
«Reunimo-nos num momento entusiasmante para a indústria. Afinal, estamos na New York Fashion Week, quando as atenções estão firmemente concentradas no que é novo e no que vem a seguir. Mas hoje gostaríamos de mudar ligeiramente o foco e colocar uma questão diferente: o que é feito para durar?». Este foi o ponto de partida do “Made to Matter: Portugal”, integrado na Fashion Week Series 2026 da UN Fashion & Lifestyle Network, lançado por Annemarie Hou, diretora executiva do United Nations Office for Partnerships, que apontou Portugal como exemplo de uma indústria que combina conhecimento acumulado com inovação. «As indústrias portuguesas da moda e do calçado construíram saber-fazer e conhecimento técnico, continuando ao mesmo tempo a investir na inovação e em formas mais sustentáveis de produzir», afirmou, destacando ainda a importância das competências locais, cadeias de valor resilientes e colaboração entre gerações.
Para César Araújo, presidente da ANIVEC e da comissão executiva do consórcio do Projeto Lusitano, é precisamente essa continuidade que distingue a indústria portuguesa, defendendo um futuro baseado em produzir menos e melhor e em desenvolver artigos pensados desde a origem para a circularidade.
«Não temos um planeta B, temos um planeta A», sublinhou. «Quando falamos de sustentabilidade não é apenas uma palavra, é todo o ecossistema que queremos criar», referiu, defendendo que a indústria deve reconhecer o seu impacto ambiental e assumir a responsabilidade de o reduzir.
Entre os exemplos apontados esteve o Projeto Lusitano, orientado para o desenvolvimento de uma cadeia de valor mais circular, desde o ecodesign às fibras naturais e à produção industrial. César Araújo destacou, em particular, o objetivo de recuperar capacidade portuguesa, e europeia, da fiação de fibras como o linho e de aproximar designers, fabricantes e compradores desde o início do desenvolvimento dos produtos.
A valorização das pessoas é outro elemento desta estratégia. César Araújo defendeu que a indústria tem de investir nos trabalhadores e, sobretudo, envolver e atrair as novas gerações, transmitindo-lhes não apenas o conhecimento acumulado pela fileira, mas também a paixão pelo setor. «Já não existe uma pessoa que faça tudo. É uma equipa», salientou, considerando que Portugal tem «uma equipa de pessoas apaixonadas por fazer moda».
Uma paixão que, na sua perspetiva, também se reflete no próprio produto. «Estamos apaixonados por esta indústria», afirmou, defendendo que cada peça de vestuário ou par de sapatos produzido em Portugal é feito «com coração» e «com paixão». Para César Araújo, é precisamente essa ligação entre pessoas, conhecimento, tradição e capacidade industrial que importa transmitir às novas gerações e que pode continuar a diferenciar a produção portuguesa nos mercados internacionais.
Luís Onofre acrescentou a resiliência, a capacidade de encontrar soluções e a persistência entre as vantagens competitivas portuguesas. O presidente da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos defendeu igualmente que sustentabilidade significa trabalhar sobre matérias-primas, condições sociais e produção local.
«A sustentabilidade também tem de passar por fazer as coisas localmente, e não globalmente», sustentou, acrescentando que o saber-fazer artesanal e a capacidade de criar produtos com intervenção humana poderão ganhar importância, sobretudo no luxo.
A mais-valia do que é artesanal
A conversa prosseguiu com os designers Joana Duarte, fundadora da insígnia de moda Béhen, e Armando Cabral, da marca de calçado epónima, que colocaram o foco na relação entre identidade, artesanato e produto contemporâneo.
Na Béhen, Joana Duarte trabalha com técnicas artesanais portuguesas em risco de desaparecimento, procurando transportá-las para uma linguagem capaz de chegar a novas gerações.

A designer apresentou peças executadas manualmente e produzidas com materiais como linho, algodão e lã, evitando, por exemplo, missangas de plástico em favor de missangas em vidro, colocadas manualmente.
Mais do que preservar uma técnica, o objetivo passa também por reconhecer economicamente quem conserva esse conhecimento. «O primeiro passo é reconhecer o artesanato e as mulheres que ainda sabem fazê-lo», defendeu. «Não é apenas um trabalho que fazem antes do jantar. É outra coisa. É arte», realçou.
Também Armando Cabral destacou a evolução do posicionamento produtivo nacional. O designer, que está a reorganizar a produção da sua marca de calçado para reforçar o fabrico em Portugal, considera que o país deixou de ser visto simplesmente como uma alternativa de menor custo para ser reconhecido pela sua qualidade e saber-fazer. «Durante muitos anos, as pessoas na indústria conheciam Portugal como uma opção B, pela mão de obra barata ou pelos preços de produção mais baixos. Hoje, as pessoas começam a conhecer Portugal por aquilo em que é realmente bom. É um país com uma herança produtiva de centenas de anos», afirmou, acrescentando que «atualmente, a maioria das grandes marcas produzem em Portugal. E temos empresas familiares que se mantêm fiéis àquilo que são. Penso que daí resultam também o luxo e a autenticidade que Portugal oferece».
Medir a sustentabilidade
Na vertente tecnológica, Maria José Ferreira, diretora de investigação do CTCP, apresentou exemplos do BioShoes4All que ilustram a capacidade de transformar resíduos e recursos naturais em novos materiais, incluindo soluções com cortiça, lã recuperada e borras de café.
A responsável salientou, contudo, que a inovação só produz impacto quando chega à indústria, às marcas e aos consumidores. «A inovação que fica parada, que não é vendida, que não chega aos consumidores, não é inovação», apontou.
Igualmente importante será recorrer a instrumentos como a análise de ciclo de vida para quantificar consumo de água e energia, emissões e utilização de substâncias químicas. «Temos de passar das alegações de sustentabilidade para demonstrar que temos sustentabilidade», considera.
Kaleigh Tirone Nunes, cofundadora da Fashion Catalyst, uma consultora focada em marketing e comunicação de sustentabilidade, referiu que muitas das soluções já estão disponíveis e podem ganhar escala. O principal desafio estará agora em aumentar a procura das marcas e ultrapassar barreiras de preço, integrando sustentabilidade desde o planeamento e design das coleções. «A inovação existe e Portugal está preparado para escalar, ou já tem escala. O que falta é procura», reforçou.

No encerramento, Carlos Moura, diretor e Trade and Investment Commissioner USA da AICEP, identificou inovação, artesanato, talento, capacidade industrial, criatividade e sustentabilidade como argumentos para reforçar a presença internacional da fileira portuguesa, enquanto Vera Ávila, representante permanente adjunta de Portugal junto das Nações Unidas, destacou os argumentos de sustentabilidade do “made in Portugal”. «Aquilo que hoje demonstrámos, enquanto portugueses, foi como o saber-fazer artesanal e a tecnologia, quando conjugados, estão efetivamente a contribuir para uma indústria da moda sustentável», concluiu.









