Qual o futuro dos resíduos têxteis?

Com a nova legislação que prevê a recolha seletiva de resíduos têxteis até 1 de janeiro de 2025, a indefinição faz ainda parte do dia a dia de quem opera nesta área, apesar dos avanços que estão a ser feitos, como revelado na conferência “Desafios do Resíduo Têxtil”.

Joana Campos Silva, Andreia Barbosa, Filipe Carneiro e Manuel Lopes Teixeira

«Em junho de 2024 ainda existe um longo caminho para que se consiga efetuar a gestão dos resíduos têxteis, porque a recolha seletiva do mesmo é somente uma das etapas de cadeia de valor do processo», afirmou, na abertura da conferência organizada pelo CENIT, Marta Peneda, administradora da Lipor e vereadora da Câmara Municipal da Maia. «Na Lipor, pretendemos encontrar soluções que, com base na produção de conhecimento e na inovação, permitam a redução, reutilização e reciclagem de resíduos têxteis», acrescentou.

Marta Peneda
Luís Hall Figueiredo

«Temos que continuar a investir na inovação, na investigação, no desenvolvimento tecnológico, na capacitação dos recursos humanos e na dinamização de ações de comunicação e sensibilização para tornar possível a circularidade de toda a fileira da moda. Trata-se, como sabem, de um processo muito difícil, complexo e dispendioso que, para ser bem-sucedido, terá que envolver não só os diferentes atores que compõem a indústria, mas também os poderes políticos (nacionais e internacionais) e, claro está, os próprios consumidores», salientou, por seu lado, Luís Hall Figueiredo, presidente do CENIT.

Segundo Joana Campos Silva, moderadora da mesa redonda do evento, o consumo de vestuário aumentou cerca de 50% desde 2000 e todos os anos são produzidas mais de 100 mil milhões de peças de roupa. A Agência Europeia do Ambiente indica que cada europeu produziu 16 quilos de resíduo em 2020 e todos os anos são produzidos cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis. Além disso, segundo a Fundação Ellen MacArthur, menos de 1% dos resíduos recolhidos em todo o mundo são reciclados, com apenas 12% a serem reaproveitados numa lógica downcycle e 87% a serem incinerados ou encaminhados para aterro, destacou.

Separar para reciclar

Os números da Lipor, avançados por Filipe Carneiro, chefe da divisão de apoio à implementação de projetos operacionais, apontam para que, em média, 20 quilos de resíduo têxtil por pessoa sejam colocados em contentores de resíduos indiferenciados.

Joana Campos Silva, Andreia Barbosa, Filipe Carneiro e Manuel Lopes Teixeira

Um dos problemas, referiu o responsável da Lipor, é a colocação de resíduo pós-industrial em contentores de rua para resíduos indiferenciados. «Muitas vezes as empresas são confrontadas com a falta de opções», apontou Filipe Carneiro, que viu confirmada esta ideia com a intervenção posterior de Manuela Pereira, CEO da Confecções Manuela & Pereira, durante o período de perguntas. A empresa que tinha contratado para recolher os resíduos deixou de conseguir reciclar os mesmos, que estão agora a ser encaminhados para um aterro. «Tive conhecimento disso há pouco tempo», afirmou a empresária, que revelou estar à procura «de empresas para recolherem o resíduo e mesmo a pagar não temos conseguido».

Uma questão importante tendo em conta que, como salientou Manuel Lopes Teixeira, consultor da ModaPortugal, «até 20% do material pode perder-se na mesa de corte», sendo que «um CEO de uma marca do segmento alto referiu que existem coleções onde mais de 50% do tecido não chega a ser usado por perda no corte, amostras e vestuário não vendido».

O assunto assume ainda maior relevância tendo em conta o «tsunami legislativo», como classificou Manuel Lopes Teixeira, que se avizinha ao nível dos regulamentos e diretivas relacionadas com a sustentabilidade provenientes da UE, aos quais «Portugal está a reagir», tendo já vantagens como energia verde e empresas que apostam na reciclagem. «Mas temos de ir mais longe», sublinhou o consultor da ModaPortugal.

Uma das questões prende-se com a pressão junto das entidades europeias para «introduzir fatores de justiça ambiental», nomeadamente nas importações de fast fashion provenientes de países de baixos custos, como os asiáticos, onde são por vezes usados químicos já proibidos pela UE. Por outro lado, salientou, «a reciclagem e a triagem exigem investimentos enormes, que não são possíveis fazer com dinheiro privado – tem de haver dinheiro público para a circularidade».

Nessa área, a Lipor, que está a trabalhar ativamente na classificação dos resíduos e apela a uma definição legal do conceito, de forma a permitir «otimizar os sistemas de recolha existentes», está envolvida em dois projetos do PRR, um dos quais o Be@t, no qual está a desenvolver, com outras entidades, um piloto de triagem. «É uma linha pequena, com uma capacidade muito limitada, para aprendermos a gerir o resíduo», resumiu Filipe Carneiro.

A via da segunda-mão

Antes de ser resíduo, contudo, há ainda uma outra linha de atuação, que se prende com a reutilização de vestuário usado, uma área onde a Humana, que em Portugal tem 21 lojas, trabalha. Em 2023, a associação sem fins lucrativos vendeu no nosso país cerca de 2,5 milhões de peças de vestuário, o que equivale a aproximadamente 900 toneladas, recolhidas em Portugal e Espanha. Mas nem tudo o que é doado pelos consumidores acaba nas lojas europeias. «Dentro da roupa reutilizável, que é a maior parte no nosso caso, à volta dos 60% do que recolhemos, há duas qualidades: 20% são vendáveis no mercado europeu, que é fração de maior qualidade, e 40%, que no nosso caso são sobretudo vendidos no mercado africano, é a roupa que, em geral, tem uma qualidade inferior, mas que está ainda em condições de ser reutilizável», detalhou Andreia Barbosa, responsável de comunicação e relações internacionais da Humana Portugal. «No mercado africano, há tolerância para certo tipo de coisas, como marcas de uso, alguns defeitos, bainhas descosidas ou falta de botões – há toda uma possibilidade de reparação possível nesses mercados que faz com que a roupa que não encontraria clientes no mercado europeu, o encontre no mercado africano», acrescentou.

Fernando Hin Júnior

Fernando Hin Júnior, coordenador do Centro de Desenvolvimento Empresarial da Associação Comercial da Beira, de Moçambique, confirmou isso mesmo, num testemunho previamente gravado, dando conta da existência de muitos alfaiates que vivem destas reparações e ajustes do mercado de segunda-mão. «Em 2017, dos 77,7 milhões de dólares de têxteis importados em Moçambique, 59 milhões de dólares foram de roupa usada e os restantes 18,7 milhões de dólares correspondem a roupa nova, proveniente maioritariamente da China. Isso quer dizer que 80% da roupa usada em Moçambique é roupa em segunda-mão», revelou, afirmando-se, ele próprio, como consumidor de vestuário previamente usado.

E apesar de muitas notícias que dão conta de poluição provocada por estas exportações ocidentais em países africanos, Fernando Hin Júnior garantiu que «não vemos impactos negativos diretamente ligados à roupa em segunda-mão» e que mutas vezes as peças que já não podem ser usadas são reaproveitadas pelos alfaiates para fazer outras, nomeadamente vestuário de criança.