Queda no retalho esmaga produtores – Parte 3

Com o pânico generalizado dos retalhistas, nem mesmo os fornecedores localizados nas economias com melhor desempenho estão a beneficiar, como seria previsível, e poucas são as opções estratégicas que parecem efectivamente resultar (ver Queda no retalho esmaga produtores – Parte 2). Saber quais as fÁbricas que estão a ser atingidas e de que forma estão a ser prejudicadas, parece ser uma tarefa difícil. A queda na procura Ocidental é a desculpa usada por todos e se as vendas ocidentais piorarem, a descida da procura irÁ certamente causar ainda mais problemas. Mas neste momento, as principais causas dos problemas financeiros nos mercados em desenvolvimento parecem ser outros:

  • Gestores que viram esta indústria como uma forma fÁcil de ganhar dinheiro;
  • Cortes nos preços para níveis que não deram qualquer margem de manobra caso algo corresse mal;
  • Agravamento por opções de gestão de ética duvidosa – em retrospectiva, o relatório de 2007 do presidente independente da China Printing & Dyeing, sobre as “transacções da parte interessada” refere, de uma forma delicada, que os gestores simplesmente não tinham nenhuma ideia do que era e do que não era honesto;
  • Em última anÁlise, pelo facto de existirem tantas fÁbricas, os preços são mantidos baixos pela extrema concorrência.

Quer as vendas ocidentais fiquem muito piores ou apenas um pouco piores, estes problemas vão ficar connosco durante algum tempo. Não vão durar eternamente, porque muitos fabricantes de vestuÁrio em todo o mundo – em países que estão a perder quota nos mercados ocidentais, como a Turquia ou Fiji, mas também em países com quota crescente, como o Camboja e o Vietname – vão desaparecer nos próximos anos, mesmo que as vendas ocidentais não piorem. Efectivamente, a próxima devastação de fÁbricas de vestuÁrio não irÁ representar uma perda líquida de postos de trabalho. A menos que as vendas ocidentais sofram realmente um colapso (pois uma queda 0,4% nas vendas de vestuÁrio não é um colapso), o crescimento continuado nos países em desenvolvimento irÁ implicar que o mundo compre mais roupas em 2009 do que o fez em 2008. Muitas fÁbricas vão sobreviver ao colapso: não porque tenham maior produtividade do que aquelas que fecharam, mas porque eles próprios têm-se protegido melhor. Tiveram uma melhor gestão do crédito, uma melhor disseminação dos clientes, melhor controlo da qualidade, 100% de entregas dentro dos prazos (de forma a que nenhum cliente tenha uma desculpa para cancelar a encomenda) e têm sido muito mais assertivos a informar os clientes que lhes tentam “passar a perna”. Mas não haverÁ uma redução no número de trabalhadores necessÁrios para fazer a mesma quantidade de peças de vestuÁrio. Quando os salÁrios são de apenas alguns dólares por dia, melhorar a produtividade do trabalho impressiona governos e consultores. Mas não realiza muito mais dinheiro – por isso vai ser uma das últimas prioridades para os sobreviventes. O número total de pessoas empregadas na produção de vestuÁrio no mundo em desenvolvimento vai, em termos gerais, permanecer o mesmo. Ao longo dos próximos anos, vamos ouvir falar muito mais sobre os empregos que foram perdidos no vestuÁrio. Mas dificilmente vamos ouvir muito sobre o mesmo número de postos de trabalho que foram criados como resultado. No entanto, se as vendas ocidentais forem realmente dizimadas (e considerando que "dizimada" significa uma redução de 10% nas vendas, o que estÁ ainda longe da destruição completa), os compradores ocidentais vão ver as suas cadeias de fornecimento gravemente perturbadas como consequência inevitÁvel do modo como eles e os seus concorrentes reagiram a uma simples desaceleração das vendas.