Produtores de poliéster usam mais petróleo russo

Alguns dos maiores produtores mundiais de poliéster utilizaram mais petróleo proveniente da Rússia em 2023, revela a Changing Markets Foundation, que acusa as marcas e retalhistas de não tomarem medidas.

[©Changing Markets Foundation]

De acordo com um estudo da organização sem fins lucrativos, as principais marcas de moda e retalhistas pouco fizeram para cortar relações com estes produtores, apesar de terem sido alertadas para o problema há um ano.

A Reliance Industries, que afirma ser o maior produtor mundial de poliéster, por exemplo, terá comprado mais de metade do total das importações de petróleo bruto da Índia à Rússia no início de 2023, juntamente com outra empresa, de acordo com dados comerciais. No mesmo período, a Índia tornou-se o maior comprador de petróleo bruto russo. «Alegadamente, um terço do fornecimento de petróleo da Reliance vem da Rússia e tem aumentado essas compras. A China também “se empanturrou” de volumes recordes de petróleo russo a preços reduzidos este ano, com uma parte significativa destinada à Hengli Petrochemical, que afirma ser um dos maiores produtores mundiais de poliéster. Ambas as empresas vendem poliéster para fabricantes que fornecem as maiores marcas de moda, incluindo H&M, Inditex, New Look, Next, C&A e Zalando», denuncia a Changing Markets Foundation.

As marcas de moda e os retalhistas estão a «fazer-se de parvos», afirma a organização, que afirma ter alertado para o problema pela primeira vez há um ano. Em novembro deste ano, fez o seguimento, questionando 43 marcas e retalhistas se tinham tomado medidas para evitar o poliéster contaminado com petróleo da Rússia. Esse inquérito «foi recebido em grande parte pelo silêncio», refere a Changing Markets Foundation, acrescentando que apenas um quarto das empresas (11 no total) respondeu, «a taxa de resposta mais baixa em anos».

Segundo a organização, entre as que permaneceram em silêncio estão a Patagonia, Asos, Nike, Gap e Kering, «empresas que fazem grandes reivindicações éticas ou ambientais».

Duas empresas, a Esprit e G-Star Raw, afirmaram ter deixado de usar poliéster contaminado pela Rússia, e outras quatro – Asda, C&A, Tesco e Zalando – disseram não saber. «H&M, C&A e Inditex também alegaram ignorância, mas indicaram que planeiam deixar de usar poliéster proveniente de petróleo virgem dentro de dois a cinco anos».

Já marca a Shein ignorou a Changing Markets Foundation, que destaca que a retalhista de origem chinesa está a fazer uma parceria com a Reliance Retail, uma subsidiária da Reliance Industries, para reentrar no mercado indiano. «O poliéster constitui quase dois terços (64%) do mix de materiais dos 10.000 produtos da Shein lançados diariamente. É altamente provável que uma parte significativa destes seja contaminada pelo petróleo russo», adverte a Changing Markets Foundation.

A Hugo Boss não respondeu sobre a ligação russa, mas referiu que pretende eliminar gradualmente o poliéster e a poliamida até 2030.

«As marcas de moda continuam a lucrar com a miséria ucraniana, apesar de termos abordado isso com elas há um ano», sublinha Urska Trunk, diretora de campanha da Changing Markets Foundation, que acrescenta que quando se analisa a proveniência dos fios de poliéster «eles vêm da Rússia contornando as sanções para os produtores de poliéster e, eventualmente, para as lojas de roupas. Não foi difícil para nós descobrirmos esta verdade horrível, mas as grandes marcas continuam a olhar para o outro lado. Décadas de escândalos têxteis e as suas próprias cadeias de abastecimento ainda são um mistério para eles. É uma ignorância intencional. Fechar os olhos a uma guerra brutal travada por um tirano com armas nucleares não é uma boa ideia. Estamos a apelar novamente à moda para que limpe o seu comportamento», conclui.