RAP muda paradigma

A responsabilidade alargada do produtor deverá ser implementada em breve no mercado europeu, trazendo implicações para as empresas da indústria têxtil e vestuário, como destaca João Valério, CEO da Recutex.

João Valério

Na sua intervenção durante a sessão de encerramento do projeto 100% ModaPortugal 2021-2023, João Valério fez o retrato de um mundo «doente», onde se destacam as alterações climáticas, o desperdício alimentar, a dependência de combustíveis fósseis, a escassez de água, a excessiva extração de recursos naturais e de emissões de dióxido de carbono. A tudo isso junta-se uma cada vez maior pressão causada pelo aumento da população, que em 2022 terá atingido os 8 mil milhões de pessoas – um valor que deverá crescer para 10,4 mil milhões até 2100.

«Todos os anos, gastamos quase o dobro dos recursos da Terra», sublinhou o CEO da Recutex. «Isso implica que temos de pensar no mundo de uma maneira diferente», acrescentou, tomando medidas para travar as crises climáticas e o uso excessivo dos recursos naturais, educar as gerações futuras a manter o planeta vivo, apostar na bioeconomia azul e nas energias renováveis.

[©Rfive Project]
Em termos de consumo, e também no que diz respeito à moda, «estamos a voltar um pouco ao passado», com a reutilização das mesmas peças de roupa por diferentes gerações, assim como o regresso dos objetos de pano, como sacos do pão e guardanapos, por exemplo, enquadrou João Valério.

É neste contexto de fundo que surge a responsabilidade alargada do produtor, que tem como pressuposto que os custos da gestão de resíduos resultantes da produção e descarte de um determinado produto devem ser suportados pelo respetivo produtor, e que o CEO da Recutex definiu como «uma taxa de produto que fica integrada no preço» e que tem como objetivos promover a reciclagem e melhorar o desempenho ambiental do ciclo de vida dos produtos. «O que estamos a dizer aqui é que quem vai pagar a RAP é o consumidor», sublinhou.

Em França, onde a responsabilidade alargada do produtor está implementada há vários anos, os números de 2022 mostram que, dos têxteis e vestuário recolhido, 58,6% foi para revenda e 41,4% foi para reciclagem, dando origem a trapos, fios, fibras para geotêxteis e automóveis e plásticos, citou.

Desafios em Portugal

Para a aplicação em Portugal, João Valério destacou que «existe uma série de constrangimentos», a começar pela falta de eco-design. «Se a peça for já concebida para depois ser desmantelada, para nós, que estamos a reciclar, demora menos tempo e gasta menos energia», referiu.

Há ainda um atraso na implementação da recolha seletiva de têxteis em Portugal, que terá de estar em funcionamento em 2025, e dificuldades associadas ao passaporte digital do produto. «A parte teórica está feita, mas a parte prática, na parte da reciclagem, devia dizer até a cor da peça, porque quando estamos a reciclar – as máquinas de reciclar são caras, à volta dos 10 milhões de euros, porque existe uma tecnologia patenteada de seleção –, se existir um passaporte digital com a cor e a composição, nós, através de um código de barras, conseguimos fazer a separação de uma forma relativamente simples e com um custo que nada tem a ver com o atual», explicou o CEO da Recutex.

João Valério enumerou também os desafios da RAP no futuro próximo, entre os quais se encontram a redução do uso de materiais virgens, «o que significa introduzir, cada vez mais, materiais reciclados», o design para a circularidade e o envolvimento dos consumidores, uma vez que atualmente «existe uma grande falta de conhecimento dos consumidores sobre o que estão a comprar – partimos do princípio que se a peça custa 10 euros deve ser má», exemplificou.

Outros desafios são a colaboração e regulação, «porque ainda não está nada definido», a transparência na cadeia de fornecimento e a adoção de tecnologias sustentáveis.

Rfive Project

O CEO da Recutex, que tem no currículo os projetos Rfive, em parceria com a Lurdes Sampaio, que transforma vestuário em fim de vida e sobras da confeção em novas malhas, e esteve envolvida na reciclagem das fardas do McDonald’s, que foram transformadas em sacos de tecido reutilizáveis, deixou ainda alguns conselhos para as empresas de têxteis e vestuário face à RAP, a começar por «pensar o futuro fora da caixa, a reciclagem não como marketing, mas sim como única solução possível». Inovar pelo design, estabelecer parcerias estratégias e utilizar o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para inovar dentro da área para prolongar o ciclo de vida dos produtos são outras das sugestões deixadas por João Valério, assim como apostar em produtos de qualidade. «A RAP é uma oportunidade de apresentar produtos de qualidade», podendo, eventualmente, ser uma mais-valia para a indústria portuguesa se penalizar os produtos de baixa qualidade, incluindo os provenientes de países produtores low cost. «Para o cliente, o que conta é o preço. Se a RAP ajudar a equilibrar o preço, pode ser que a Europa, em termos de indústria têxtil, tenha mais sucesso», conclui.