Sara Lee “livra-se” da Courtaulds

A revelação desta semana da venda da Courtaulds Textiles ao grupo de investidores de Hong Kong PD Enterprises saiu caro à Sara Lee. Mas se deixar o anterior orgulho da indústria têxtil britânica custar mais de 500 milhões de dólares, isso significa que não há futurocomo fornecedordos retalhistas de vestuário mundiais? Brenda Barnes, directora-executiva da Sara Lee, anunciou a venda da Courtaulds Textiles ao grupo de investimento de Hong Kong PD Enterprises apenas alguns dias antes do festival anual Baishakhi Mela, realizado a 14 de Maio. Ela não estava, provavelmente, consciente deste simbolismo: o maior festival Bengali fora do Bangladesh não será propriamente notícia nos escritórios da Sara Lee em Chicago. Mas, a londrinaBrick Lane, local de realização do Mela, foi desenvolvida, tal como a Courtaulds, por Huguenot, e é agora quase na totalidade povoada por asiáticos. Os londrinos orgulham-seda igrejada rua – construída pelos Huguenot, transformada numa sinagoga depoisdestes terem enriquecido e abandonado o local, e agora numa mesquita. Mas a pacífica área transformada morfologicamente numa comunidade asiática nunca foi realmente notícia; apenas um facto da vida. A Courtaulds era, em1978, a maior empresa têxtil do mundo. Em 2005 contribuia ainda com 560 milhões de dólares para as vendas da Sara Lee, especialmente com em “private label” paraaMarks & Spencer. Com os têxteis e vestuário a dominar as exportações britânicas nos quase últimos mil anos, talvez se esperasse alguma preocupação britânica em relação aos últimos acontecimento da Courtaulds. Mas apesar dos sindicatos estarem compreensivelmente preocupados com a mudança de donos, os britânicos reagiram de forma pragmática com o aparente fim da Courtaulds como a um prato calmante de galinha tikka masala de Brick Lane. Mas porque será que está a custar tanto à Sara Lee “livrar-se” da Courtaulds? Aparentemente o grupo não ganha nada com o negócio, mas retém “certas obrigações da Courtaulds”, com uma pensão de 483 milhões de dólares “muito significativa”. Valor do “private label” A PD Enterprises não se inibe de gastar dinheiro: começou por comprar um grupo de marcas da Pacific Dunlop na China e nas Filipinas por 390 milhões de dólares. E ainda tem valor nos contratadores de “private label” em vestuário. Os negociadores não são mais perspicazes do que a Li & Fung de Hong Kong- que acabou de pagar 37 milhões de dólares pela Oxford Industries, a divisão de vestuário para mulher. Esta divisão vende para a Target e para a Wal-Mart, e contribuiu com apenas 260 milhões de dólares- metade das vendas da Courtaulds- para o volume de negócios da Oxford que se situou nos 1,3 mil milhões de dólares em 2005. A maioria parte dos negociantes de vestuário asiáticos querem comprar os maiores fornecedores de retalho locais- as pessoas que criam vestuário em “private label”, e depois assumem todos os riscos associados à produção e envio para as lojas. Quando as coisas correm bem, para um intermediário como a Li & Fung,constituem uma grande oportunidade para a racionalização da cadeia de fornecimento, e melhor acesso à Wal-Mart e Target para aumentar fortemente as suas vendas. Mas as coisas podem facilmente correr mal também para os fornecedores de “private label”. Em 2000, o fornecedor da Marks & Spencer Bairdwear praticamente “afundou-se” quando a M&S deixou de negociar com ele. E a Li & Fung recuou, na altura, em contratar outro fornecedor de vestuário da M&S, Coats Viyella,poiso retalhista não estava em condições de assegurar contratos a longo-prazo. Fornecimento directo Durante os últimos anos, os maiores retalhistas têm procurado fontes de fornecimento directas da fábrica-e a performance tem vindo a diminuir no maior fornecedor de “private label”, a Jones Apparel. Mesmo que os retalhistas não vão directamente, não há nenhuma lei que diga que as peças de roupa têm de ser desenhadas no país onde vão ser usadas. Verdade é que a Gap decidiu recentemente que irá vender mais vestuário na Europa se as peças forem desenhadas lá. Mas o grupo francês Groupe Mulliez também anunciou um piloto para desenhar uma parte significativa da sua linha em Bangalore, na Índia. Isto acontece porque os fornecedores de “private label” ocidentais têm um grande peso sobre os seus ombros. Os designers não são assim tão baratos. E despedi-los se um contrato maior for cancelado pode ficar muito caro. Deste modo, comprar um negócio de “private label” num país como o Reino Unido com leis razoavelmente apertadas pode ser arriscado- especialmente se a empresa depender demasiado de umcliente. Esse risco é menor se, como na Oxford Industries, o negócio abarcar vários clientes. O custo dos problemas de gestão é também menor num país onde as regras de despedimento são mais flexíveis – como sucede nos Estados Unidos. E a probabilidade de as coisas correrem bem é obviamente muito maior se o negócio fornecer a Wal-Mart em vez da M&S, cujas vendas de vestuário são cerca de um quarto das da Wal-Mart, que se situam nos 27 mil milhões de dólares. Agora, quase todos esses riscos estavam lá quando a Sara Lee pagou 239 milhões de dólares pelo negócio há seis anos atrás- uma má altura para pagar 20 vezes os ganhos de um produtor de vestuário. As mudanças legais e conjunturais fazem desta uma má altura para venderum negócio britânico comos problemas laborais e sociaisda Courtaulds.