Robôs mais perto da confeção

Apesar de estarem ainda longe de assumir todas as operações na confeção de vestuário, há cada vez mais desenvolvimentos tecnológicos que colocam os robôs nas linhas de produção, sobretudo de grandes séries e artigos mais técnicos.

Robotextile [©Robotextile]

Tem havido grandes progressos na investigação e desenvolvimento focado na manipulação de materiais flexíveis como têxteis, um dos principais desafios para a automação da indústria de vestuário. Mas uma investigação do Just Style mostra que a indústria da moda está ainda longe de adotar robôs de forma generalizada, uma vez que várias realidades técnicas e económicas constituem um obstáculo à utilização da tecnologia.

Especialistas da indústria contactados pelo Just Style concordam que as habilidades hápticas dos humanos, como guiar o tecido numa máquina de costura ou reajustar a sua posição, não podem ser facilmente substituídas. Por outro lado, há muitos centros de confeção com uma crescente necessidade de automação e de robôs devido à falta de trabalhadores qualificados que queiram trabalhar na indústria.

«A manipulação de bobinas individuais é já feita muitas vezes por robôs, já que as bobinas são corpos rígidos e, por isso, podem ser agarradas da mesma forma que objetos feitos de metal ou madeira», refere, ao Just Style, Falko Schubert, investigador associado de robótica e automação no Sächsisches Textilforschungsinstitut (STFI), na Alemanha.

«A manipulação de camadas individuais de tecido e inserção em máquinas também já pode ser feita por robôs, como demonstra o Robotextile», acrescenta, em referência à empresa alemã que desenvolveu pinças têxteis que usam fluxo de ar, aderência ou rolos de borracha para apanhar camadas individuais de tecido de uma pilha e coloca-las de acordo com um determinado plano.

Em contrapartida, Falko Schubert aponta a necessidade de muitos desenvolvimentos para termos uma costura robotizada, devido à dificuldade de integrar sensores e fazer o processamento com imagens/câmara para deteção da posição e ajuste do têxtil. «Embora acredite que isso será resolvido em algum ponto, acredito que manipular linhas individuais nunca vai funcionar», realça o investigador.

Michael Fraede, CEO da Robotextile, concorda com a avaliação de Falko Schubert, acrescentando que os robôs já dominaram a retirada de peças cortadas em camada única da mesa de corte. Michael Fraede vê a colocação de duas partes de tecido, uma em cima da outra, para serem costuradas como uma tarefa que será conseguida em breve. «A retirada de pilhas brancas da mesa de corte vai surgir eventualmente, mas nunca vamos ver as capacidades hápticas dos humanos no robô ao mesmo tempo», sublinha.

sewts [©sewts]
Atraso tecnológico

No entanto, o CEO da Robotextile considera que a maior parte da indústria têxtil está 40 anos atrasada face ao potencial nível de tecnologia de automação disponível atualmente. Para as empresas que querem automatizar, Michael Frade recomenda evitar a automação por atacado, escolhendo, em vez disso, a introdução e o desenvolvimento de competências cuidadosamente e passo a passo. «No início, deverão ser automatizadas atividades secundárias, já que essas atividades são aborrecidas e não acrescentam valor, fazendo com que os trabalhadores queiram despedir-se do seu emprego», indica.

Susanne Bieller, secretária-geral da Federação Internacional de Robótica (IFR na sigla em inglês), confirma ao Just Style que a federação está a analisar atentamente as empresas promissoras que se focam em robôs para materiais flexíveis como têxteis, destacando, como exemplos, a Robotextile, a também alemã sewts e a americana SoftWear Automation.

A sewts tem vindo a desenvolver tecnologia de vanguarda com recurso a imagem e machine learning para permitir operações de manipulação altamente inteligentes que são já usadas em lavandarias industriais, enquanto os Sewbots da SoftWear Automation usam uma combinação patenteada de visão computacional de alta velocidade com robôs leves para guiar o têxtil para a agulha com uma maior rapidez e precisão do que os humanos, alega a empresa.

Sewbo [©Sewbo]
Já a Sewbo assume uma abordagem diferente, endurecendo temporariamente os tecidos, o que permite que robôs industriais equipados com copos de sucção separem e apanhem facilmente camadas singulares de têxteis, como se estivessem a trabalhar com uma folha de metal. A Sewbo afirma que os painéis têxteis podem ser facilmente moldados e colados antes de serem cosidos de forma permanente. O endurecedor, que é solúvel em água, é removido no final do processo de confeção com uma simples passagem por água quente sem necessidade de detergentes. Além disso, o endurecedor pode ser recuperado e reutilizado. O tratamento usa álcool polivinílico, um polímero não-tóxico que já é usado no processo produtivo para reforçar o fio durante a tecelagem.

Espaço para crescer

Tendo em consideração a parte económica, Anton Schumann, sócio da consultora têxtil Gherzi, observa que embora os robôs tenham ganho força na produção de grandes volumes de têxteis técnicos e artigos para a cama, o mesmo não aconteceu na produção de roupa interior e camisas.

«Embora nomes como a Amazon, Uniqlo, H&M e Decathlon estejam já a usar robôs para costuras longas, dobrar, colar, selar a quente e embalagem, estes processos ainda são feitos, na maioria, em combinação com trabalhadores humanos e apenas para a produção de séries muito grandes», destaca Anton Schumann. «A exceção que me vem à cabeça é o vestuário ortopédico, já que esse sector está a sofrer com a falta de pessoal certificado na Europa, com a start-up ADOTC a servir exatamente esse mercado», acrescenta.

A ADOTC, acrónimo de Another Dimension of Textile Configuration, desenvolveu células de costura robóticas digitalmente conectadas que no futuro vão costurar automaticamente vestuário e têxteis para a casa, para a área da saúde e têxteis técnicos. O conceito ADOTC inclui todos os componentes para uma automação total, desde a interface até à tecnologia do robô, assim como sensores e pinças, integrando uma aplicação com tabelas e gráficos para permitir a monitorização da produção em tempo real.

No futuro imediato, Falko Schubert prevê que os grandes avanços nesta área possam estar relacionados com a automação dos dados, tendo destacado que os últimos anos trouxeram um forte progresso na utilização de inteligência artificial para a previsão de encomendas e volume de negócios, gerir reclamações de clientes e cumprir as exigências da cadeia de aprovisionamento.

«Há uma grande procura por este tipo de tecnologia, uma vez que o antigo modelo de negócio de encomendar 10 contentores de camisas do Bangladesh e ter lucro suficiente a vender quatro deles, enviando os restantes seis para aterro, já não é sustentável», aponta. «A tendência é para séries mais pequenas para as quais é necessário uma previsão digital precisa, que apenas os robôs com os seus algoritmos são capazes», conclui.

Robotextile [©Robotextile]