«Provavelmente, há aqui uma reorganização da cadeia de abastecimento para algumas marcas»

As condições macroeconómicas estão a afetar o consumo e a trazer instabilidade, mas o próximo ano, acredita Manuel Gonçalves, poderá trazer uma maior visibilidade sobre o futuro, especialmente ao nível da aproximação da produção aos mercados.

Enquanto na TMG Automotive o negócio estabilizou, gerando boas perspetivas de crescimento, no caso da TMG Textiles as dificuldades estão a ser maiores este ano, admite o Manuel Gonçalves, administrador da TMG, que espera uma melhoria na capacidade de antecipação dos indicadores do negócio em 2024.

Como é que a TMG sente o mercado?

Na TMG, temos duas áreas principais de negócio: uma virada para os interiores dos automóveis e outra para o têxtil e vestuário. Toda a parte do automóvel sofreu muito no ano passado devido à crise energética e à subida dos preços de energia. A subida do custo das matérias-primas também impactou a nossa atividade. No entanto, este ano, houve uma redução, não para níveis pré-guerra, em termos de custo de energia, mas um valor muito mais acessível e não tem havido tantas variações ao nível de custos de energia como houve, por exemplo, no ano passado. O preço está estável e isso permite uma melhor relação com os nossos clientes. Também houve uma estabilização do custo das matérias-primas e, portanto, o negócio estabilizou. Sofreu bastante no ano passado, mas este ano as coisas estão a correr bem, estamos a ganhar alguns contratos importantes e isso vai permitir a sustentabilidade e o crescimento futuro da TMG Automotive. Relativamente ao têxtil, aí é que certamente houve as maiores dificuldades.

A que se devem essas dificuldades?

Pela primeira vez, não consigo atribuir uma causa. É certo que o aumento das taxas de juro e a inflação estão a reduzir o poder de compra de todas as pessoas e, obviamente, que o efeito das taxas de juro é muito elevado. Grande parte das pessoas têm crédito à habitação e têm crédito para outras coisas e, de repente, viram um custo adicional que não estavam a contar. É menos dinheiro que vai para outras coisas. Mas eu estava convencido de que, em simultâneo, as marcas iam optar por trazer ou reforçar o abastecimento local, aproximar os centros de produção aos centros de consumo para fazer face a essa situação, ao facto da instabilidade, de não saberem o que é que vão vender, comprar dentro das necessidades sem se excederem demasiado em stocks que vão ficar parados nas lojas e que, depois, vão ter de saldar e vão perder margem com isso. Parecia-me que fazia algum sentido esse reshoring de algumas produções. Tem acontecido, mas não ao ritmo que eu julguei que fosse acontecer. Provavelmente, há aqui uma reorganização da cadeia de abastecimento para algumas marcas. É clara a tendência de diminuir as produções na Ásia, trazê-las para zonas mais próximas, sendo que essa zona mais próxima é aqui Portugal, obviamente, o Norte de África com as confeções e a Turquia, sendo que a Turquia é o grande concorrente nosso. É vertical, tem desde a produção de algodão, embora pequenina, até à confeção, o que não acontece, por exemplo, no Norte de África onde essencialmente há confeções. A Turquia está à porta da Europa, consegue dar uma resposta rápida e é um concorrente capital. Mas eu prefiro a Turquia aos asiáticos.

Isso quer dizer que a expectativa será de alguma redução do volume de negócios da TMG Textiles este ano?

Isso é quase inevitável, embora eu ache que possa haver aqui alguma recuperação no segundo semestre e espero que, no próximo ano, haja uma melhor definição e se consiga perceber um pouco melhor a tendência dos nossos clientes em termos de cadeias de abastecimento. Ou seja, se realmente faz sentido, nos seus modelos de negócio, aproximar os centros de produção aos centros de consumo ou se não faz sentido nenhum. Eu acho que faz pelos temas da sustentabilidade, pelos temas de desperdício, até mesmo para conseguirem melhores margens de negócio porque não é pelo facto de comprarem mais caro, que vão ter piores margens porque se conseguirem à frente saldar menos porque compraram nas quantidades certas para o seu mercado, não têm de fazer saldos tão agressivos e não têm de sacrificar tanto as suas margens.

E faz sentido que o Governo lance medidas especiais?

Não. Acho que o Governo teve um papel importante no apoio que deu ao custo de energia porque era algo absolutamente atípico, exógeno e que poderia matar várias empresas que tinham viabilidade e que eram importantes para o país, mas não acho que os governos se devam intrometer. É um ajuste de mercado.