Potencialidades faraónicas

O Egipto fez-se notar em Hyères, exactamente na mesma altura em que se realiza o Festival Internacional da Moda e da Fotografia. Apesar das posturas descontraídas, muito estivais, mesmo, dos visitantes, diversos especialistas avaliaram, séria e concretamente, a oportunidade que representa o Egipto no espaço euro-mediterrânico. Apesar das aparências, o tema não foi abordado com ligeireza. Dominique Jacomet, director geral do Institut Français de la Mode (IFM), deu o tom. O Egipto regista um crescimento anual perto dos 7% (dados de 2007) e os fluxos de investimento aumentam a olhos vistos». Onze mil milhões de dólares de investimento estrangeiro», precisou Karim Wissa, à frente da Missão Comercial da Embaixada do Egipto em França, que apresentou, perante uma plateia de profissionais do sector têxtil e da moda, um candidato muito sério à globalização. O têxtil representa hoje um quarto das exportações do país (exceptuando o petróleo), emprega um milhão de pessoas (30% do total da mão-de-obra industrial), tem 5.000 fÁbricas e regista um volume de negócios de 2 mil milhões de euros. é o segundo maior sector industrial do país, a seguir ao agro-alimentar». O retrato é atractivo. E longe de estar concluído: o Egipto produz anualmente 200.000 toneladas de algodão de fibras longas», prossegue o especialista. O verdadeiro ouro branco. O tesouro egípcio que suscita a inveja dos vizinhos Árabes. Uma riqueza que o governo egípcio quer explorar e proteger. Nesta óptica, criou hÁ dois anos uma marca de luxo exclusivamente dedicada ao algodão de fibra longa local. Dominique Jacomet sublinha claramente a vantagem: O Marrocos e a Tunísia são confeccionadores. JÁ o Egipto pode agrupar toda a fileira, desde afiação à confecção, passando pela tecelagem, estamparia e tinturaria». Apresentando a Marie Bishara, vice-presidente e directora artística do grupo Bishara, o Egipto como a Turquia de amanhã», Dominique Jacomet prega a uma jÁ convertida. Com uma subtileza: que o Egipto seja parceiro na criatividade e não somente na produção, como a Turquia ou o Bangladesh. O nosso país é muito sensível à qualidade, à criatividade, ao luxo. Nós somos ricos de um know-how único em bordados étnicos, por exemplo, que são ainda relativamente desconhecidos na Europa», explica esta profissional. Especialista originalmente na estamparia e tinturaria, esta empresa familiar, criada nos anos 60, diversificou-se em 1980 para a tecelagem com uma primeira fÁbrica, depois em 1982 para o vestuÁrio masculino com uma segunda fÁbrica e, por fim, em 1989 para o vestuÁrio feminino, após uma passagem de Marie Bishara pela Esmod. Actualmente, a Bishara emprega 1.500 pessoas, tem uma cadeia de 15 lojas de vestuÁrio posicionada na gama média-alta para homem (60% do volume de negócios) e senhora. Um bom exemplo de sucesso e desenvolvimento que não espanta a New Man. A marca francesa estÁ presente no Egipto hÁ jÁ 20 anos: Foi o algodão que nos atraiu», reconhece simplesmente Eric Labaume, CEO da marca, que escolheu a via da licença. No início, os nossos parceiros eram os comerciantes. Ao longo do tempo, tornaram-se os industriais. Trabalhamos em conjunto com todos, colocando todo o nosso know-how no produto mas também na gestão do tempo, dos ateliers, etc. Actualmente, os nossos parceiros empregam entre 800 e 1.000 pessoas e fabricam produtos em tecido e malha. Por fim, abordamos uma fase comercial para duplicar o nosso conceito de lojas. A New Man tem hoje 30 pontos de venda, de lojas da marca e corners nos grandes armazéns», explica aquele que reconhece aos egípcios uma acuidade, qualidade» particularmente apreciÁvel, assegurando não ter para jÁ nada a lamentar». Sobretudo após a abertura do país, hÁ três anos. Hoje exportamos sem problemas, sem qualquer taxa nem dificuldades de transferência. Estamos face a um mercado com normas europeias», prossegue Eric Labaume. As empresas francesas, consideradas frias nos seus investimentos em relação aos italianos ou aos turcos, ouviram com atenção. Tal como os criadores presentes. Às questões de Maurizio Galante, sobre as aptidões qualitativas da produção egípcia. Marie Bishara deu um primeiro elemento de resposta: a sua empresa produz actualmente 17.000 fatos de marca… Calvin Klein. Mas os vizinhos do Egipto aançam outras razões para esta investida na Europa e para o aumento da popularidade das empresas egípcias no Velho Continente. Num artigo no semanÁrio La Vie Eco, de Marrocos, do passado dia 2 de Maio, o jornalista Saâd Benmansour escreve que o Egipto estÁ a retirar quota de mercado a outros fornecedores, nomeadamente Marrocos, e aponta as razões: A Turquia tornou-se, desde hÁ dois anos, cada vez menos competitiva, com os custos de produção em alta, nomeadamente os salÁrios e a energia, e muitas empresas que trabalhavam com o mercado europeu estão a deslocalizar-se para o Egipto». E os motivos para a deslocalização para o país das pirâmides também são apontados no artigo: Os custos de produção neste país desafiam toda a concorrência e são comparÁveis aos que os chineses podem propor, mesmo quando se juntam os custos de transporte. Para começar, a existência de muita mão-de-obra com um salÁrio mínimo na ordem dos 70 dólares por mês. E ainda porque, segundo a Amith (Associação Marroquina dos Industriais de Têxtil e VestuÁrio), os salÁrios efectivamente pagos pelos industriais do têxtil no Egipto estão na ordem dos 25 euros por mês». O jornalista acrescenta ainda outros factores: o custo da energia mais baixo do que em Marrocos, mas também a Água, que é mais abundante. Por fim, a disponibilidade de uma matéria-prima estratégica para o sector (o algodão) que permite desenvolver uma indústria do tecido e de fiação a montante, precisamente o calcanhar de Aquiles de Marrocos».