Subcontratar com inteligência – Parte II

Dando seguimento ao tema das empresas de subcontratação inteligente (Smart Sourcing Company, ou SSC), Rohit Kuthiala aborda na segunda parte deste estudo as formas como os retalhistas de primeira linha podem-se transformar e conseguir capacidades chave de subcontratação e as respectivas vantagens (ver Parte I do estudo). O sucesso de empresas como a Zara e a H&M deve-se à sua capacidade em disponibilizar a mercadoria necessária na altura certa. A Zara consegue ser rápida no acesso ao mercado, demorando apenas 10 dias desde a concepção até à comercialização, recorrendo à produção nas suas unidades fabris na Europa, enquanto que a H&M consegue responder em apenas 21 dias recorrendo a fornecedores subcontratados e importações do Extremo Oriente. Uma empresa SSC é capaz de conseguir alcançar um equilíbrio entre custos, rapidez no acesso ao mercado e selecção de fornecedores, mantendo em perspectiva todas as despesas gerais, mudanças nas regras e parâmetros de importação, deslocalizando a origem do fornecimento de forma a beneficiar em pleno da dinâmica internacional. Para trabalhar com sucesso em qualquer mercado, é fundamental perceber e manter-se em contacto com esse mercado. Se estamos a vender no Reino Unido, é necessário saber o que o cliente quer, quais as mudanças no clima, etc. Da mesma forma, se subcontratamos ao nível internacional em diversos países, é necessário conhecer esses países, as oportunidades locais, outros intervenientes e como funcionam. As empresas SSC do Reino Unido não competem apenas com outras empresas do Reino Unido, mas com empresas de outros países da Europa, dos EUA, do Japão, da Austrália, etc. De forma a conseguir os melhores negócios e a melhorar a sua eficiência, estas empresas monitorizam e mantêm-se em contacto com as suas bases de fornecimento, construindo relacionamentos com fábricas, fornecedores, empresas, reduzindo os tempos e os custos de produção e desenvolvimento. A maior parte das empresas consegue colocar um produto nas lojas em 35 dias, se não 10 ou 21 dias. Mas o custo é o principal diferenciador. Normalmente o tempo de fornecimento varia em função da estratégia em aplicação: subcontratação rápida (10 a 35 dias), fornecimento de reabastecimento (75 a 150 dias) e subcontratação tradicional (120 a 150 dias). Uma empresa SSC tende a manter-se no nível mais baixo de tempo para cada um destes tipos de estratégia. Controlo do inventário Considerando como exemplo a estação Outono/Inverno de 2005, os retalhistas tradicionais de gama alta retiveram dentro de portas o inventário que não conseguiram vender. As empresas SSC retiveram e controlaram o produto ao longo das várias fases da cadeia de fornecimento: fábricas na origem, armazéns na origem, armazéns intermédios, portos do Reino Unido, armazéns do fornecedor, e centros de distribuição próprios, por ordem decrescente de preferência. O ponto-chave é o controlo da cadeia de fornecimento completa. Não é necessário deter e estar completamente envolvido no dia-a-dia da cadeia de fornecimento para a controlar, mas o controlo aqui é um ponto crítico. Enquanto que pouco pode ser feito para parar um Inverno ameno prolongado seguido por tempo extremamente frio, o impacto financeiro no inventário pode ser significativamente diminuído através da boa gestão do inventário da SSC, desde o controlo do inventário dos artigos em produção nas empresas terceiras até ao ponto de venda. O inventário é um custo elevado para todos os retalhistas e a sua gestão no âmbito da cadeia de fornecimento é um benefício significativo que se encontra escondido, mas que uma empresa SSC consegue alcançar. Os artigos que não são necessários ou que não são vendáveis podem ser embargados nas fábricas a partir do momento que o retalhista se apercebe da situação, originando elevada poupança de custos, flexibilidade operacional e eficiência. É preferível ter em stock 10.000 jardas de sarja do que as parcas feitas com este tecido e que o mercado já não absorve. Unidade de desenvolvimento As empresas SSC vão desenvolver uma base para o desenvolvimento de novos tecidos, tecelagem e impressão das amostras de forma a construir gamas em tempos recorde e a custos mínimos. Bons relacionamentos com fiações, unidades de acabamento e fábricas vai ajudar a reduzir os tempos de desenvolvimento e os custos, permitindo que a equipa de design realize experiências e seja criativa. No fim de contas, a base para qualquer negócio de retalho bem sucedido é o fornecimento pontual de produtos frescos aos clientes. Como lá chegar? Cada empresa vai ter de percorrer o seu próprio caminho para se tornar uma Smart Sourcing Company (SSC), que se caracteriza por: · Consenso ao nível da direcção sobre as mudanças e o potencial impacto no lucro O concelho de administração deve possuir um conhecimento claro do impacto no lucro que o tornar-se uma SSC vai ter. Uma vez conseguido, a motivação para mudar vai ajudar a organização a tornar-se mais inteligente e melhor do que antes. · Uma estratégia de fornecimento flexível com a capacidade de evitar os riscos, através da subcontratação em múltiplas fontes ou países 87 milhões de peças de vestuário presas nas alfândegas comunitárias em 2005, enquanto decorriam as negociações entre a China e a UE, vem provar a necessidade das empresas SSC distribuírem o risco através de múltiplas fontes de fornecimento de todas as suas linhas principais. A qualquer momento podem ocorrer terramotos, inundações ou repentinas disputas comerciais num país, situações que podem ser ultrapassadas quando uma fonte alternativa é desenvolvida e mantida. · Experiência de subcontratação de forma directa no mercado externo Diferentes mercados requerem competências diferentes e conhecimento específico, na medida em que o conhecimento das dificuldades ajuda a evitá-las. Para tornar-se SSC, uma empresa deve ir além do que está disponível ao nível local em termos de fornecedores e recursos. · Uma eficiente infra-estrutura de tecnologias de informação e comunicação Uma forte plataforma de tecnologias de informação e comunicação (TIC), apoiada como uma rede de comunicação capaz que atravessa fusos horários é fundamental para apoiar a base de fornecimento no sentido de conseguir resultados. Os sistemas de gestão desenvolvidos com base nas TIC ajudam a acompanhar vários produtos em várias origens de fornecimento em todo o mundo. · Fortes competências negociais Nos negócios não se consegue o que se merece, mas o que se negoceia. A SSC apenas entrega resultados numa base diária se possuir uma equipa forte e com excelente capacidade de negociação ao nível multicultural. · Menor risco e exposição A SSC vai diminuir a exposição ao risco ao longo da cadeia de fornecimento tanto quanto possível. O retalhista possui o menor risco no âmbito global, o produtor dos artigos, o produtor do tecido e a empresa de vestuário enfrentam as ameaças principais, na medida em que o risco está associado com a propriedade. A SSC apenas assume a propriedade dos produtos no último ponto possível do ciclo de fornecimento, mas o controlo e a gestão são exercidos ao longo de todo o processo. Um bom exemplo da adopção destes princípios de funcionamento encontra-se no caso da transição de uma empresa de corte, costura e acabamento no sentido do fornecimento de uma solução completa FOB. Em resumo, se os retalhistas de primeira linha conseguirem transformar-se e incorporar competências chave de subcontratação e os benefícios resultantes, em 2015 as empresas e as marcas eficientes não vão apenas competir com sucesso localmente, mas vão também captar quotas de mercado na Europa, nos EUA e até mesmo na Ásia.