Produção de algodão ultrapassa consumo

Não obstante a queda em alguns dos principais países produtores, provocada por intempéries e guerras comerciais em algumas regiões, a oferta mundial de algodão deverá superar a procura da fibra em 2020/2021, com o Covid-19 a travar o consumo.

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Os números mais recentes do International Cotton Advisory Committee (ICAC), publicados no passado dia 2 de novembro, mostram que a produção em 2020/2021 deverá atingir 24,9 milhões de toneladas, superando em 500 mil toneladas o consumo, que se projeta em 24,4 milhões de toneladas. «O mundo inteiro pode estar cansado da pandemia de Covid-19 e simplesmente querer que acabe – mas, infelizmente, está longe de terminar para a indústria do algodão», afirma o ICAC.

A sobreprodução deverá acontecer mesmo apesar da quebra esperada na produção em países como os EUA, Paquistão e África Ocidental. «O tempo inclemente e os conflitos comerciais podem aumentar os desafios em algumas regiões, sobretudo nos EUA, que não só estão a experienciar uma estação de furacões anormalmente ativa, como estão também envolvidos numa guerra comercial com a China», aponta o organismo, que reúne países produtores, consumidores e exportadores de algodão.

Pelo contrário, países como o Brasil, a Índia e a China continuam a crescer. O Brasil, por exemplo, apesar de antecipar uma descida de 6% nesta época, deve atingir uma produção de 2,8 milhões de toneladas, o que, destaca o ICAC, é «praticamente o dobro da colheita que estava a produzir apenas há cinco anos».

No caso da China e da Índia, que são os dois maiores produtores mundiais, a produção deverá igualmente aumentar. A Índia deverá mesmo ultrapassar a China e tornar-se líder no cultivo de algodão, com um total de 6,2 milhões de toneladas.

Recuperação a diferentes ritmos

Os EUA, por seu lado, deverão manter-se como o principal exportador da fibra, com o comércio mundial a dever atingir as 9,19 milhões de toneladas. «Apesar da China [que representa 30% do consumo] estar a mudar muitas das suas compras para o Brasil, os EUA deverão exportar 3,18 milhões de toneladas e manter a sua posição como o maior exportador de algodão do mundo», indica o ICAC na edição de outubro da publicação Cotton This Month.

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Numa análise à atual situação pandémica, o organismo tinha já advertido que «embora os países em todo o mundo tenham caído na pandemia quase simultaneamente, vão recuperar a ritmos diferentes, com base na sua capacidade de conter o vírus e retomar as suas economias. A recuperação será ainda travada pelo aumento dos stocks, que vão subir ainda mais tendo em conta que a produção mundial deverá ultrapassar o consumo».

O ICAC destaca que há alguns sinais positivos, incluindo o facto das fiações no Vietname, no Bangladesh e na Índia terem estado a trabalhar a 75% da capacidade em julho, mas que com o rácio de stocks/utilização em 0,97, «há neste momento algodão suficiente nos armazéns do mundo para responder às necessidades de consumo durante quase um ano inteiro».