Portugal Fashion promove identidade da moda portuguesa

Da educação à produção, passando pela criatividade, proximidade às fábricas e valorização do fabrico europeu, marcas e empresas como a Marques’Almeida, Béhen e Amorim Fashion defendem uma estratégia assente na diferenciação e na identidade para reforçar o posicionamento da moda portuguesa.

Serge Carreira, Marta Marques e José Cardoso [©Portugal Fashion-Igor Martins]

A necessidade de reforçar a criatividade, aproximar designers da indústria e valorizar a produção europeia marcou o Portugal Fashion Summit 2026, realizado a 1 de julho, onde representantes da indústria, da criação e do retalho realçaram a identidade e qualidade da indústria da moda nacional.

No painel “Portuguese Fashion in the Global Eye: Perception & Future Positioning”, José Cardoso, da direção da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, centrou a sua intervenção no papel da indústria têxtil e do vestuário portuguesa e europeia. Segundo José Cardoso, a competitividade da indústria não deve ser avaliada apenas pelo preço dos produtos, mas também pelas condições em que são produzidos.

No caso português, destacou a transformação registada nas últimas três décadas. «É importante compreender a revolução dos últimos 30 anos», afirmou, referindo que Portugal desenvolveu competências em áreas como «a criatividade, a produção, a ciência e a gestão», sustentadas por uma forte cultura exportadora.

Na sua perspetiva, um dos desafios passa por tornar mais evidente para o consumidor o valor acrescentado da produção europeia, que passa igualmente por novas ferramentas regulatórias. «Há três temas em discussão: as regras do design, o passaporte digital do produto, que acredito que vai valorizar cada produto para o consumidor, e a forma como a Europa Ocidental deve diferenciar-se», referiu.

Já Marta Marques, cofundadora da Marques’Almeida, defendeu que a mudança começa na formação e que a educação deve promover também a confiança, além das competências criativas. «Acredito verdadeiramente que a criatividade é o que vai fazer avançar a indústria. Mas é preciso ter essa mentalidade», referiu a designer, acrescentando que «tudo tem de começar na educação e na forma como estamos a formar novos designers, não apenas do ponto de vista criativo, mas também na forma como se apresentam e na confiança que têm». No entanto, reconhece que os portugueses são «muito autodepreciativos» e que «a humildade é uma característica muito portuguesa», sublinhando que «é preciso pôr isso um pouco de lado. É preciso deixar espaço para um ego saudável».

A designer considera ainda que a proximidade às fábricas portuguesas foi determinante para o desenvolvimento da Marques’Almeida. «Durante o primeiro ano em Londres, vínhamos a Portugal de dois em dois ou de três em três meses e isso deu-nos uma grande vantagem, porque podíamos reunir com as fábricas e fazê-las desenvolver aquilo que pretendíamos», explicou. Atualmente, acrescentou, «trabalhamos com alguns dos mesmos produtores há mais de 10 anos, criámos uma linguagem em conjunto e isso permite-nos alcançar a qualidade do produto, mas também continuar a inovar. Além disso, é essa ligação que nos permite estimular a criatividade».

Para Serge Carreira, diretor da Emerging Brands Initiative da Fédération de la Haute Couture et de la Mode, a proximidade entre designers e indústria constitui uma vantagem para Portugal. «Estar sediado em Portugal permite estar próximo das fábricas. Cria também esta ideia de uma cadeia de aprovisionamento em que é possível ser totalmente transparente. Conhecemos as pessoas que trabalham nas peças e sabemos de onde tudo vem. Isso faz parte do valor que se oferece», referiu.

Serge Carreira acrescentou que o desafio passa também por alterar a perceção internacional do país. «A mudança que ainda falta fazer é passar da perceção da qualidade daquilo que é produzido aqui para aquilo que também é desenhado aqui», sublinhou, defendendo igualmente a construção de uma narrativa para a moda portuguesa. «É preciso criar uma narrativa em torno da moda portuguesa que seja válida, inspiradora e influente», concluiu.

Património como fator de diferenciação

Joana Duarte, fundadora da Béhen, participou no painel “Innovation Begins in the Past: Craft, Identity & Differentiation” e explicou que a ligação ao património e ao artesanato sempre fez parte da sua forma de criar. «Para mim nunca existiu outra forma de desenhar sem ser esta», declarou.

Joana Duarte [©Portugal Fashion-Igor Martins]
A designer recordou que iniciou o projeto recorrendo a materiais que tinha ao seu alcance. «Comecei por fazer upcycling porque era aquilo que tinha», explicou, referindo que utilizava antigas toalhas e colchas herdadas da família e de vizinhos.

Sobre o trabalho com técnicas artesanais, Joana Duarte destacou que a diferenciação depende da relação com quem preserva esses saberes. «Para trabalhar verdadeiramente com artesanato e fazer a diferença é preciso criar uma ligação com as pessoas, passar muito tempo com elas e conhecê-las realmente», detalhou, acrescentando que o desenvolvimento das peças resulta de uma investigação conjunta com os mestres dessas técnicas. «É realmente importante para mim ter a opinião deles sobre as técnicas e se sentem que representa a região», realçou.

Questionada sobre o futuro da moda, Joana Duarte acredita que é necessário valorizar mais o tempo e as pessoas envolvidas na criação. «Espero que todos consigamos compreender melhor o valor do tempo, o luxo de fazer as coisas e das pessoas que trabalham em todas as fábricas. Somos todos humanos», rematou.

Conhecer o consumidor

Segundo Maria Plácido, head of merchandising da Amorim Fashion, a relevância de uma marca começa no conhecimento profundo do consumidor e o grupo português procura construir um ecossistema de luxo centrado nas necessidades dos seus clientes. «Não estamos aqui para agradar a todos. Estamos aqui para conhecer realmente quem é o nosso cliente», explicou na sessão “Fashion Brands: The Hard Business of Staying Relevant”, acrescentando que as decisões combinam análise de dados com a experiência das equipas comerciais.

Maria Plácido [©Portugal Fashion-Igor Martins]
A head of merchandising da Amorim Fashion referiu ainda que, na relação com as marcas de luxo, a prioridade passa pela criação de relações duradouras. «Mais do que relações transacionais, é importante construir relações de longo prazo», esclareceu, defendendo que o papel da Fashion Clinic consiste em demonstrar às marcas o valor que pode acrescentar através da sua rede de lojas, da curadoria e do conhecimento dos diferentes perfis de cliente.

Maria Plácido acrescentou que o grupo gere atualmente mais de 200 marcas distribuídas por oito lojas físicas e uma loja online, adaptando a oferta a cada localização. «Não é só a marca que tem de refletir isso. A arquitetura da loja tem de refletir isso, a forma como a equipa de vendas aborda o cliente tem de refletir isso», apontou.

Sobre a evolução do mercado de luxo, Maria Plácido considera que o setor está a afastar-se da lógica de “hype”. «Tenho a sensação de que o mundo da moda era muito mais movido pelo hype e acho que, nos últimos anos, abrandámos um pouco. Pelo menos, temos a perceção de que as pessoas estão cada vez mais a valorizar a qualidade e o produto em si, em vez de privilegiarem o hype», concluiu.