Quem tem culpa desta vez?

A crescente agitação na indústria de vestuário do Bangladesh ateou uma série de motins entre os trabalhadores que protestam contra os baixos salários. Na semana passada, funcionários governamentais e representantes sindicais concordaram em introduzir aumentos salariais, mas os valores devem ainda ser negociados. Isto, segundo Michael Flanagan- um observador privilegiado dos últimos acontecimentos -, constitui apenas a ponta do iceberg.Entre 2004 e o primeiro trimestre de 2006, o país- cuja indústria muitos activistas previram a ruína em 2005- representava um quarto de todo o vestuário importado pela UE, EUA e Japão reunidos, de acordo com os números da Clothesource TradeTrak.Embora tolhida pelo aumento das importações com origem na China (que representavam mais de metade do crescimento), não há dúvida que a história da indústria de vestuário do Bangladesh é notável. Afinal, a China tem uma densidade populacional nove vezes superior.O Bangladesh chegou ao sucesso conservando os preços baixos ? vendendo quase o dobro ao Ocidente, tal como a Índia este ano. Apesar de todo o espalhafato que os proteccionistas fizeram face aos preços chineses no início de 2005, a China nunca foi tão barata como o Bangladesh.O desafio da roupa barataNo entanto, tornar a roupa barata no Bangladesh não é tarefa fácil. O Banco do Desenvolvimento Asiático sustenta que os custos de transporte no principal porto do Bangladesh – Chittagong – são o dobro dos registados na China, Índia, Taiwan ou Tailândia.Uma análise da Clothesource mostrou que o suborno para exportar na hora um típico artigo de vestuário do Bangladesh custa, em média, o mesmo que o salário dos trabalhadores que o fabricam.Um estudo governamental citado pela ONU revela que os juros dos empréstimos para financiamento do fundo de maneio das pequenas fábricas do Bangladesh ultrapassam, em média, os 100% ao ano.E, nos últimos meses, a imprensa do Bangladesh foi bombardeada com relatórios de linhas de produção imprevisivelmente encerradas na sequência do corte de energia para até metade do dia ? com geradores inoperáveis por medidas governamentais que baniram o transporte de gasóleo para a sua alimentação.O governo do Bangladesh e o sistema bancário criaram extraordinários problemas à indústria do vestuário. Mais extraordinário ainda é a capacidade do país para culpar toda a gente, excepto os seus corruptos políticos, pelos seus problemas.Em Outubro, após os tumultos despoletados pela morte de trabalhadores da indústria do vestuário num acidente em Savar, um funcionário sindical numa conferência de imprensa culpou a Oxfam de «tentar destruir a indústria de vestuário do país».No início de Maio, alguns trabalhadores culparam a UE por impedir o acesso ao mercado livre do vestuário- algo que a União ofereceu repetidamente mas que o governo também repetidamente recusou na medida em que facilitaria o acesso do Bangladesh às matérias-primas indianas. E representantes da associação comercial do vestuário mostraram simplesmente indiferença perante aos trágicos tumultos registados em Maio na sequência do atraso de três meses no pagamento dos irrisoriamente baixos salários dos trabalhadores de uma fábrica.«Trata-se eventualmente de uma conspiração local e internacional. Os países que se opuseram a nós na reunião da OMC em Hong Kong poderão estar por trás dessa conspiração. Querem manchar a nossa imagem e destruir-nos», afirmam alguns.Esta reacção foi descrita pelo sindicato internacional Itgwlf como «tão longe da realidade da indústria que fez dos trabalhadores do Bangladesh alvo de chacota ao nível internacional. Com efeito, a única coisa pela qual os estrangeiros ainda não foram culpados foi pelo horrível capítulo de fábricas construídas ilegalmente e regras de segurança ignoradas que têm conduzido a muitas mortes no último ano.A origem do problemaPorque o problema subjacente no Bangladesh, infelizmente, é muito mais complicado do que uma simples questão de empregados gananciosos. É certamente verdade que muitas fábricas do país pagam salários miseráveis- e aqui, tal como referiu o Instituto de Estudos do Trabalho, a indústria falhou em honrar quatro acordos sobre o problema assinados entre 1997 e 2005. Muitos dos negócios no Bangladesh só conseguem sobreviver se pagarem salários miseráveis. Para algumas apenas é possível sobreviver atrasando o pagamento desses salários. Apesar do horrível que isto possa ser, é muito improvável que dois milhões de pessoas- 80% das quais mulheres- guardem os seus postos de trabalho se os salários pagos no Bangladesh forem equiparados aos da Tailândia, China ou até da Índia.Isto não se deve ao facto dos trabalhadores do Bangladesh serem piores que os seus conterrâneos chineses ou indianos. É a corrupção, inércia e disputas infinitas dos políticos do país que impõem custos- em suborno, ineficiência, encomendas canceladas por falta de energia, etc.- com os quais os seus concorrentes não têm que lidar.Até que essas falhas sejam colmatadas, os concorrentes do Bangladesh podem bem continuar a “empurrá-lo” para fora do negócio. Mas os políticos maduros devem lidar com esta ameaça procurando corrigir as debilidades reais do país, investir no negócio os rendimentos resultantes das exportações e nos trabalhadores que as criam.Ainda que seja mais fácil manter as coisas como estão e continuar a roubar. Qual foi a reacção do ministro do Interior, Lutfuzzaman Babar, face aos motins daqueles cujo salário mínimo não era aumentado desde 1998? «É uma conspiração dos nossos concorrentes para destruir o sector do vestuário no nosso país».À medida que a amplitude das manifestações cresceu, fábricas de vestuário de investimento estrangeiro em Depz (Dhaka Export Processing Zone) viram-se obrigadas a fechar por data indeterminada. Por uma primeira vez isto forçou um político do país a assumir alguma responsabilidade, com o ministro do Estado para o Trabalho e o Emprego Aman Ullah a lançar uma investigação. Há luz no final do túnel?