Sector tem de arrumar a casa

No âmbito das actuais dificuldades e oportunidades com que a ITV nacional se depara num contexto de globalização, o Portugaltêxtil falou com Carlos Branco, administrador da Têxtil Nortenha, que salientou a necessidade de uma maior produtividade por parte das empresas e maior flexibilidade laboral por parte do Governo, enfatizando o actual optimismo dos empresários que efectivamente querem a mudança. PT – Qual é o nível do Volume de Negócios anual da Têxtil Nortenha e como tem evoluído ? Carlos Branco – No ano passado a facturação foi aproximadamente 34 milhões de euros. Nos últimos anos a facturação desceu ligeiramente, mas esta situação resultou de uma opção estratégica. Em anos anteriores chegamos a atingir quase 50 milhões de euros mas na verdade este volume implicava alguns riscos que não queremos voltar a correr. A nossa empresa para poder manter um nível bom, não deve exportar mais de 25 milhões, máximo 30 milhões de euros. O ano 2001 foi relativamente positivo com os lucros, antes de impostos, a atingirem os 332 mil euros. PT – A produção destina-se quase toda para a exportação… CB – É quase tudo para exportação, cerca de 95%. Para assegurar este nível de produção contamos com cerca de 550 empregados, dos quais 400 dependem directamente da Têxtil Nortenha. Nós somos um grupo, com uma empresa mãe e mais duas unidades de produção (a Nevantex e a Cortel). PT – O que é que representam as marcas próprias, no vosso negócio? CB – Vende-se muito pouco com marca própria. Nós temos estado a tentar lançar muito gradualmente a marca Frans Oliever, que representa cerca de 5% da facturação. Vendemos alguma coisa na Dinamarca, no México, Finlândia e Suécia. Neste momento, estamos em contacto com o mercado americano, no sentido de montarmos um projecto para tentar lançar a marca nesse mercado. Mas vai demorar algum tempo, já que se trata de uma marca ainda relativamente desconhecida. Temos tido contactos de outros mercados, mas são projectos que exigem uma grande capacidade financeira e por isso têm que ser analisados com muito cuidado. PT – Que tipo de projectos? CB – Alguns projectos passam pela criação de uma rede de lojas em sistema de franchising outros passam pela gestão de determinados espaços em lojas já existentes. Mas qualquer um destes projectos exige avultados investimentos e por isso temos que avançar devagar. O Governo nacional deveria dar mais apoio à internacionalização e à exportação de produto fabricado em Portugal. PT – Em que áreas da empresa têm efectuado os maiores investimentos? CB – Há pouco tempo concluímos um investimento de 7 milhões de euros, nas áreas do equipamento produtivo (renovação), sistema informático e lançamento da marca. PT – Em que é que se traduziu o investimento na área da informática? CB – A área dos sistemas de informação é um dos grandes problemas da indústria têxtil portuguesa e foi um dos grandes problemas da Têxtil Nortenha. Neste momento estamos a desenvolver um sistema de informação integrado para gestão completa da empresa. A flexibilidade, o serviço e a rapidez precisam de uma informação on-line, e nós não a tínhamos. Este já foi o terceiro grande investimento nesta área. Com o sistema que agora estamos a montar, temos tido alguns atrasos mas estou certo da sua funcionalidade na futura gestão da empresa. Os investimentos nesta área têm que ser feitos com muito cuidado, porque se não funcionarem podem chegar a bloquear as empresas. PT- Que leitura faz do actual momento do mercado e como perspectiva a evolução da concorrência ? CB – O actual momento não é nada bom. As causas estão no acréscimo da concorrência e na diminuição da procura. Os acontecimentos de 11 de Setembro tiveram mais impacto nos mercados do que se imagina. Por outro lado a concorrência ao nível dos preços tem aumentado. PT- Na confecção a solução passa pela deslocalização, para países de mão-de-obra mais barata? Do meu ponto de vista, não. Eu desejo, e faço por isso, que Portugal enquanto país de produção mantenha e até aumente o actual nível de competitividade na confecção. O que é que adianta deslocalizar para a Roménia, se daqui a cinco anos a Roménia está integrada no mercado europeu, com os custos de produção a subir ? Para onde vão depois as empresas que deslocalizaram para lá? Vão para África? África poderá ter algum futuro no negócio têxtil no segmento das grandes encomendas, mas para a moda não me parece possível. Eu acredito que a subida do nível de vida dos países em vias de desenvolvimento, irá abrir mais oportunidades para a produção na Europa, e neste caso Portugal terá uma palavra a dizer se souber tomar medidas e se fizer algumas reformas. PT – Que tipo de reforma á que são necessárias? É necessário e urgente melhorar drasticamente a produtividade das empresas e dos país. E isso passa pela revisão da lei laboral, privilegiando a flexibilidade e a responsabilização, e pela formação a todos os níveis, desde trabalhadores e técnicos a empresários. Daqui tem que resultar mais trabalho, mais qualificação e correcção. Depois será também necessário fazer uma aposta na indústria têxtil portuguesa que tem capacidade para “andar”. Se não conseguirmos melhorar o nível da produtividade a curto prazo, estaremos condenados. PT – O modelo que defende passa por apostar naquilo que nós fazemos bem e melhorar. CB – Exactamente. PT – É possível imaginarmos, em Portugal, a confecção daqui a alguns anos a pagar salários ao nível da Espanha? CB – Sinceramente, acho possível e eu não tenho problema nenhum em consegui-lo desde que o nosso pessoal trabalhe no mesmo nível de produtividade do Espanhol. Se a Espanha consegue pagar melhores salários porque é que nós não conseguimos? Porque em Espanha está-se a trabalhar com produtividade de 100% e nós estamos a trabalhar a 65%. É verdade que não podemos comparar a formação do espanhol com a formação do português. Nós estamos a anos de distância deles, e o problema também é esse. Este é um problema do nosso país e não apenas do sector. Mas o problema não está só aqui, existe também um problema de cultura e de atitude. O trabalhador português no estrangeiro também consegue produtividades de 100%. Em Portugal, a legislação protege o trabalhador incompetente e irresponsável e, como tal, é impossível ser competitivo num mercado de forte concorrência, porque quando é preciso mais empenho, flexibilidade e produção não a conseguimos ter. Nós estamos abertos a aumentos salariais superiores desde que nos dêem condições de trabalho e produtividade. Eu não vejo problema nenhum que Portugal, acompanhe os salários lá de fora, desde que haja simultaneamente produtividade e responsabilização. As empresas não podem sobreviver sem trabalhadores competentes e motivados. Aqui na empresa, temos uma equipa a controlar a produção na confecção e se esses técnicos virarem as costas, a produção baixa imediatamente. Como é que isto é possível? Como é que vamos conseguir mudar a mentalidade dessas pessoas, com uma legislação que não diferencia o trabalhador responsável do irresponsável? PT – Mas mesmo assim, não faz falta à ITV portuguesa empresas de maior dimensão que dominem marcas e canais de comercialização? Temos o caso da ITV espanhola que cresceu em torno de grupos como o da Inditex e Mango… CB – Parece muito difícil, que se consiga criar a partir de Portugal grupos de dimensão internacional. Exigem muito investimento e know-how que não está disponível em Portugal. Além disso, estes projectos têm que ter um mercado base com alguma dimensão, o que não é o caso de Portugal. O máximo a que podemos aspirar é termos grupos de dimensão nacional e pouco mais. PT – Mas nesse caso, significa que a generalidade da indústria nacional terá que continuar a ser subcontratada? CB – Mas é isso que nós sabemos fazer bem e podemo