A Sampaio, Ferreira & Cia. Lda., a primeira empresa têxtil do Vale do Ave, viu os seus credores decidirem na quinta-feira da semana passada, em assembleia, o seu encerramento definitivo, depois de mais de um século de actividade. O sucesso vivido nas décadas que se seguiram à sua fundação em 1896, tornando-se a mais completa fábrica têxtil algodoeira, com fiação tecelagem e tinturaria, e que chegou a ter mais de 2 mil funcionários, contrasta com as dificuldades sentidas nos últimos meses, envolvendo sucessivas greves por salários
Narciso Ferreira iniciou no final do século XIX uma actividade que viria a tornar-se o principal meio de subsistência económica e social de toda a região. Depois de inaugurar a Fábrica de Fiação, Tecidos e Tinturaria de Riba de Ave designação inicial da empresa , com duzentos teares, passou rapidamente de uma oficina têxtil a uma grande fábrica, que em 1910 já empregava 473 homens e 373 mulheres, a trabalharem por turnos, contanto já com electricidade gerada por uma central própria (que ainda hoje funciona e abastece outras empresa da região). No decorrer da sua longa vida foram sendo construídas estruturas de apoio aos trabalhadores, algumas delas também ainda em funcionamento, como escolas, um hospital, um quartel de bombeiros, um cine-teatro, um mercado, bairros residências e até estradas, numa estrutura onde, para além da empresa, envolvia os operários e os seus familiares muito para além das suas actividades fabris; tudo por iniciativa do benemérito Narciso Ferreira. Em lugar de ir aumentando sucessivamente a dimensão da fábrica, este empresários fundou entretanto novas unidades: em 1905 criou a têxtil Eléctrica, vocacionada para o fabrico de cobertores e de cotins grossos para aproveitar os desperdícios de algodão, e a primeira empresa electrificada da região; e fundou a Oliveira, Ferreira & Cª Lda., destinada à produção de telas cruas e flanelas. Em 1939 as três empresas empregavam quase três mil trabalhadores e vinte anos depois o grupo já dava emprego a doze mil pessoas na zona de Riba de Ave.
Mas a história reservava uma inflexão de percurso de crescimento da Sampaio Ferreira. Depois do 25 de Abril a de 1974, não só a administração da empresa foi sofrendo sucessivas alterações, com a diminuição da participação da família Ferreira nas rédeas da empresa, como se assistiu a uma gradual redução da carteira de encomendas. Raul José Ferreira, bisneto de Narciso Ferreira e responsável pela Fundação com o nome do bisavô, refere como principais causas o desaparecimento das colónias – para onde era vendida uma significativa parte da produção -, as nacionalizações, a rigidez da legislação laboral nacional, acompanhados pela exigência de modernização da empresa a vários níveis, com o inerente aumentos dos custos, e rematado com a agressiva concorrência do Oriente. Joaquim Simões, ex-funcionário da empresa e actual dirigente do Sindicato têxtil do Minho e Trás-os-Montes, refere que o desenvolvimento da vila de Riba de Ave se deve sobretudo à empresa, mas acrescenta como causas para o seu declínio a má gestão, e recorda os sucessivos conflitos com os trabalhadores e as respectivas greves.
Fica para a história da indústria desta região têxtil por excelência o itinerário empresarial de um tecelão visionário e inovador, que fez pela primeira vez o aproveitamento hidráulico para produção de energia e abastecimento de água para acabamentos têxteis, e que montou toda uma rede de infra-estruturas que envolveu grande parte da população e que sinergicamente ajudaram a criar a maior empresa têxtil algodoeira do país. Fica também a Fundação Narciso Ferreira, criada em 1945 pelo seu filho, Raul Ferreira, Conde de Riba de Ave, com o objectivo de gerir o património acumulado, onde para além de envolver o financiamento de algumas das infra-estruturas anteriormente enunciadas, ainda incluiu posteriormente as obras de uma Igreja e da casa paroquial, de uma bomba de gasolina, de um quartel da GNR, de uma estação de Correios. Actualmente o projecto cultural «Educação pela Arte», e a ajuda aos mais carenciados são a face mais visível da actividade da Fundação. O financiamento continua a ser da responsabilidade da família Ferreira, de alguns apoios estatais e das rendas dos bairros que foram sendo construídos ao longo dos anos para residência dos trabalhadores têxteis.










