Shein mantém semanas de trabalho de 75 horas

A mais recente investigação da associação não-governamental Public Eye concluiu que a retalhista continua a usar fábricas chinesas onde os dias de trabalho se prolongam muitas vezes por 12 horas e raramente há folgas semanais.

[©Public Eye]

A investigação dá continuidade ao estudo feito em 2021 em 17 fábricas na cidade de Guangzhou, no sul da China, onde ficou provado que as empresas em questão têm em prática um sistema de horas extraordinárias excessivas e objetivos irrealistas.

«Trabalho todos os dias das 8h da manhã às 22h30 e tiro um dia de folga por mês. Não me posso permitir mais dias de folga porque fica muito caro», afirmou um homem entrevistado por parceiros da Public Eye que fizeram entrevistas, no verão de 2023, a 13 trabalhadores com idades entre os 23 e os 60 anos em seis fábricas.

«Os seis locais de produção visitados nesta ocasião incluíram, na sua maioria, pequenas empresas que empregavam entre 40 e 80 trabalhadores, mas também incluíram duas fábricas maiores com até 200 trabalhadores. Em ambos os casos, os entrevistados afirmaram trabalhar em média 12 horas por dia – sem intervalos para almoço e jantar – pelo menos seis dias, mas geralmente sete dias por semana», indica a Public Eye. «Uma empresa fechava oficialmente à noite – mas apenas às 23 horas. A horrenda carga de trabalho mencionada pelo trabalhador citado acima parece continuar a ser a norma. Por outras palavras, as semanas de 75 horas que descobrimos há cerca de dois anos ainda parecem ser comuns na Shein», aponta.

Os salários praticados permanecem mais ou menos ao mesmo nível e, embora numa análise superficial, pareçam bons, uma verificação mais profunda mostra que estes trabalhadores, normalmente qualificados, auferem uma remuneração próxima do salário mínimo. «Dependendo da fábrica, da estação e do nível de especialização (e incluindo apenas horas extras excessivas), os salários dos trabalhadores comuns flutuam entre 6.000 e 10.000 yuans por mês (um valor entre 770 euros e 1.280 euros, a câmbios atuais), embora haja fortes flutuações sazonais e o salário ainda dependa do número de itens produzidos», explica a Public Eye. «Qualquer pessoa com mais de 30 anos ainda é considerada jovem para trabalhar na produção desses fornecedores da Shein. Isso ocorre porque é preciso ter bastante experiência profissional para lidar com pequenas quantidades e modelos em constante mudança», refere.

«Se os trabalhadores tiverem de trabalhar 75 horas por semana em vez das 40 horas normais, o salário base, após dedução do pagamento de horas extraordinárias (em 150% do salário normal e 200% nos dias de folga), cai para apenas cerca de 2.400 yuans por mês», sublinha a organização, adiantando que, segundo a Asia Flor Wage Alliance, o salário mínimo na China, que cobre as necessidades básicas de uma família, ronda os 6.512 yuans, sendo que o salário mínimo legal em Guangzhou é de 2.300 yuans.

Os entrevistados deram ainda conta de «um aumento significativo no número de câmaras de vigilância instaladas dentro e à volta dos fornecedores. Eles acreditam que as imagens são encaminhadas para a Shein em tempo real, para permitir que a empresa faça cumprir os seus regulamentos», incluindo a utilização de mão-de-obra infantil. Sem afirmar que as empresas investigadas utilizam crianças na produção, a Public Eye indica ter encontrado crianças e adolescentes nas fábricas. «Muitas vezes tomavam conta das crianças no local de trabalho, sobretudo nas empresas pequenas», enquanto «os adolescentes, que tinham 14 ou 15 anos, segundo estimativas dos investigadores, realizavam tarefas simples, como embalar, ou sentavam-se eles próprios nas máquinas de costura, instruídos pelos pais, presumivelmente para aprenderem o seu ofício. Ainda não está claro se foram pagos para isso», acrescenta a organização.

Na resposta à investigação, a Shein sublinhou a «tolerância zero» em relação ao trabalho infantil, tendo ainda realçado que nas auditorias realizadas em 2023 só foram identificados dois casos de violação deste tipo e que está a financiar a criação de 25 creches. Negou ainda ter acesso a qualquer imagem de videovigilância.

Em relação aos horários de trabalho, na resposta dada pela Shein à Public Eye pode ler-se que «as longas horas de trabalho no sector da confeção são um problema conhecido e de longo prazo mundialmente» e salienta que «os nossos fornecedores não têm uma relação de exclusividade com a Shein», pelo que este não é «um problema único da Shein ou atribuível a métodos ou exigências de trabalho específicos da Shein».

A Public Eye destaca ainda que as exigências exacerbadas da retalhista vão além do chão de fábrica. «A Shein impõe exigências rigorosas não apenas às costureiras, mas também a outros prestadores de serviços. Por exemplo: os fotógrafos devem ser capazes de capturar de 70 a 80 modelos numa sessão fotográfica de oito horas, quatro a cinco vezes por semana; os modelistas devem entregar mais de 20 rascunhos exclusivos por mês; e os editores de imagens devem recolorir 90 fotos por dia», enumera.

A Shein refuta que estas sejam exigências da sua parte. «Compreendemos que os fornecedores possam estabelecer objetivos para os funcionários nestas áreas, contudo a Shein não faz estas exigências aos trabalhadores dos seus fornecedores», conclui.