Produção de vestuário tem novos recursos

Um casaco que é reparado por um robô ou calças e sapatos que são produzidos tridimensionalmente a partir de uma solução de nutrientes fazem parte das soluções desenvolvidas por uma equipa de investigadores austríacos.

[©FAR - Fashion and Robotics]

O projeto FAR – Fashion and Robotics, promovido pela Universidade de Arte e Design de Linz em cooperação com a Johannes Kepler University Linz, reuniu investigadores de diferentes áreas, incluindo moda, tecnologia, robótica criativa e biomecatrónica, para desenvolverem novas abordagens de processos e tecnologias inovadoras que apoiem a indústria da moda na transição para a sustentabilidade.

Nesse sentido, e como primeiro passo, a equipa conseguiu que robôs produzissem uma peça de vestuário usando impressão 3D e desenvolveram braços robóticos que podem cortar ou costurar a três dimensões.

Uma das soluções consiste num processo de eletrofiação para fazer a reparação de peças de vestuário. «Num campo de alta voltagem, um braço robótico pulveriza um polímero no rasgo da peça de vestuário e esse polímero forma nanofibras que se ligam ao têxtil», explica Johannes Braumann, arquiteto de formação que faz investigação na área da robótica criativa na Universidade de Arte e Design de Linz.

A aplicação, que foi apresentada na Ars Electronica 2023, em Linz, e na Automatica, em Munique, permite reduzir o custo da reparação para cerca de 2 euros, tornando a reparação acessível e valiosa novamente. Os investigadores sublinham que, atualmente, muitas vezes é mais barato comprar um vestido novo do que reparar. A abordagem também tem vantagens do ponto de vista logístico. «Em primeiro lugar, a eletrofiação pode ser usada em grandes fábricas e quando envolve quantidades de centenas de milhares de peças faz uma grande diferença em termos de sustentabilidade. Além disso, um braço robótico com várias funções e ferramentas pode ser usado em áreas urbanas, como uma microfábrica», acrescenta Johannes Braumann.

Num passo seguinte, a equipa avançou das reparações em 3D para o redesign 3D em que um consumidor pode levar umas calças com cinco anos a uma alfaiataria e, além do reparo, o alfaiate ou costureira pode trabalhar com o robô para fazer sugestões de design para adaptá-las às mais recentes tendências. Desta forma, as peças poderão ter uma vida útil mais longa e poderão ser até criadas novas profissões.

Repensar os processos

Mas nem tudo é possível de fazer, reconhece Christiane Luible-Bär, designer de moda de formação e investigadora principal do projeto. «Com o apoio de 35 grandes empresas parceiras da indústria da moda, tentamos fazer com que um robô costurasse um fato. A tentativa falhou, no entanto, porque o material e os cortes para diferentes formas corporais tornam o processo de produção muito complexo. Mesmo hoje, a automação só é possível para camisolas simples, razão pela qual as roupas ainda são produzidas manualmente por máquina de costura em países de baixos salários», destaca.

Isso não invalida a necessidade de automatização dos processos. «O aspeto inovador da nossa abordagem de investigação é que começamos por dar um passo atrás: em vez de usar a automação para tornar um processo existente o mais eficiente possível, tentamos repensar o processo de forma completamente aberta e nova», explica Johannes Braumann. «Queríamos mostrar uma nova abordagem e sair do antigo lema de que é preciso “um tecido, um padrão e uma máquina de costura”», aponta Christiane Luible-Bär.

[©FAR – Fashion and Robotics]
Para tornar os materiais mais sustentáveis, a equipa, que incluiu Werner Baumgartner, do Instituto de Biomecatrónica Biomédica da Johannes Kepler University Linz, conseguiu cultivar calças e sapatos em 3D, substituindo o processo habitual de corte e costura. Os biomateriais recém-desenvolvidos não são baseados em fibras, mas crescem tridimensionalmente a partir de bactérias, por exemplo, através de um modelo. «O robô também é importante neste caso, mas num novo papel, ou seja, como fornecedor de alimentos. As bactérias precisam de ser alimentadas regularmente com uma solução nutritiva em momentos específicos e uma máquina pode alimentá-las de forma mais fiável do que um humano», Christiane Luible-Bär.

Ter uma visão criativa, mas também pragmática, dos processos industriais requer uma mudança de perspetiva. «Muitas vezes a indústria tem uma visão em túnel com o objetivo apenas da automação completa. Mas olhamos para isso de maneira diferente e perguntamos quanto de automação realmente precisamos? Afinal, também queremos dar um novo valor ao artesanato», salienta Johannes Braumann, que dá o exemplo da inteligência artificial, que numa grande fábrica pode fazer sentido para analisar as peças de vestuário e identificar os pontos que precisam de reparação, mas que num pequeno atelier de reparações não é necessária, porque aí um ser humano pode marcar a área danificada e o braço robótico fazer a através de eletrofiação.