Revolução têxtil na Finlândia com cérebro português

Pedro Silva, atualmente investigador de pós-doutoramento na Universidade de Aalto, na Finlândia, liderou um projeto de têxteis responsivos que mudam de forma quando aquecidos.

[©Aalto University-Pedro Silva]

Estes têxteis que reagem à temperatura, desenvolvidos na Universidade de Aalto, na Finlândia, reúnem uma tecnologia já conhecida, nomeadamente elastómeros de cristal líquido (LCEs), desenvolvidos nos anos 80, com uma nova abordagem, revela uma notícia publicada no site da universidade finlandesa. «Os LCEs são materiais inteligentes que podem responder ao calor, à luz ou outros estímulos e que têm sido usados como filmes finos em robótica soft. Embora os LCEs tenham sido transformados em fibras, até agora não tinham sido usados em têxteis», refere a instituição.

Em colaboração com investigadores da Universidade de Cambridge, uma equipa do grupo de investigação Multifuncional Materials Design da Universidade de Aalto usou fios de LCE para criar têxteis utilizando processos convencionais e testaram o seu comportamento.

Pedro Silva [©Aalto University]
Os fios foram aplicados em diferentes estruturas, incluindo cetim, twill e rib. Fizeram duas versões de cada debuxo, uma com um fio flexível de LCE e outra com um fio rígido de LCE e depois testaram como respondiam ao calor quando colocados sob uma lâmpada de radiação infravermelha.

Todos os têxteis com LCE contraíram quando aquecidos, embora as respostas exatas tivessem sido diferentes. As mudanças mostraram ser reversíveis – os têxteis recuperam a sua forma original quando a temperatura baixa.

«Inicialmente, o impacto da utilização de técnicas têxteis industriais com estes tipos de novos materiais não foi claro para nós. A elasticidade dos dois tipos de fio LCE é comparável ao elastano ou até mais leve. Isso significou que era essencial compreender se a indústria têxtil pode utilizar estes fios e como a combinação com os fios convencionais impacta o seu movimento», explica Pedro Silva.

De seguida, a equipa combinou os fios LCE com fios de linho e poliamida num padrão radial para tecer um círculo que se conseguisse levantar sozinho e tornar-se num cone quando aquecido. O calor fez com que o fio de LCE contraísse, surtindo o efeito desejado. E quando arrefeceu, o cone voltou a ser um círculo plano.

[©Aalto University-Pedro Silva]
Esta experiência, que é uma prova de conceito, e cujos resultados estão publicados no jornal Advanced Materials, faz com que a utilização de têxteis reativos possa ser uma realidade mais próxima do mercado. «Desde o primeiro dia deste projeto, assumimos o desafio de trabalhar com especialistas em diferentes disciplinas das duas instituições. A investigação foi bem-sucedida e beneficiou muito desta multidisciplinaridade e agora os resultados estão disponíveis para todos. Esperamos que o nosso trabalho desencadeie novas formas de pensar no que diz respeito aos materiais de amanhã», afirma Maija Vaara, uma estudante de doutoramento da Universidade de Aalto, que realizou as operações de tecelagem e tricotagem.

Os têxteis com mudança de forma podem não só contribuir para dar novas estéticas a designers de moda, mas também podem integrar soluções para a monitorização de parâmetros de saúde, melhorar o isolamento térmico e fornecer novas ferramentas para gerir a acústica de uma sala e o design de interiores.