Síria: A indústria têxtil vista por dentro

Os sectores de fiação e de tecelagem na Síria são apoiados pela indústria de fibras local que responde às necessidades do consumo interno e das exportações. No entanto, a organização estatal GOTI (General Organisation for Textile Industry), que detém muitas das empresas têxteis do país, está a registar prejuízos e a ser ensombrada por rumores de corrupção. Existe alguma esperança para o futuro?… Apesar do moderno estado da Síria não ter sido estabelecido antes de 1946, após a Segunda Guerra Mundial, esta região é habitada desde os tempos mais longínquos. Os arqueólogos descobriram evidências de civilização desde 5.000 AC e a capital, Damasco, é provavelmente a cidade mais antiga no mundo continuamente habitada. Esta História torna a indústria têxtil da Síria uma das mais antigas indústrias produtoras do mundo e é quase certo que a Mesopotâmia, região localizada entre os rios Tigre e Eufrates, que abrange partes do Iraque, Turquia e Síria, tenha sido a primeira base desta indústria. Damasco é a maior cidade neste país, seguida em termos de importância por Aleppo, considerada como a segunda principal cidade da Síria devido ao seu contributo para a economia interna, a qual é um resultado directo da importância da indústria têxtil. Os têxteis desempenharam um papel significativo no desenvolvimento das cidades sírias em geral e de Aleppo em particular, evoluindo como sector artesanal até à actual mistura de grandes unidades industriais e diversas pequenas empresas. Os principais factores que estiveram na base deste crescimento da indústria incluem: Disponibilidade de algodão, que forma a matéria-prima de base para a maior parte dos têxteis e ajuda a integrar os sectores da indústria e da agricultura. Disponibilidade de recursos humanos com conhecimentos sectoriais e competências técnicas. Localização geográfica da Síria, que faz fronteira ao Norte com a Turquia, a Este com o Iraque, no Sul com a Jordânia e a Oeste com o Líbano e o Mar Mediterrânico. Grandes oportunidades de comercialização. Interrelacionamento entre a indústria de tecidos de algodão e a produção de fibras sintéticas e misturas, que levou ao desenvolvimento de uma indústria doméstica de fibras que satisfaz as necessidades internas e de exportação. As perdas do GOTI A extremamente protegida organização estatal GOTI foi lucrativa em 1990, apresentando um lucro líquido cifrado nos 867 milhões de libras sírias (cerca de 16,6 milhões de dólares). No entanto, entre o período de 1990 a 2003 as perdas registadas foram de 10,796 mil milhões de libras sírias. A questão principal prende-se em saber como o GOTI pode ter investido mais de 37 mil milhões de libras sírias, tendo declarado uma perda superior a 10 mil milhões de libras sírias em igual período? As razões para esta perda podem ser sumariadas da seguinte forma: 1. As perdas registadas pelas empresas de fiação estatais recentemente formadas (como Lattakia, Jableh e Idleb) ao longo dos anos até 2003 chegaram ao valor de 3 mil milhões de libras sírias. Valor que representa uma percentagem considerável das perdas gerais registadas pelo GOTI. As verdadeiras razões para o fraco desempenho destas empresas deve-se a: A administração central fixou os preços do algodão até meados de 2002, altura em que as empresas de fiação podiam adquirir o algodão a preços internacionais. Por conseguinte, estas empresas não eram beneficiadas com a política do país. Estas empresas trabalhavam com capacidades de produção abaixo do máximo instalado, devido a dificuldades na comercialização dos seus produtos. Desperdício nas linhas de produção e por vezes um produto final de baixa qualidade. Falta de conhecimentos adequados de marketing no GOTI e nas suas empresas associadas. Recursos administrativos com baixo nível de experiência. Rotinas de burocracia e centralização, assim como a falha para desenvolver as regras e os regulamentos que dirigem os processos de venda e compra. Baixo nível de formação e qualificação dos técnicos e a saída de um grande número de competências por diversas razões. Insuficiente flexibilidade para responder aos requisitos da produção, peças suplentes e objectivos de investimento em geral. Estas questões levaram os produtores a rejeitarem submeter as encomendas devido às dificuldades em lidar com as empresas públicas. Por conseguinte, as encomendas foram submetidas através do sector privado. Esta situação levou a um estado de corrupção, suborno e consequentemente a um aumento de 30% a 40% no valor geral dos contratos estabelecidos. Vale a pena referir que o valor acrescentado na indústria de fiação é tão pequeno que qualquer mudança altera o equilíbrio dos lucros. 2. As perdas das antigas empresas de fiação (El-Furat, Al-Waleed e Al-Hassakeh) chegaram aos 5,235 mil milhões de libras sírias durante o mesmo período (1990 a 2003) pelas mesmas razões associadas às novas empresas. Mas, para além dos problemas comuns, existia um maior desperdício e uma pior qualidade no produto final. 3. As perdas globais registadas pelas empresas de fiação cifraram-se nos 8,235 mil milhões de libras sírias, de um total de 10,798 mil milhões de libras sírias, ou seja, 76% das perdas totais registadas pelo GOTI. 4. Para as empresas de tecelagem e outros afiliados do GOTI, as perdas registadas durante o período em causa cifraram-se nos SYP2,561 mil milhões de libras sírias. Sendo este valor o resultado de: Os projectos de investimento aplicados a estas empresas não estão em sintonia com os projectos desenvolvidos para o sector de fiação. Houve uma diminuição nos factores de qualidade e competitividade devido à protecção dada pelo Estado a estas empresas e ao impacto negativo de determinados acordos de pagamento nesta área. Esta é a realidade da indústria de fiação e tecelagem da Síria. Há quem questione se existe ainda alguma esperança para o futuro. Modernização e desenvolvimento Sob a marcha de modernização e desenvolvimento liderada pelo Presidente Bascher Al-Assad, sucessivos governos emitiram diversas leis e regulamentações para apoiar o desenvolvimento dos sectores público e privado e eliminar os obstáculos que prejudicam o crescimento da economia da Síria em termos gerais. Nos sectores de fiação e tecelagem, as empresas produtoras de fio de algodão aumentaram as capacidades de produção em mais de 28% desde o início de 2004 através do aumento do número de dias de trabalho por ano, que passaram dos 284 para os 353, focando maior atenção na qualidade e nas iniciativas de marketing. O sector privado pode agora exportar produtos produzidos pelas empresas do GOTI e, no primeiro trimestre de 2004, as empresas de fiação registaram os seus primeiros lucros de sempre. Em relação às outras empresas, os processos de renovação e substituição continuam e os actuais dias de trabalho aumentaram. Estas empresas não têm outra opção que não seja alcançar o lucro económico. Desde que o novo governo assumiu a liderança da Síria, o Primeiro-ministro referiu que as perdas são inaceitáveis nas empresas industriais do sector público associadas com o Ministério da Indústria. Para além desta posição, o Ministério da Indústria está a focalizar a sua atenção na activação dos processos de formação e qualificação, redução do desperdício e selecção de gestores qualificados, honestos e empenhados. Finalmente, o Primeiro-ministro decidiu formar um novo concelho de direcção para o GOTI e deu-lhe novos poderes para melhorar o seu desempenho e alcançar o lucro económico para todas as suas actividades. Podem os sectores público e privado competir? Na Síria, o sector público não compete com o sector privado. Em vez de uma relação de concorrência, existe integração entre os dois, por isso actuam como um só sector nacional que contribui para o processo de desenvolvimento económico. Por exemplo, as empresas públicas produtoras de fio de algodão vendem a produção às empresas do sector privado que produzem tecidos, têxteis e vestuário. A tendência é para o Ministério da Indústria apoiar as empresas lucrativas do GOTI para conseguirem bons resultados económicos e desenvolver as empresas classificadas como marginais. Em relação às empresas que apresentam prejuízos, o ministério sugere a mudança de actividade ou a sua abertura para o investimento, mantendo a propriedade do Estado e protegendo os direitos dos trabalhadores. É necessário clarificar uma questão muito importante. O Ministério não é responsável por desenvolver as políticas mas por executar as directivas governamentais sobre esta matéria. A AFTI (Arab Federation for Textile Industries), federação árabe para as indústrias têxteis, cuja sede se encontra em Aleppo, está actualmente a desenvolver a investigação técnica na indústria têxtil e a investigar o panorama para a fiação e a tecelagem na Síria.