Sapatos de Campeão

A Fábrica de Calçado Campeão Português é considerada pelos seus pares uma escola no sector do calçado e tem, ao longo dos seus mais 50 anos de vida, inovado nos seus métodos de fabrico e de gestão. Valores estratégicos que permitem à empresa apresentar resultados positivos pelo terceiro ano consecutivo, produzir sapatos sob a sua marca própria e para marcas como Timberland, Rockport, Sebago, e diversificar o negócio com o lançamento de uma linha feminina e lojas próprias.

Se hoje a empresa está em velocidade de cruzeiro, a verdade é que nem sempre foi assim. «Quando se começou a falar dos problemas de uma conhecida empresa de calçado já nós sabíamos o que isso era. Já tínhamos passado por vários ciclos que nos obrigaram a fazer reestruturação do ponto de vista industrial, a fazer um emagrecimento da estrutura a todos os níveis, além de uma mudança nos processos», declara Edgar Ferreira, responsável pela direcção comercial do grupo, ao Semanário Económico. Que acaba por desvendar o segredo que permitiu à Fábrica de Calçado Campeão Português sobreviver: «Maior produtividade, respostas rápidas, maior colecção e maior design». Actualmente, a aposta do grupo passa por 5 áreas estratégicas para a expansão do seu negócio: indústria de calçado, indústria têxtil e três áreas de retalho, cujas insígnias são Camport, SportStyle e Visual Sport.

Para se perceber a evolução da estratégia da Fábrica de Calçado Campeão Português é necessário recuar até 1955, altura em que a empresa fabricava manualmente 20 pares de sapatos por dia. Mas, os objectivos eram ambiciosos e em pouco tempo a empresa partiu para a industrialização e multiplicou por 40 a produção diária. A industrialização impulsionou a sua capacidade produtiva e, por consequência, o início da comercialização de grandes séries a preços pouco competitivos, uma vez que a produção de sapatos era ajustada ao gosto e pedidos das sapatarias. Produzidos com base num sistema de fabrico adquirido na antiga Checoslováquia, os sapatos da empresa vimaranense depressa deram nas vistas, e em 1973 exportava 90% da sua produção para importadores e fabricantes com marca, que acabariam por dar à empresa os primeiros contactos com a realidade dos produtos e serviços em mercados como a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Holanda ou a Escandinávia. A produção para a marca Adidas era já uma realidade, além de que é dessa altura o lançamento da sua primeira marca, a Panzer, uma linha à prova de água destinada a caçadores. No início da década de 1980 nasce a marca Camport que, tendo como público-alvo apenas os homens, a Camport, foi criada com objectivos bem definidos de internacionalização, conhece o sucesso no país de origem e nas grandes metrópoles internacionais. Vinte anos depois de ter nascido, a marca está de “boa saúde” e, numa evolução natural, “inaugurou” um segmento de mercado dedicado às mulheres. «No passado fizemos uma tentativa para entrar no segmento feminino que não correu muito bem, mas agora a opção foi fundamentada nos pedidos do próprio mercado», explica Edgar Ferreira, que não esconde o forte investimento do Campeão Português na marca Camport.

Dada a sua notoriedade da marca Camport dentro e fora do país, a empresa partiu para uma estratégia onde é a indústria quem serve o retalho. «Para mim esta foi, efectivamente, a grande mudança estratégica», sublinha Edgar Ferreira, que lembra que o Grupo Campeão Português tem actualmente quatro áreas de negócio, e que as vendas totais em 2005 foram de 23 milhões de euros, sendo que para este ano são esperados 25 milhões de euros. Com urna produção anual de 570 mil pares de sapatos, a Fábrica de Calçado Campeão Português fornece calçado de segurança para empresas nacionais e internacionais.

Uma vez controlada a área da qualidade e da técnica nos pares de sapatos que produz, a Fábrica de Calçado Campeão Português tem como planos para o futuro «a manutenção da estrutura industrial, tal como está, e crescer do ponto de vista do retalho», declara Edgar Ferreira. Numa clara verticalização do negócio, o grupo quer continuar a dar respostas rápidas às muitas marcas internacionais com quem trabalha, mas nunca ser “mandado” por estas. «Essa parte está a ser transportada para o Médio Oriente e Oriente», esclarece o responsável pela direcção comercial do Grupo, que afirma não estar nos planos da gerência deslocalizar. Contudo, admite poder recorrer a essa valência nalgumas linhas- «já o fazemos ao nível do têxtil» -, mas, sublinha, «o desenvolvimento será sempre feito por nós». A empregar cerca de 450 pessoas, a estrutura da Fábrica de Calçado Campeão Português começa agora a sofrer alterações, dada a aposta nos vários conceitos de loja.

A marca Camport, linha homem, cujo nome abrevia “Campeão Português”, há muito que atingiu a idade maior. Conscientes disso e do seu know-how, os responsáveis pela Campeão Português optaram por apostar no conceito de loja própria. «Neste momento temos três conceitos- Camport, Sportstyle e Visual Sport- e presença em grandes centros comerciais. O nosso objectivo é abrir até 2007 um total de dez lojas, num investimento estimado de um milhão de euros, e chegar a 2010 com 30 pontos de venda», revela Edgar Ferreira, que realça o facto de nas lojas Camport só venderem a marca, «o que torna o projecto demasiado ambicioso». No segmento têxtil as coisas são diferentes. «As lojas SportStyle são fruto da experiência do grupo na produção e comercialização de calçado e de têxteis».

Direccionadas para um público jovem, dos 13 aos 25 anos, a SportStyle aposta na relação qualidade/preço e na combinação de modelos que transmitem um “look” próprio. Para se impor, a marca apresenta anualmente duas colecções principais e mini colecções complementares, com uma oferta que engloba o têxtil (praia, fitness e streetwear), o calçado (chinelos, praia, sapatilhas/ténis) e os acessórios (sacos, toalhas, gorros, luvas, cachecóis, entre outros). Para actuar no segmento multimarca, o grupo criou a insígnia Visual Sport. «Nas lojas Visual Sport estão presentes as colecções mais recentes de marcas de desporto como Nike, Adidas, Reebok ou Puma, além de exclusivos ao nível do calçado», conclui Edgar Ferreira.