Portugal visto de fora – Parte 3

Apesar do aumento das exportações, as dificuldades de financiamento, nos bancos e na Bolsa, ainda condicionam a expansão das empresas além-fronteiras e podem ser um entrave para o futuro (ver Portugal visto de fora – Parte 2). Mas, ainda assim, as mudanças na estrutura da economia portuguesa sob o acordo de resgate estão a ajudar as exportações, embora os trabalhadores estejam a pagar um preço elevado, pelo menos a curto prazo. As reformas dolorosas exigidas pela UE e pelo FMI melhoraram a competitividade sobretudo através da redução dos custos laborais. Os patrões podem agora contratar e despedir pessoas de forma mais simples e pagam menos pelas horas extraordinárias. Os portugueses têm também de trabalhar mais dias por ano. Os salários são baixos e estão a descer. O rendimento médio anual caiu em 2012 para 16.047 euros em comparação com os 16.760 euros em 2010, segundo a OCDE, e deverá ter continuado a cair no ano passado. Este nível é mais baixo do que na Grécia, que enfrentou uma depressão económica ainda mais grave, e deixa Portugal firmemente implantado como o país mais pobre dos que formaram a UE antes dos países ex-comunistas se terem juntado em 2004. Em contrapartida, os salários subiram em Espanha, para 26.911 euros e continuaram a subir em 2013, apesar do país ter sido obrigado a aceitar a ajuda da UE no resgate aos bancos e ter ficado muito perto de pedir um resgate total para o país. Impulsionado por custos tão baixos, Portugal ultrapassou Espanha, França, Irlanda, Itália e até a Alemanha ao expandir a sua quota de mercado externa desde 2010. Isto «apoia a conclusão de que Portugal está a ganhar competitividade», sustenta a Comissão Europeia num recente estudo sobre Portugal. O Banco de Portugal espera apenas um aumento «muito reduzido» nos custos de trabalho, «consistente com o crescimento projetado da produtividade», pelo menos até 2015. Com o desemprego em 15,6% no terceiro trimestre do ano passado, os patrões ainda têm mão de obra qualificada para quando se expandirem. Isso irá ajudar a manter os custos baixos mesmo com a economia em recuperação, embora os trabalhadores possam esperar uma ligeira melhoria nos seus magros salários. Centenas de milhares de portugueses perderam o emprego quando a economia se afundou 6% no seu ponto mais baixo em 2010 até ao ano passado. Os que têm emprego estão impacientes. «Ouço nas notícias que as exportações estão a subir, que a economia está a melhorar, mas depois questiono-me – quanto tempo vai levar até as boas notícias chegarem até mim? Não há empregos, ponto», realça João Bentes, um arquiteto desempregado de 28 anos que tem trabalhado a fazer entregas para ganhar algum dinheiro. Embora frustrado e a ver muitos dos amigos engenheiros e arquitetos qualificados a deixarem o país para procurarem trabalho no estrangeiro – a única “exportação” que torna Portugal mais pobre –, Bentes afirma que ainda quer viver e ter uma carreira cá. A necessidade de ser diferente A abrangência mundial dos exportadores portugueses faz com que se destaquem de rivais espanhóis semelhantes em termos de tamanho, que na maioria se confinam à Europa e aos mercados que falam espanhol da América Latina. Mas enquanto Espanha tem grandes êxitos mundiais como a Inditex, sobretudo com a cadeia Zara, Portugal apoia-se muito mais nas suas pequenas e médias empresas, nomeadamente na produção. «As empresas portuguesas são muito mais flexíveis e adaptam-se melhor às realidades dos mercados externos já que respondem a necessidades particulares dos mercados, integram locais para gerir as equipas e fazem parcerias com empresas locais», afirma Pedro Galhardas, partner da consultora de estratégia mundial Roland Berger. Paulo Pereira da Silva, CEO da empresa de papel Renova, que exporta para 60 países, refere que mesmo as maiores empresas portuguesas são pequenas face às rivais estrangeiras, significando que têm de inovar radicalmente para serem notadas. A sua resposta foi mover a gama de papel higiénico da Renova para além do tradicional branco e cores pastel. Agora os rolos estão disponíveis em vermelho e até preto. «Se fizer o que as multinacionais fazem, morro – tenho de ser diferente», sustenta.