Spectrum: um ano depois do colapso mortal

O passado dia 11 ficou marcado por um vasto conjunto de acções internacionais com o objectivo de não deixar cair no esquecimento o colapso da fábrica Spectrum Sweater e da sua vizinha Shahriyar Fabric, no Bangladesh, no qual 64 pessoas encontraram a morte, mais de 70 ficaram feridas e centenas de outras perderam o emprego (ver notícia PT). Por todo o mundo, desde o Bangladesh até à Europa, passando pela América do Norte, tiveram lugar inúmeros eventos públicos e vigílias à luz da vela para exigir medidas que ponham um ponto final nesta ceifa de vidas humanas e denunciar a falta de apoios verificada até à data como forma de compensação aos sobreviventes e às famílias dos trabalhadores têxteis que perderam a vida naquela trágica ocorrência. São também muitas as vozes que se elevam para denunciar que a indústria têxtil do Bangladesh não oferece as necessárias condições de higiene e segurança- os últimos incidentes ocorridos comprovam a veracidade de tais afirmações (ver notícia PT)- tendo inclusive originado a publicação de um relatório que foca os reais problemas de segurança em todo o sector. Um ano depois do colapso mortal da fábrica Spectrum Sweater em Savar, alguns dos seus clientes, como a Inditex (Espanha), New Wave Group (Suécia) ou Solo Invest (França), contribuíram oficialmente para um fundo bancário de auxílio aos sobreviventes e às famílias daqueles que pereceram. Aliás, o grupo espanhol Inditex, cuja marca Zara era produzida na Spectrum, foi o primeiro a contribuir com 35 mil euros para o referido fundo. O grupo activista Clean Clothes Campaign (Campanha da Roupa Limpa), uma rede internacional que luta pela melhoria das condições dos trabalhadores da indústria da confecção a nível mundial, sustenta que ainda não foram decretadas melhorias na higiene e segurança da industria do vestuário à escala mundial, apesar das numerosas solicitações dos sindicatos e organizações não-governamentais. Infelizmente, o colapso da Spectrum não serviu, até ao momento, de lição. Em Fevereiro e Março do corrente ano vários novos incidentes tiveram lugar em fábricas que produzem para clientes europeus e americanos, causando a morte de cerca de 88 trabalhadores e ferindo mais de 200 (ver notícia PT). «Saídas bloqueadas por caixas, portões fechados ou escadas demasiado estreitas para a passagem de milhares de trabalhadores em pânico- em caso de incêndio isto significa morte certa para muitos homens e mulheres de empresas do Bangladesh onde é feito o vestuário que chega às lojas europeias», alerta Amirul Haque Amin da Federação Nacional dos Trabalhadores do Vestuário do Bangladesh. Acrescenta ainda que estruturas em mau estado e pouco seguras são um problema corrente nas unidades de confecção do Bangladesh. «Continuaremos a fazer-nos ouvir até que esta situação melhore». Muitas das acções realizadas para assinalar esta trágica data, incluindo vários eventos públicos no Bangladesh, assim como acções em embaixadas do país e no retalho europeu, estiveram focadas na exigência de que todas as empresas que se abastecem no Bangladesh têm a responsabilidade de empreender imediatamente medidas que garantam que tristes ocorrências como esta não voltem a suceder. «Esperamos enviar uma mensagem clara à indústria e ao governo de que isto não pode continuar a ocorrer ? são necessárias mudanças e adiá-las só contribuirá para permitir mais mortes», explica Tessel Pauli do secretariado internacional da Clean Clothes Campaign. Entretanto, algumas empresas europeias tomaram já algumas medidas para evitar futuras tragédias destas. Durante uma das suas visitas, a Inditex revelou a sua lista de fornecedores aos sindicatos locais. O grupo espanhol está ainda a analisar formas de envolver os sindicatos, por exemplo, na determinação da aplicação de multas no local de trabalho para aqueles que não cumpram as medidas de higiene e segurança. Apesar da alemã Karstadt/Quelle ter adiantado numa reunião que também revelaria a sua lista de fornecedores aos sindicatos, tal não veio a verificar-se. O grupo francês Carrefour, que contribuiu, a título individual, com 15.000 euros a uma ONG para auxílio das vítimas e familiares, solicitou várias auditorias aos seus fornecedores, que permitirão uma revista sistemática da unidade de produção e das respectivas autorizações legais.