Quem tem de pagar a descarbonização?

Um novo estudo refere que não devem ser apenas os produtores a arcar com o custo de descarbonizar a cadeia produtiva para que a indústria da moda atinja as metas de emissões a que se propôs.

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De acordo com o estudo Towards A Collective Approach: Rethinking Fashion’s Doomed Climate Strategy” da Transformers Foundation, entidade focada essencialmente na indústria do denim, há uma desconexão preocupante entre os objetivos com base na ciência da indústria têxtil e a viabilidade e equidade nas cadeias de aprovisionamento de vestuário.

O documento, que aborda as questões críticas relacionadas com as iniciativas climáticas desta indústria e apela a uma bordagem coletiva para responder aos desafios da descarbonização, refere que a mitigação carbónica vai chegar a um impasse se os fornecedores tiverem não só de fazer a maior parte do trabalho para descarbonizar, mas também pagar para isso. E tendo em conta os novos desenvolvimentos regulamentares que deverão afetar a indústria, há uma necessidade urgente de uma abordagem mais prática e equitativa.

A Transformers Foundation sublinha que apoia os objetivos coletivos do Acordo de Paris, mas a sua investigação sugere que a abordagem deve evoluir para assegurar a praticidade, justiça e responsabilidade partilhada. Isto significa garantir que que a responsabilidade pela ação climática é partilhada em vez de ser um fardo para os produtores.

«A atual abordagem à ação climática faz com que seja uma responsabilidade do fornecedor, em vez de uma responsabilidade coletiva», destaca Kim van der Weerd, diretora de inteligência na Transformers Foundation e coautora do estudo. «Isso não só é uma iniquidade, mas também impraticável e está condenado a falhar. Ao propor uma definição de ação coletiva, o nosso estudo fornece um enquadramento de como podemos acelerar a ação», acrescenta.

Segundo Kim van der Weerd, mais de 80% das emissões de uma marca ou retalhista são de âmbito 3, não sendo diretamente controladas por elas.

«Para um produtor de vestuário ou uma fábrica de denim, descarbonizar à mesma taxa é uma tarefa maior e o contexto em diferentes localizações varia muito. A questão de quem paga a conta é muitas vezes feita porque a maior parte das mudanças têm de ser feitas na fase da produção», explica, citada pela Innovation in Textiles.

O estudo aponta para a necessidade de uma soma de 4 biliões de dólares por ano até 2030 só em energia renovável para fazer a transição da economia mundial para zero emissões até 2050, sendo que na indústria da moda, em particular, o Apparel Impact Institute refere ser preciso um bilião de dólares para financiar a descarbonização do sector.

«Há alguns investimentos que podem ser feitos que podem gerar um retorno relativamente rápido, o que, no geral, não é percebido. Esses investimentos também aumentam os custos operacionais que podem resultar em preços mais altos, mas estes produtores não têm uma visão sobre as suas encomendas futuras das marcas e retalhistas. Estão a responder a exigências de mudança vindas de uma parte do mundo que têm de ser feitas noutros sítios sem uma compreensão completa da complexidade da situação», resume Kim van der Weerd.