Institute e o Apparel Impact Institute, sendo apresentado como um passo para a obtenção de métricas anuais de impacto nas áreas de foco da iniciativa multissectorial. O objetivo da TIWW é contribuir para o progresso de toda a indústria em questões-chave nas indústrias de vestuário e de calçado e este novo painel pretende impulsionar o progresso dos sectores e fortalecer as perspetivas a cada ano.

Principais resultados

Entre as principais conclusões, o painel mostrou que a diferença média entre o salário de subsistência e a estimativa do salário médio nos principais países produtores de vestuário no conjunto de dados é de 45%. Isso significa que, em média, os trabalhadores dos sectores de vestuário e de calçado estão a receber pouco mais de metade do dinheiro necessário para terem um padrão de vida decente.

A The Industry We Want descreve o salário de subsistência como o rendimento mínimo necessário para que um trabalhador e a sua família possam responder às necessidades básicas, incluindo algum rendimento discricionário, e isso deve ser obtido durante os limites legais de horas de trabalho. A maioria dos países produtores de vestuário está bem abaixo de qualquer compreensão significativa de salário de subsistência, indica a iniciativa.

A pontuação da métrica de práticas de compra é de 39 num intervalo potencial de -100 a +100 e a métrica agrega dados recolhidos pelo Better Buying Partnership Index. As conclusões destacam as pressões que os fornecedores sofrem, com muitos compradores a nunca, raramente ou apenas às vezes darem visibilidade adequada, negócios estáveis ​​ou valores financeiros justos.

A TIWW sublinha que muitos dos compromissos assumidos por marcas e fábricas podem ser alcançados através da implementação de práticas de compra responsáveis ​​e convidou produtores de todo o mundo a participar num estudo generalizado para obter informações de uma vasta base de partes interessadas para garantir que os dados são os mais fiáveis possíveis.

Quanto às emissões anuais de gases com efeito de estufa, a estimativa – realizada a partir de dados do relatório Roadmap to Net Zero: Delivering Science-Based Targets in the Apparel Sector Report, desenvolvido pelo World Resource Institute e o Apparel Impact Institute, usando dados da Sustainable Apparel Coalition e da Textile Exchange – aponta para 1,025 gigatoneladas, o que representa cerca de 2% de todas as emissões de gases com efeito de estufa do mundo. O Apparel Impact Institute prevê que as emissões aumentem para 1,588 gigatoneladas até 2030, bastante acima do necessário para se conseguir a redução absoluta de 45% necessária para limitar o aquecimento a 1,5 ºC.