Recomendações para o novo Governo – a visão da Albano Morgado

Os empresários da indústria têxtil e vestuário elencam os principais desafios que enfrentam atualmente e apontam algumas medidas que deverão ser tidas em conta pelos governantes eleitos. Esta é a perspetiva de Albano José Morgado.

Albano José Morgado

Antes de saberem o resultado das eleições de 10 de março e de como seria constituído o próximo Governo do país, os empresários questionados pelo Jornal Têxtil apontaram algumas das prioridades e eventuais medidas que deveriam ser assumidas nos próximos tempos. O reconhecimento da importância da indústria têxtil e vestuário na economia e estrutura social do país foi uma das referências, a juntar-se à revisão fiscal, tributação sobre o trabalho, apoios à internacionalização e modernização, incluindo na transição digital, defesa dos interesses da indústria em Bruxelas, mas, sobretudo, a estabilidade desejada para que as empresas possam ser competitivas nos mercados internacionais.

Esta é a perspetiva de Albano José Morgado, administrador da Albano Morgado.

«Era importante que o novo Governo, para começar, conseguisse selecionar um Ministro da Economia que ouvisse as empresas e que tivesse competência para tal, que conhecesse o sector e Portugal. Ultimamente isso parece que não tem acontecido muito. Saber ouvir, quer as empresas, quer as associações, seria uma virtude e poderia significar que estávamos a dar passos bastante importantes. Depois, seria interessante continuar com uma política menos burocrática no apoio à internacionalização. Muitas vezes isso é mais importante do que apenas subsidiar as empresas. A burocracia deveria ser reduzida, em termos de toda a panóplia de documentos e de inspeções que estão associadas às empresas, porque além do custo, é o tempo que se perde com documentos repetitivos. Por exemplo, o trabalho que é feito pelas empresas a fornecer elementos mensalmente à estatística, muitos deles não deveria ser o Instituto Nacional de Estatística a recolher esses elementos. Nós é que estamos a trabalhar para o Estado. Nós é que estamos a dar informação. Os próprios sistemas deviam estar interligados, o Ministério das Finanças com o Instituto Nacional de Estatística – a faturação ou quanto exportamos, as Finanças sabem isso pelas faturas. Portanto, o Estado deveria já ter um circuito informático interligado – a digitalização de que tanto falam para as empresas e que eles próprios não aplicam. E ter, também, o controlo, dentro do possível, de tudo aquilo que são os custos energéticos e o peso que isso representa para as empresas. Numa fatura de eletricidade, 50% são taxas. As taxas acessórias e paralelas são muito superiores aos custos energéticos. É impossível as empresas serem competitivas, mesmo em Portugal, com custos energéticos e com taxas acessórias como Portugal tem. O custo da mão-de-obra não é o grande problema. O problema é tudo o que são os impostos indiretos sobre as empresas e sobre as famílias. O próximo Governo tem de olhar para isso como deve ser. Mesmo em relação ao salário mínimo, o aumento que houve obrigou à atualização das várias categorias na nossa empresa e o Ministério das Finanças não tem o mínimo de consciência daquilo que está a fazer, porque, muitas vezes, esses aumentos implicam passar a um escalão de IRS diferente – tive cerca de 10 pessoas a virem ter comigo para eu baixar o salário em cerca de cinco euros porque esse aumento implicava que recebessem menos 15 euros. Só em Portugal é que isto pode acontecer. Portanto, não é o problema do salário mínimo, não é quanto é que pagamos, é quanto as pessoas recebem. O importante é saber qual é o valor líquido que cada pessoa recebe mensalmente. A revisão que fizeram em junho devia ter sido feito logo em janeiro, quando houve a atualização dos salários mínimos. E agora é preciso muito cuidado a rever as taxas de IRS e os escalões, para não acontecer o mesmo, as pessoas serem aumentadas e passarem a receber menos, que isso é uma vergonha».