Sampedro investiu mais 15 milhões

Um investimento de 15 milhões de euros e um aumento da capacidade instalada permitiu à Sampedro ser contemplada com um Certificado de Conformidade ISO 9001 e atingir o objectivo de começar a exportar mais de metade da sua produção. O Jornal Textil falou com o administrador José Machado sobre esta e outras importantes matérias para a ITV nacional. Jornal Têxtil – Quando e como foi fundada a Sampedro? José Machado – A Sampedro nasceu em 1921. Foi uma ideia de um tio que era professor universitário e que achou que seria uma boa ocupação para o meu pai, que chegava da vida militar. A ideia tornou esta empresa desde sempre familiar, tendo envolvido também outros familiares, especialmente lavradores. Na altura a empresa foi criada com teares manuais, mas logo a seguir, em 1925, foram montados os primeiros teares mecânicos. JT – A empresa começou por ser especializada no linho? JM – Sim. Mais tarde é que entrou na transformação de algodão, mas continuando sempre com o sector do linho. Fomos sempre a maior empresa de tecelagem de linho em Portugal. JT – Qual era o mercado? JM – No início o mercado era somente o nacional e o das colónias. Era o mercado natural da empresa, e vendia essencialmente aos armazéns grossistas. Mais tarde, no caso das colónias, começámos a actuar directamente e desenvolvemos muito esse mercado. O mercado da indústria hoteleira só começou quando as grandes cadeias estrangeiras começaram a montar hotéis em Portugal. Este segmento continua a ser muito importante e interessa-nos muito. Nos anos 60 começámos a exportar, mas só atingiu valores significativos nos anos 70. Em 74 perdemos mercado das colónias e daí a aposta definitiva na exportação. JT – Exportavam para os Estados Unidos da América? JM – Não, o investimento no mercado dos Estados Unidos da América (EUA) foi mais tarde. A exportação começou muito pelos países nórdicos, e mais tarde é que se foi desenvolvendo para outros países. JT – Qual é a situação actual de repartição das vendas? JM – Neste momento 55 por cento da produção é para exportação e 45 por cento para o mercado nacional. Na exportação destaca-se os EUA com cerca de 18 por cento, a Espanha com cerca de 15 por cento e depois outros países como Suíça, Inglaterra, Holanda e Bélgica. Estamos também a desenvolver um novo mercado que nos parece ter algum potencial, que é o México. JT – A Sampedro oferece uma gama variada de produtos … JM – A nossa gama de produtos passa pelos linhos, panos de lençol, atoalhados de mesa e pelos felpos, sendo que os panos de lençol tem o maior peso. Em termos de secções produtivas, apenas não temos fiação. De resto temos todo o processo: tecelagem, tinturaria, estamparia, acabamentos, confecção e até uma secção de acolchoados. Temos um sector novo que ainda não está totalmente desenvolvido que é uma lavandaria industrial. Lavamos roupa para hotéis e começámos já a desenvolver o aluguer de roupa para os hotéis. JT – Como é que funciona este negócio do aluguer de roupa? JM – Todos os dias há recolha de roupa suja nos hotéis e lavamos cerca de cinco mil quilos num turno. Como estamos muito ligados à indústria hoteleira e como temos a experiência do mercado suíço, no qual, em vez de vendermos aos clientes tradicionais vendemos às lavandarias, interessou-nos experimentar este segmento e ganhámos conhecimentos e muitos clientes. Mandávamos todos os dias , excepto fim de semana, roupa para os hotéis e trazemos roupa suja para ser lavada nas nossas instalações. JT – Também subcontratam a confecção? JM – Grande parte da confecção é subcontratada, o que é habitual nas empresas maiores de têxteis-lar. Possuímos também um departamento de concepção e design.. Tudo é concebido internamente, muita vezes em parceria com os clientes. Também temos uma empresa de cogeração – Sampedro Energia, que fornece energia eléctrica, vapor e água quente para a fábrica e vende o resto, que é cerca de 85 por cento. JT – A Sampedro é conhecida por ser inovadora … JM – Sim, lançámos o primeiro lençol estampado, produzido em Portugal, por volta de 1960, para além de termos introduzido outras novidades. JT – Quais são os grandes números da empresa? JM – Pretendemos chegar ao final deste ano com 15 milhões de euros de facturação e cerca de 230 trabalhadores. JT – Como avalia a actual situação do mercado? JM – Estamos a sentir neste momento uma estagnação do consumo, especialmente no mercado nacional. Nas lojas, o mercado em geral está realmente um pouco estagnado. Nos hotéis sofre-se ainda com as consequências do 11 de Setembro. Mas esta dificuldade que se vive no mercado não tem só a ver com a estagnação do consumo, também tem a ver com o acréscimo de concorrência. E aí destaco a concorrência de países como o Paquistão, Índia, China… JT – E dos países da Europa de Leste? JM – Não sinto tanto, mas a Europa de Leste pode ser uma ameaça a médio prazo. JT – Que estratégias têm prosseguido para se diferenciar da concorrência? JM – Falando de investimentos, a empresa acaba de realizar um investimento significativo no âmbito do POE e outros projectos na área dos acabamentos, que é um investimento de cerca de 15 milhões de euros, nestes últimos anos, com o principal objectivo de melhorar a qualidade. A Sampedro é uma empresa que aposta nas séries mais pequenas, na qualidade e na diferenciação. Nesse sentido temos máquinas de quase todos os tipos para podermos fazer séries pequenas, menos metros e mais depressa. É o grande problema normalmente na indústria, o cliente que quer tudo rápido. JT – O que requer uma organização muito flexível… JM – Temos que ter, de facto, uma estrutura montada para esse efeito. Neste momento, já temos cerca de 600 clientes efectivos, nos diferentes mercados. JT – Quais são os próximos passos da Sampedro depois deste investimento? JM – Nós costumamos dizer que não podemos parar. Mas como fizemos investimentos muito significativos nos últimos anos, agora vamos fazer uma pequena pausa. JT – A Sampedro também se queixa da falta de quadros intermédios? JM – Sim, o facto de se ter terminado com as escolas industriais atrasou o país de uma forma quase irrecuperável. Mas, por outro lado, estamos muito satisfeitos com os engenheiros que são formados pela Universidade do Minho. Na Sampedro trabalham seis engenheiros têxteis formados pela Universidade do Minho. JT – A empresa tem alguma estratégia para afirmação da marca “Sampedro”? JM – Sim, na medida do possível sempre que podemos pomos a nossa marca. E isso tem um peso muito significativo. Vendemos quase tudo com a marca Sampedro, mas para os EUA é mais difícil porque os clientes têm a sua marca própria. Mas estamos conscientes que a nossa marca no estrangeiro ainda conta pouco. JT – Conseguem vender para as grandes superfícies nacionais? JM – Muito pouco. A grande superfície procura ainda muito o preço e não a qualidade. Mas nos armazéns mais especializados, como o El Corte Inglés, estamos presentes. JT – Como está o sector industrial em Portugal? JM – O sector está muito apreensivo. Penso que se pode dizer que hoje ninguém está optimista e há uma preocupação generalizada muito grande. Andamos aqui quase a chutar a bola para a frente para ver se conseguimos andar, mas sempre com o coração nas mãos. JT – Que conselhos daria à indústria? JM – Apostar na qualidade e tentar valorizar ao máximo os artigos. Nos produtos básicos temos dificuldades, já não temos hipótese de fazer um poliester-algodão, nem um algodão de t