Químicos desafiam indústria

O mix complicado de exigências legais, normas e certificações que as marcas e retalhistas enfrentam quando têm de lidar com químicos na sua cadeia são uma das questões mais prementes para a indústria, com a solução a passar por mais colaboração entre os players do sector, segundo Sean Cady, vice-presidente de gestão de produto e sustentabilidade na VF Corp. No que concerne à gestão de químicos na cadeia de aprovisionamento, Cady descreve a «complexidade louca» das exigências legais, normas e certificações que a empresa tem de dominar. As marcas de vestuário e calçado da VF incluem a The North Face, Timberland, Wrangler, Lee, Vans e Nautica, que são comercilaizadas em mais de 150 países. «Quando efetuamos uma encomenda nem sempre sabemos em que país esse produto será vendido ou as leis que vai ter de cumprir – por isso tentamos desenvolver um produto mundial, que possa ser vendido em qualquer parte do mundo», explica. No que diz respeito à utilização de alguns químicos, há «um enorme conjunto de exigências legais» para cumprir, incluindo os requisitos do Reach na Europa, os da Consumer Safety Products Commission (CSPC) nos EUA e os requisitos nacionais para testes de produtos na China. Além disso, muitos estados norte-americanos têm as suas próprias leis em relação a químicos para vestuário e calçado. Para além de questões legais há ainda focos especiais em áreas à volta dos químicos – incluindo esforços para eliminar PVC, os alquilfenóis e alquilfenol etoxilados (APEOs), corantes dispersos sensíveis, dimetilformamida (DMF), dimetilfumarato (DMFu), perfluorooctanossulfonatos (PFOS), ácido perfluorooctano (PFOA) e bisfenol A (BPA). E para além destas exigências, existem diversas certificações – incluindo o Oeko-Tex, GOTS e Bluesign – que regulam a utilização de químicos nos produtos. «Todas estas questões específicas e complexas não se alinham necessariamente», sublinha Cady, acrescentando que «do ponto de vista de uma marca a fazer uma encomenda numa fábrica, como é que sabemos que normas se deverão aplicar a esse produto? E como sabemos quais são as normas certas, não apenas para o ambiente mas para o nosso negócio?». A VF gere esta «complexidade louca» criando as suas próprias normas, que os seus produtos têm de cumprir. A sua lista de substâncias restritas, por exemplo, permite produzir artigos que podem ser vendidos em qualquer parte do mundo, «sabendo que não só respondem aos requisitos legais mas também aos padrões que os nossos clientes ou consumidores consideram ser da nossa responsabilidade». Mas esse é apenas o primeiro passo, afirma Cady. «No que diz respeito a gerir os químicos na nossa cadeia de aprovisionamento, as normas são apenas o início. Focamo-nos muito nos nossos sistemas de gestão, na educação das pessoas que fazem os nossos produtos, nos acordos com vendedores de matérias-primas, na educação dos fornecedores de segundo e terceiro nível e na colaboração com a indústria química. Mas como o negócio tem mais de 1.000 fornecedores de primeiro nível, temos de validar os nossos esforços através de auditorias às fábricas e com testes aos produtos e águas residuais». Ilustrando a complexidade da tarefa, sublinha que um casaco da The North Face tem mais de 40 componentes individuais – desde o tecido e o forro ao fecho e enchimento – que vêm de vários fornecedores de matérias-primas e contêm químicos diferentes. Colaboração é a chave Este é um problema que está a ser abordado por marcas e retalhistas de todo o mundo e Cady defende que a indústria precisa de colaborar para tentar simplificar o processo e avançar na gestão de químicos. As questões incluem falta de conhecimento sobre utilização de químicos ao nível da fábrica, listas de substâncias restritas confusas e difíceis de perceber e muitas vezes dificuldade em compreender a informação da própria indústria de químicos. «As duas vias que eu proporia é a continuidade na colaboração próxima na indústria entre fornecedores de químicos e as marcas, os fornecedores de serviços, os laboratórios e os governos – todos a trabalhar para standards padronizados. A segunda área é os fornecedores de químicos darem informação clara sobre o que compõe os químicos», indica o vice-presidente de gestão de produto e sustentabilidade da VF. No entanto, Gerhard Wolf, diretor de serviços técnicos para a Europa de químicos de performance para pele da BASF, afirma que o problema está noutro lado. «Nem a indústria de químicos nem o produtor, fábricas ou empresas de curtumes são capazes de fazer essa padronização porque a pressão vem das marcas que criam cada vez mais especificações para diferentes tipos de artigos. E se não tivermos padronização e acordos entre as marcas – e não vejo isso no futuro – em relação às especificações, métodos de teste e limites, vamos continuar a enfrentar os mesmos problemas no futuro», justifica Wolf. O Higg Index da Sustainable Apparel Coalition – que está a ser desenvolvido para medir a sustentabilidade e o impacto ambiental na cadeia de aprovisionamento – é visto como uma iniciativa fundamental para ajudar a minimizar esta divisão. O objetivo último é um rótulo nos produtos direcionado para o consumidor, com Cady a explicar que «este rótulo vai comunicar com os consumidores e esperamos que eles coloquem as suas decisões de compra onde estamos a colocar os nossos esforços».