RFID protege o luxo

Daqui a alguns dias, os clientes que entrarem na boutique Chanel da avenida Montaigne, em Paris, poderão ler um aviso a informar que os artigos de prêt-à-porter da marca estão equipados com uma etiqueta electrónica ou etiqueta RFID (ver notícia no Portugal Têxtil). Esta etiqueta permite controlar melhor a recepção dos artigos no ponto de venda, fazer os inventários e diminuir o trabalho e o número de funcionários da logística. Cerca de 20.000 artigos vão ser etiquetados desta forma. Estas etiquetas, que permitem identificar individualmente cada artigo, serão de seguida colocadas na caixa e não serão reutilizadas. Este projecto, levado a cabo pela Cap Gemini e Paxar Avery, é um primeiro teste para a griffe francesa. Outras grandes marcas de luxo começaram recentemente a realizar experiências, como é o caso da Prada, que também instalou num dos provadores da sua loja de Nova Iorque um "espelho inteligente". Todas as marcas francesas da grande distribuição começam também a iniciar operações piloto, após terem seguido com interesse as primeiras experiências do gigante americano Wal-Mart, que anunciou logo em 2003 o seu projecto de marcar com RFID todas as embalagens da sua cadeia de distribuição. A seu pedido, os fornecedores tiveram de entregar os seus produtos em caixas e paletes equipadas com chips RFID. Hoje são 600 os fornecedores que cumprem esse requisito, enquanto que cerca de meia dezena de centros de distribuição e aproximadamente mil de lojas da Wal-Mart estão equipadas com aparelhos de leitura para estas etiquetas. Também o Carrefour consagra, hoje em dia, uma boa parte das suas pesquisas a esta nova tecnologia. «80% dos nossos projectos internos são projectos RFID», revela Yves Saint-Martin, director do departamento de vigilância e inovação do Carrefour. Ao contrário do seu homólogo americano, o distribuidor francês deseja verificar o interesse desta tecnologia na gestão do ponto de venda e não somente na gestão da logística a montante. Diversas iniciativas complementares foram lançadas pela marca, implicando diversos universos (têxtil, produtos culturais, …) e diversos actores da cadeia: o produtor, o entreposto e a loja para um projecto cultural; o entreposto para um projecto Epcs (impressoras, câmaras …); e uma iniciativa "etiquetagem de expedição" de marcação das paletes no entreposto para a recepção nas lojas. Estes projectos do Carrefour são em parte financiados pelo programa europeu Bridge (Building Rádio Frequency Indentification Solutions for the Global Environment) – do qual faz parte o Carrefour, juntamente com outras 31 organizações -,visando demonstrar a instalação e a utilização de aplicações RFID na Europa com base no modelo de rede Epc (Electronic Product Code), com o objectivo de constituir um modelo standard de etiquetas RFID e uma rede de partilha de informações, a Eps Network. O projecto-piloto para o têxtil será lançado a partir de Janeiro de 2008 nas lojas belgas do Carrefour e vai incidir nas roupas femininas da marca Max Azria by Tex. As peças devem ser preparadas no processo de produção pelo próprio fornecedor, com etiquetas fornecidas pela Paxar Avery, para depois serem lidas na recepção do entreposto e também nas lojas. O projecto será executado pela sociedade Nbgid, que já efectuou diversos projectos-piloto no entreposto da DHL Fashion para a Jacadi e a Véronique Delachaux e que equipa actualmente a Ecce, assim como pelo gabinete KSA. Avaliar as economiasO distribuidor deseja ainda avaliar os lucros resultantes da instalação desta tecnologia ao longo de toda a cadeia, desde os fornecedores têxteis até às lojas. O Carrefour pretende verificar que economias permitem a RFID em termos de custos logísticos, de custos de modificação de stocks e de inventários, e se a tecnologia permite melhorar o rendimento ao mesmo tempo que diminui as rupturas de stock. Após estas diversas experiências, o Carrefour vai enviar aos seus fornecedores um "livro branco" com as boas práticas, relembrando as normas em vigor e os objectivos a atingir. Mas o distribuidor é prudente quanto à adopção da RFID a grande escala, uma tecnologia nem sempre bem aceite pelos consumidores, zelosos pelo respeito da sua privacidade. «A RFID na distribuição só existirá se os consumidores não a rejeitarem, e isso ainda não foi atingido», explica Yves Saint-Martin. Certas organizações de consumidores muito activas, como a Caspian (Consumers Against Supermarket Privacy Invasion and Numbering) manifestam há algum tempo a sua apreensão. Esta associação americana já obrigou a Benetton a parar com as primeiras experiências RFID em 2003. Em 2004, forçou a Metro a retirar os chips RFID inseridos nos cartões de fidelização. Mais recentemente, travou a Levi's, que tinha começado a testar esta tecnologia nas lojas do México.