Sri Lanka perde competitividade

Apesar da economia estar a recuperar da retração e da instabilidade política do ano passado, a procura mundial está a abrandar e os produtores de vestuário do Sri Lanka estão a ser fortemente afetados, antecipando uma queda nas exportações.

[©JAAF]

O Sri Lanka está a sentir mais do que os seus concorrentes o abrandamento mundial no vestuário, com as previsões de exportação a serem 1,1 mil milhões de dólares mais baixas do que esperado em 2023 face a 2022, apesar da melhoria da situação política e económica do país.

A inflação no Sri Lanka pode estar a abrandar em comparação com o ano passado (4% em agosto, em comparação com 64,3% em termos anuais), mas as exportações de vestuário do país ainda estão a ser afetadas por falta de encomendas, indicou a associação Joint Apparel Association Forum (JAAF) ao Just Style.

Os resultados mensais das exportações entre janeiro e julho caíram consistentemente em comparação com o mesmo período do ano passado. Em julho, as exportações de vestuário baixaram 23%, para 400 milhões de dólares, face a 520 milhões de dólares em julho de 2022, revela o secretário-geral da JAAF, Yohan Lawrence, citando dados da associação. Em junho, a queda foi de 25%, para 420 milhões de dólares, em comparação com 530 milhões de dólares em junho de 2022.

«Estamos a ver uma redução de 20% nas encomendas até agora em comparação com o mesmo período do ano passado», indica Yohan Lawrence. Como resultado, as exportações totais de vestuário do Sri Lanka para este ano deverão ser de 4,5 mil milhões de dólares, mais baixas do que o objetivo inicial de 5,6 mil milhões de dólares, embora a situação política seja bastante mais calma este ano do que no ano passado, quando o ex-Presidente Gotabaya Rajapaksa resignou numa situação caótica em termos financeiros e económicos, tendo sido substituído pelo Presidente Ranil Wickremesinghe.

Mas embora a indústria têxtil e vestuário do país tenha contornado essa crise e a economia interna do país esteja a recuperar lentamente – vai contrair 3% este ano, de acordo com o Asian Development Bank, tendo contraído quase 8% em 2022 –, o Sri Lanka está com dificuldades em lidar com o abrandamento da economia mundial. A baixa procura por vestuário nos principais mercados de exportação, nomeadamente na União Europeia, no Reino Unido e nos EUA, devido à inflação local, afetou fortemente os exportadores do Sri Lanka.

Yohan Lawrence sublinha que, no final, «a procura do mercado é a procura do mercado», que está fora do controlo da indústria.

O secretário-geral da JAAF afirma, contudo, que a inflação local tornou a situação pior, com o elevado custo da eletricidade a tornar a indústria do Sri Lanka menos competitiva. «A atual tarifa de eletricidade não representa o verdadeiro custo da eletricidade», sustenta, acrescentando que os preços inflacionados tornaram o preço do vestuário mais alto, tornando difícil para a indústria competir com os produtores de vestuário na região. Segundo Yohan Lawrence, no Sri Lanka o custo médio por kW/h da eletricidade é 0,14 dólares, enquanto no vizinho Bangladesh o preço é de 0,10 dólares.

Bangladesh mais competitivo

O Bangladesh está a ter uma melhor performance do que o Sri Lanka este ano e o secretário-geral da JAAF acredita que não tem a ver apenas com o preço da energia.

O Sri Lanka está especializado em vestuário de gama mais alta e produzido de forma ética, enquanto o Bangladesh é mais procurado por básicos com menos valor acrescentado. Lawrence sublinhou que embora as vendas no luxo e nas gamas mais baixas do mercado internacional de vestuário devam crescer, as vendas de categorias médias de vestuário deverão baixar.

O estudo The State of Fashion, da McKinsey e do Business of Fashion, apoia esta ideia, indicando que o sector da moda de luxo deve crescer entre 5% e 10% em 2023, enquanto as outras categorias irão manter-se estáveis ou até registarem um crescimento negativo.

«Enquanto as exportações de vestuário do Sri Lanka para o Reino Unido caíram 15% nos primeiros seis meses deste ano, as exportações do Bangladesh para o Reino Unido subiram 12% no mesmo período», aponta Yohan Lawrence. Em termos de valor, as exportações do Sri Lanka para o Reino Unido caíram 320 milhões de dólares entre janeiro e junho de 2023, de 380 mil milhões de dólares no mesmo período do ano passado. Em contrapartida, as exportações do Bangladesh para o Reino Unido subiram para 2,63 mil milhões de dólares nos primeiros seis meses de 2023 em comparação com 2,35 mil milhões de dólares no mesmo período do ano passado.

O acesso desproporcional ao mercado também afetou a competitividade do Sri Lanka. Embora o Sri Lanka beneficie do Sistema de Preferências Generalizado (SPG+), que lhe dá acesso preferencial ao mercado da UE, enquanto país em desenvolvimento, o Bangladesh ainda beneficia do programa “Tudo menos armas” da UE, que garante acesso sem taxas e sem quotas para todas as exportações, exceto armas e munições, aos países menos desenvolvidos. O Sri Lanka também é afetado pelas restrições sobre as regras de origem, algo a que o Bangladesh não está sujeito no mercado britânico sob o programa UK Developing Countries Trading Scheme. O secretário-geral da JAAF revela que o Sri Lanka está atualmente no processo de negociar com o governo do Reino Unido um acordo que remova essas restrições, já que quase 50% das exportações de vestuário do Sri Lanka não beneficiam atualmente deste acesso devido às regras de origem.

Além disso, Yohan Lawrence advertiu que estes problemas estão a surgir numa altura em que o Bangladesh continua a fazer novos acordos comerciais, como com a Austrália, o que pode erodir ainda mais a competitividade do Sri Lanka nos mercados de exportação de vestuário.