«Somos uma empresa muito versátil»

A empresa estreou-se na Première Vision em fevereiro, naquele que, considera a administradora Patrícia Dias, é mais um marco na história da 6Dias Têxteis, que reforça, desta forma, a sua presença nos mercados internacionais.

Patrícia Dias

Na estreia na Première Vision, a 6Dias apresentou uma coleção pautada por novas fibras, com características sustentáveis, e acabamentos mais ecológicos, que permitem reduzir o consumo de recursos como água. O objetivo, revela Patrícia Dias, administradora da empresa, é chegar a novos clientes e reforçar a presença nos mercados internacionais, através de uma aposta em artigos diferenciados e na flexibilidade, customização e know-how ao nível do desenvolvimento do produto, valências que a 6Dias tem vindo a reforçar também com recurso à sua própria tecelagem.

O que é que motivou esta aposta na Première Vision?

Já há algum tempo que queríamos ir para a Première Vision – entrámos na Texworld com o objetivo de ir para a Première Vision e este ano finalmente fomos aceites. É uma feira importante. Neste momento, a feira que funciona melhor para nós é a The London Textile Fair, que é mais pequenina, mas é a que tem trazido mais resultados. Contudo, sem dúvida que Paris é sempre um marco importante na vida de uma empresa têxtil.

Que expectativas tem para a feira?

As expectativas são altas. Queremos ter muitos clientes, queremos aumentar a nossa exposição no mercado internacional. A ideia é crescer.

Há algum mercado específico que tenham em mente que possa ser aberto com esta participação na Première Vision?

Neste momento, estamos a crescer um bocadinho nos EUA e queríamos reforçar mais ainda. Na Europa também. Inglaterra é o nosso maior mercado, depois temos França, Bélgica e também o Norte da Europa: Finlândia, Noruega e Suécia.

Qual é a quota de exportação da 6Dias?

Direta é mais ou menos 20%. Mas se contarmos a indireta é praticamente tudo, fazemos muita exportação indireta.

O que é que estará em destaque na coleção que vão mostrar em Paris?

Em termos de desenvolvimentos de tecelagem, este ano estamos a apresentar fibra de urtiga, fibra de laranja, cânhamo. Há muitas fibras novas a surgir e estamos a começar a testar na tecelagem estas fibras e processos diferentes, mas claro, isto é tudo uma aprendizagem que ainda está a começar. Vamos apresentar, também, o Eco Denim, que é um tingimento ecológico que imita o índigo. É um tingimento feito por foullard em que posteriormente há uma lavagem com muita redução de água, é muito ecológico. Também estamos a aumentar a quota de orgânicos, de artigos sustentáveis, com Lenzing Ecovero e reciclados, e temos alguns poliésteres Seaqual, porque produzimos com fio Seaqual na nossa tecelagem, somos certificados para isso.

Como é que é preparada cada nova coleção?

Temos um departamento de design, baseamo-nos muito na plataforma do WGSN e nas tendências da Première Vision, e fazemos várias reuniões com a área comercial, que também tem muita importância nas decisões. O comercial sabe o que o cliente anda à procura, tem mais informação. Em conjunto, definimos um caminho e depois vamos limando. Uma parte da coleção são estampados, outra parte é desenvolvimento de tecelagem, depois há uma série de coordenados pelo meio. Cada estação é diferente, mas a coleção é sempre decidida em conjunto.

Que tipo de clientes é que procura a 6Dias, neste momento?

São clientes de um segmento médio-alto, que normalmente trabalham por coleção. Também temos alguns de pronto-moda – temos telas básicas que depois transformamos em função do cliente, com as cores e estampados que eles pretendem. Além dos clientes de moda, que são a maior parte, temos ainda na tecelagem um departamento de têxteis-lar, mas representa ainda uma quota muito pequena, de cerca de 4%.

Vão estar presentes noutras feiras este ano?

Sim, vamos fazer a The London Textile Fair, a Munich Fabric Start e a Modtissimo, que são feiras onde estamos normalmente presentes.

Como é que têm desenvolvido a parte industrial, depois da aquisição da tecelagem?

Iniciámos a compra da tecelagem, a uma empresa que entrou em insolvência, em 2018. Pouco depois tivemos o covid-19. Hoje a tecelagem representa 10%, no máximo 15%, das nossas vendas. Na altura da pandemia representou mais porque trabalhamos muito para os têxteis-lar, subcontratados por outras empresas. Usamos muito a tecelagem essencialmente para fazer artigos específicos para os clientes, coisas diferentes: os jacquards, fibras e misturas especiais, encomendas mais particulares, produtos mais técnicos, de maior valor acrescentado. Nos básicos importamos telas, porque o preço continua a ser importante e não conseguimos certos preços com a produção em Portugal. Produzir telas básicas é impossível, não conseguimos ter preço.

[©6Dias]
Com quantos teares está equipada a tecelagem?

Temos 72 teares, mas é uma tecelagem que funciona por secções. Nunca tivemos as máquinas todas a trabalhar. A nossa ideia é reestruturá-la para uma tecelagem mais pequenina, estamos a fazer uma análise. Para fazer coisas básicas, Portugal nunca vai ser um destino. É um facto. A nossa mão de obra está cada vez mais cara e, por isso, não dá. Mas para fazer coisas muito específicas, há mercado. Por exemplo, o mercado alemão prefere pagar mais e que nós façamos cá dentro. Importamos muitas telas em Tencel, mas para determinados clientes produzimos internamente, porque eles querem produção nacional e pagam isso.

Isso é uma tendência que está a crescer?

Não posso dizer que seja uma tendência, mas há alguns clientes que não se importam de pagar o que quer que seja para ter produção na Europa.

Como é que correu 2023?

Até agosto tivemos uma ligeira subida, uma coisa quase insignificante, mas subida. Em setembro, outubro, novembro e dezembro, que são sempre os nossos melhores meses, tivemos uma ligeira queda, ou seja, terminámos o ano um bocadinho abaixo do ano anterior, em cerca de 6,2 milhões de euros. Os clientes estão a retrair. Para o início de 2024 já temos boas perspetivas, com boas encomendas. Acredito que não vá ser um ano fácil, por aquilo que tenho ouvido na generalidade dos clientes. Mas estamos cá. Como também temos muitos produtos, quando não vendemos uns, vendemos outros. Isso ajuda a não haver uma queda tão abrupta. Claro que é uma luta diária e o mercado não está fácil, mas também não acho que vá ser uma tragédia como muitas pessoas estão a pintar.

As perspetivas, apesar de tudo, são positivas?

Acho que temos de ir com cuidado, porque desde o covid ficou tudo um pouco diferente. A mentalidade das pessoas está diferente, as pessoas apostam, se calhar, noutras coisas, não tanto em comprar roupa. Como a mentalidade mudou, os mercados estão a comprar menos.

Nota alguma diferença entre mercados, por exemplo entre os EUA e a Europa?

O mercado americano é muito diferente e é muito grande. Os mais pequenos lá são grandes. As encomendas que temos dos EUA, mesmo sendo pequenas, são encomendas muito boas. Funciona um bocado de forma diferente. E ainda estamos a aprender. Mas acho que é um mercado com potencial, porque eles são muitos. Por mais que a nossa quota lá seja pequenininha, é sempre uma ajuda. Quantos mais mercados tivermos, melhor.

[©6Dias]
No total, em quantos mercados estão presentes?

Em muitos. Também vendemos para o Dubai, por exemplo. Os anos não são todos iguais. Temos uma variabilidade muito grande de clientes e de mercados. Os nossos 200 melhores clientes são sempre diferentes todos os anos, ficam em diferentes posições nesse ranking, e os nossos 10 melhores nunca são os mesmos. Depende dos anos e daquilo que as fábricas estão a comprar.

O facto da 6Dias ter muita flexibilidade e capacidade de customização torna mais fácil fidelizar os clientes?

Sim, mas depende do produto que está a ter procura. Varia. Há mesmo clientes que num ano até podem nem comprar e no ano seguinte compram muito. Num ano está a vender-se uma coisa ou o mercado do nosso cliente quer aquilo e no ano seguinte já não quer nada daquilo, até quer uma coisa qualquer que não temos. Não dá muito bem para perceber, não há propriamente uma lógica. Varia tanto que é difícil prever e não é só uma questão de preço e prazo de entrega. Tem muitas variáveis.

Que investimentos estão programados?

Neste momento estamos a sedimentar e a programar as obras de melhoramento de edifícios e a instalar painéis fotovoltaicos na área da produção. Num edifício já temos, instalámos este ano, agora estamos a fazer os projetos para as alterações nessa área no outro edifício.

Quais são as grandes mais-valias da 6Dias, o que a distingue no mercado?

Versatilidade, acompanhamento ao cliente, know-how do produto e da produção. Somos uma empresa muito versátil no sentido em que temos muitos tipos de produtos, pessoas capazes para trabalhar as coisas – devemos ser a empresa têxtil com mais engenheiras têxteis, somos quatro num efetivo de 30 trabalhadores – e conseguimos fazer produtos específicos para cada cliente. Não temos propriamente um catálogo de artigos prontos, em que as pessoas chegam aqui e só podem comprar aquilo. Temos muitas possibilidades de desenvolvimento e temos know-how para isso.

Patrícia Dias

Que desafios antecipa para 2024?

A 6Dias Têxteis nasceu num período de crise, portanto, estamos mais ou menos habituados. Os desafios são diários, não podemos dar nada como um dado adquirido, todos os dias surgem coisas novas. Agora estamos na meta da sustentabilidade e é algo que veio para ficar. No início não achava isso, achava que era mais uma moda, mas agora acredito que as empresas que se conseguirem destacar nesse sentido, vão conseguir dar mais cartas do que as outras. Os clientes valorizam isso. Não querem pagar isso, mas valorizam. Ou seja, temos de conseguir ser sustentáveis de uma forma que, economicamente, seja viável também para eles. Há muitos clientes que têm metas a cumprir e vão ter de trabalhar só com empresas nesse sentido. Acho que esse é o caminho.

A sustentabilidade é uma obrigatoriedade?

Sim, os clientes estão muito exigentes, cada vez mais exigentes.

De que forma se têm preparado para isso?

Temos várias certificações. Renovámos o GOTS e o GRS. Não renovámos as outras duas certificações ecológicas, para misturas, porque não temos clientes a comprar, não estão a aderir a isso. Temos também a ISO 9001, a certificação na qualidade. E fizemos, em 2023, a certificação FSC – Forest Stewardship Council, somos a primeira empresa, nesta área, a ter esta certificação em Portugal. Fizemos porque temos dificuldade em algumas das fibras de viscose conseguir o Ecovero, então, optámos por transformar toda a nossa restante viscose em FSC. Claro que é um processo gradual, não é de um dia para o outro, mas a nossa ideia é tentar vender o máximo possível de fibras ecológicas. Os clientes valorizam isso e, se temos essa possibilidade por uma diferença muito pequena de preço, estamos a optar por pôr só esse tipo de fibras. Claro que é um caminho que vai demorar a fazer, não se faz automaticamente de hoje para amanhã.

A legislação europeia que está prevista para regulamentar a sustentabilidade dos têxteis é algo que a preocupe?

Não, porque há muita coisa que já fazemos. Por exemplo, separar plástico e cartão. Já fazemos isso nos nossos armazéns há muito tempo. Praticamente não temos resíduo têxtil. Todos os restinhos de tecidos que temos, doamos a instituições para fazerem trabalhos manuais, incluindo os cartazes antigos. Vamos separando, pomos em caixas e depois doamos a várias instituições para fazerem trabalhos manuais. A APPACDM pede-nos, há muitas instituições que conhecemos mais daqui de perto, uns dizem aos outros e nós doamos a todos. Também já temos auditorias para os relatórios de sustentabilidade por parte de alguns clientes. A questão da sustentabilidade já está mais ou menos enraizada na empresa. Claro que há coisas que podemos melhorar todos os dias e estamos aqui para isso. Mas grande parte das coisas já vamos fazendo.

Que oportunidades vê atualmente para o negócio?

Acho que o Médio Oriente é interessante, será um mercado que vai ter crescimento. Neste momento já trabalhamos um bocadinho o Dubai. É um mercado um bocado diferente, que ainda não conheço bem, mas acredito que é capaz de ter crescimento no futuro.

As feiras são, neste momento, a vossa principal porta de entrada nesses mercados?

Também fazemos visitas diretas a clientes e temos alguns agentes que trabalham connosco nesses mercados.

No geral, como é que vê a indústria têxtil portuguesa?

Por norma, vejo sempre tudo de uma forma positiva. Dificuldades vamos sempre ter. Temos de ter uma capacidade de adaptação grande, que acho que, normalmente, os portugueses têm, uns mais do que outros, mas temos bastante capacidade de adaptação. Depois de passarmos o covid, já acredito que somos capazes de passar tudo. A pandemia foi um período muito diferente e toda a gente se conseguiu adaptar e arranjar formas de fazer as coisas de maneira diferente, mas com resultados positivos. É tudo uma questão de encontrar soluções. Se se vende viscose Ecovero, nós vendemos viscose Ecovero. Se se vende poliéster reciclado, nós vamos ter poliéster reciclado para vender, porque os clientes também mudam. Não é sempre a mesma coisa, não é uma constante. Temos de ter uma grande capacidade de adaptação e resiliência.