Recomendações para o novo Governo – a visão da Familitex

Os empresários da indústria têxtil e vestuário elencam os principais desafios que enfrentam atualmente e apontam algumas medidas que deverão ser tidas em conta pelos governantes eleitos. Esta é a perspetiva de Afonso Barbosa.

Afonso Barbosa

Antes de saberem o resultado das eleições de 10 de março e de como seria constituído o próximo Governo do país, os empresários questionados pelo Jornal Têxtil apontaram algumas das prioridades e eventuais medidas que deveriam ser assumidas nos próximos tempos. O reconhecimento da importância da indústria têxtil e vestuário na economia e estrutura social do país foi uma das referências, a juntar-se à revisão fiscal, tributação sobre o trabalho, apoios à internacionalização e modernização, incluindo na transição digital, defesa dos interesses da indústria em Bruxelas, mas, sobretudo, a estabilidade desejada para que as empresas possam ser competitivas nos mercados internacionais.

Esta é a perspetiva de Afonso Barbosa, administrador da Familitex.

«Na parte que me toca, acho que deveriam olhar para a têxtil de uma forma diferente, porque a têxtil já é uma boa parte do PIB em Portugal, movimenta muito dinheiro e emprega muita gente. Fala-se muitas vezes de financiamento, mas sinceramente até acho que a nível de financiamento, nestes últimos anos, não houve falta. Apareceram projetos interessantes, mas nem toda a gente os pode fazer porque, num projeto, o Estado não está a dar nada diretamente. Quando fazemos um projeto, temos de pagar tudo à frente, antecipar as compras, temos prazos para o concluir, fazemos tudo com o nosso dinheiro ou temos de ter financiamentos aprovados. As empresas mais pequenas, aquelas que querem crescer, têm mais dificuldades, porque não conseguem ir à banca e isso é terrível. Acho que o primeiro passo era ajudar esses mais pequenos, a ver se começávamos a ter mais empresários em Portugal. O dinheiro está a vir mais para as empresas que já são grandes, que têm grandes volumes, com bom nome no mercado, e aqueles estão a principiar não sabem por onde começar. Era importante para o desenvolvimento da indústria apoiar esses mais pequenos, porque, às vezes, podem estar alguns talentos escondidos. Temos boas pessoas, com formação, que só não arrancam com um negócio porque não têm possibilidades de o fazer.

A redução de impostos não é nada que toda a gente não saiba, mas não é redução de impostos para beneficiar as empresas, mas para as empresas conseguirem aumentar mais os funcionários, porque anda toda a gente desmotivada. Temos dificuldades em motivar um funcionário – podemos chegar ao fim do ano e dar um salário a cada um que naquele dia eles ficam todos contentes, mas passado três dias já se esqueceram dos 500 ou dos 1.000 euros que lhes foram dados, porque o que vão receber a seguir não chega para o dia a dia. Ao invés de pagarmos ao Estado os impostos que pagamos, eles reduziam essa carga fiscal e nós aumentávamos o pessoal. Acho que era melhor para a economia».