Desde os anos 90 que os visionários têxteis tinham previsto o dia em que os circuitos electrónicos incorporados no nosso vestuário e nos tecidos do nosso mobiliário agiriam como criados invisíveis, ligando-nos a uma miríade de máquinas inteligentes que incluiriam a casa moderna. Designados por e-têxteis, a ideia era incorporar uma sequência integral de tecnologia no tecido de forma a que o utilizador estivesse não só conectado mas que fosse auto-suficiente electronicamente.
Os cientistas trabalharam intensamente para conseguirem incorporar televisores, câmaras de vídeo, teclados e outros engenhos no vestuário. O resultado final era fantástico, mas a mais leve lágrima tornava os circuitos imprestáveis. Os esforços para ligar os portadores do vestuário à Internet revelaram-se infrutíferos: quem quer um modem fazendo uma enorme saliência no bolso do seu fato de risca? O que estes gurus da engenharia ignoraram completamente foi o factor moda. «É necessário uma nova abordagem global», declara Maggie Orth da IFM (International Fashion Machines) em Boston. O mundo da moda e da tecnologia parecem finalmente convergir graças a Sundaresan Jayaraman. Este engenheiro do Georgia Institute não é um alfaiate brilhante, mas teve o engenho e arte suficientes para desenvolver vestuáriohigh tech de acordo com os cânones da moda. Há cinco anos Jayaraman inventou uma forma de produzir um tipo de tecido electrónico – uma mistura de fibras naturais e ópticas. Desde então tem estado a afinar a sua invenção e hoje está praticamente a postos para apremière. Ainda este ano, a Sensatex, uma empresa nova-iorquina, planeia comercializar a Smartshirt, produzida a partir do tecido criado por Jayaraman, para aplicações médicas como a monitorização dos sinais vitais do corpo. Sundaresan Jayaraman espera que a Smartshirt venha rapidamente a fazer parte do quotidiano do consumidor. Um grupo de inventores, inspirados no tecido de Jayaraman, surgiu nos últimos anos e tem seguido fielmente a visão do mestre: menos tecnologia traduz-se em mais eficiência. A invenção de Jayaraman não constitui um e-têxtil, pois os e-têxteis são bastante inactivos. O futuro pertence aos i-têxteis – i de interactivo. Este vestuário computadorizado deve poder comunicar com outra roupa de forma a construir uma rede de trabalho eficiente. Na teoria, cada tecido não deve ser tudo para todos, mas sim agir como um PC – um circuito imprimido que contém apenas aquelas coisas fundamentais para o comando da máquina, tais como bateria, CPU e memória. Um i-têxtil não faz nada até que vários aparelhos eléctricos estejam ligados. Pode-se colocar um microfone na lapela e um gravador no bolso, acoplar uns auriculares e um leitor MP3 ao chapéu ou prender um monitor de pressão sanguínea ao peito. Os sinais eléctricos e ópticos operam os aparelhos através do tecido As possibilidades estão limitadas apenas pela capacidade da memória e pelo peso dos dispositivos incorporados. As primeiras aplicações da tecnologia de Jayaraman será médica. A Smartshirt da Sensatex permitirá monitorizar a temperatura do corpo e a pressão sanguínea, transmitindo-as para um computador situado nas imediações (carro, casa, etc.). Se a leitura indicar que o portador está a ter um ataque cardíaco, a camisa poderá ordenar ao computador que ligue para as urgências ou para o médico de família. Os sensores podem ser facilmente colocados ou retirados da camisa. Isto facilita a lavagem e reduz o desgaste e o rasgo. A camisa poderá eventualmente ser usada para a monitorização de um vasto leque de aplicações médicas, como o nível de insulina em diabéticos, a extensão de ferimentos em soldados ou para a detecção da síndrome de morte súbita em recém-nascidos. O teste tecnológico mais difícil virá do mercado consumidor, onde a lei da moda é imperdoável. «O portador não deve sentir que está a usar um têxtil electrónico», sustenta Sundaresan Jayaraman. E deverá ter uma costela de cientista para poder usá-lo. Para atingir a indispensável invisibilidade, cada peça deverá ter, inicialmente, apenas algumas funções. A camisa pode monitorizar a temperatura do corpo e a corrente sanguínea. Um sapato pode ter uma interface com um alarme anti-roubo, enquanto o outro avalia o peso do portador. Todas as interacções complexas entre os sensores individuais deverão ser coordenadas por um computador externo, em vez de um PC no bolso das calças. Se esta invenção se revelar um êxito, outras inovações médicas seguir-se-ão rapidamente. Actualmente, o exército trabalha nas suas próprias aplicações para o soldado do futuro, muitas das quais estão a ser desenvolvidas no U.S. Army Soldier Systems Center em Natick, Massachussets. Estas incluem uniformes munidos de equipamento transmissor de dados que pode reduzir a carga a transportar pelo soldado no campo de batalha. Se a tecnologia de Sundaresan Jayaraman funcionar, não haverá diferenças perceptíveis entre um i-textile e um têxtil tradicional. Então, porque não conectar cada peça de vestuário? Porque não conectar o tecido utilizado em mobiliário, a roupa de cama e acarpete também? A indústria e-têxtil está atenta a esta abordagem i-têxtil, mesmo se ainda não adoptou a designação. Maggie Orth quer realizar feitos realísticos com os têxteis electrónicos. Recentemente, produziu um tecido com eléctrodos de calor e tinta termocromática, que muda de preto para rosa e depois novamente para preto de acordo com a temperatura da sala. Este tecido pode ser utilizado para forrar paredes e mobiliário. No início deste ano, a Burton Snowboards e a Apple Computer desenvolveram um blusão incorporado com o i-Pod, o leitor portátil de música digital da Apple. A New York 5050 e a Londons Knowledge Lab criaram uma m-pulseira, um acessório de punho capaz de retirar dinheiro de protótipos de novas caixas automáticas. «A m-pulseira é futurista», admite Despina Papadopoulos, fundadora de 5050. «Mas, ao mesmo tempo, é realista». A maior parte dosdesigners acreditam que agora é apenas uma questão de tempo até vivermos entre o que Diana Marculescu, engenheira na Carnegie Mellon University, designa como sistemas de ambiente inteligentes. As previsões mais moderadas apontam para vendas de vestuário inteligente na ordem dos 83 milhões de euros até 2006, outros sustentam que o mercado poderá valer 833 milhões de euros nessa altura, o que transformará os têxteis electrónicos numa delírio semelhante ao observada com os telemóveis nos últimos anos. Mesmo antes dos engenhos vestíveis arrancarem, as peças dopuzzle parecem estar a tomar os seus devidos lugares. A camisa activadora de alarme, o calçado interruptor da luz e o sofá controlo remoto já são tecnologicamente realizáveis. Dentro de alguns anos, os treinadores de basquetebol poderão ter os seus pupilos equipados com camisolas i-têxteis para monitorizar os seus sinais vitais. Um código de barras à volta do punho capaz de abrir qualquer porta é apenas o passo seguinte à m-pulseira. Com melhoramentos nas baterias flexíveis de empresas como a ITN Energy Systems no Colorado, todos estes dispositivos serão muito mais fiáveis.Embora conscientes de que o vestuário electrónico foi excessivamente publicitado no passado sem grandes resultados na prática, os especialistas estão confiantes de que agora é de vez, as novidades vão surgir em catadupas. Hoje a questão já não é se um dia todos iremos vestir roupa inteligente…











