Promovido pela Academia AICEP, o evento “Em Foco Brasil – Setor Têxtil e Vestuário” reuniu, no Porto, César Araújo, presidente da ANIVEC, Ricardo Silva, presidente da ATP, Marta Jorge, do programa Exportar Online da AICEP, Francisco Saião Costa, delegado da AICEP em São Paulo, e Fernando Pimentel, diretor superintendente da ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confeção, para debater as oportunidades e desafios da nova relação comercial entre os dois blocos.
César Araújo defendeu que a abertura tanto de Portugal como do Brasil tem de ser simultânea e simétrica, apontando que o país sul-americano «não é liberal, não deixa entrar e é altamente protecionista». «A reciprocidade tem de começar ao mesmo tempo. Não temos de dar 100 metros de corrida à frente. Temos de ir juntos e temos de partir no mesmo nível», sublinhou.
Na visão do presidente da ANIVEC, Portugal e o Brasil não são concorrentes, mas complementares. «Portugal pode ser a ponte do Brasil para a Europa», afirmou, desde que a relação seja «win-win – o Brasil tem de ganhar e Portugal tem de ganhar», reforçou. César Araújo destacou a sustentabilidade e a economia circular como uma das vantagens competitivas de Portugal, assegurando que o país «é o mais bem preparado da Europa» na área da reciclagem têxtil, em parte devido às várias fiações que possui.
O presidente da ANIVEC reforçou ainda que a competitividade europeia não pode assentar no preço, defendendo que o caminho passa por inovação, qualidade e proximidade aos mercados. «Temos de perceber onde estamos posicionados e o que conseguimos fazer melhor do que os outros», afirmou, apontando para a necessidade de reforçar a diferenciação e o valor acrescentado.
Ricardo Silva reconheceu que o setor industrial português tem historicamente privilegiado a Europa e os EUA em detrimento do Brasil, em parte por desconhecimento mútuo. Com o acordo a entrar em vigor a 1 de maio, o presidente da ATP defendeu que o objetivo a curto prazo deve ser construir relações concretas entre empresas dos dois países.
«Acredito que o principal foco nesta próxima fase será exatamente conhecer as empresas e as pessoas que as constituem, porque é assim que se faz negócio. Não é um país com outro país, são pessoas, são empresas. Acreditamos que há oportunidades de exportação direta de Portugal para o Brasil, assim como na importação, porque há forças específicas cá, há forças específicas lá, e temos de conseguir encontrar essas forças e se calhar fugir das dificuldades», esclareceu, apelando a que se mapeiem as oportunidades de negócio reais ao longo de toda a cadeia.
Oportunidades e desafios
A perspetiva brasileira foi trazida por Fernando Pimentel, que traçou um retrato abrangente de um setor que fatura 221 mil milhões de reais (aproximadamente 37,73 mil milhões de euros), emprega diretamente 1,34 milhões de pessoas e conta com 25,7 mil empresas. O diretor superintendente da ABIT reconheceu o défice estrutural da balança comercial têxtil brasileira, revelando que, em 2005, o país tinha ainda um saldo positivo, mas que 20 anos depois a exportação recuou para metade e as importações quintuplicaram. «Se não és competitivo lá fora, os de lá de fora são competitivos cá dentro», resumiu.
Em 2025, Portugal foi o principal destino das exportações brasileiras de têxtil e vestuário (excluindo fibras de algodão) para a União Europeia, representando 22% do total, à frente de França e dos Países Baixos e totalizando 14,4 milhões de dólares (cerca de 12,3 milhões de euros), segundo dados da ABIT. No sentido inverso, Portugal figura como terceiro maior fornecedor europeu de produtos têxteis e vestuário ao Brasil, atrás da Itália e da Alemanha.
Quanto ao acordo UE-Mercosul, Fernando Pimentel assumiu uma posição pragmática, explicando que os benefícios não serão imediatos. O diretor superintendente da ABIT sublinhou que há uma assimetria entre os dois blocos, uma vez que a Europa exporta produtos de maior valor acrescentando, enquanto o Mercosul ocupa nichos mais específicos, com diferenças de preços que refletem a segmentação.

Fernando Pimentel referiu que a principal mudança poderá ser o alívio tarifário gradual ao longo de vários anos, permitindo a adaptação das cadeias produtivas, sobretudo em fibras, tecidos e vestuário. «Não é um acordo que traz tarifa zero para tudo já amanhã, será ao longo de um período e, no caso do Brasil, podem ser oito anos, que dará tempo para todas as negociações e articulações acontecerem», esclareceu.
Do lado das oportunidades, Fernando Pimentel destacou segmentos como o vestuário de banho e têxteis técnicos, bem como a cadeia do algodão, que pode ganhar vantagem competitiva face à Ásia por ser mais sustentável e rastreável.
Francisco Saião Costa contextualizou o enquadramento macroeconómico, referindo que o Brasil apresenta atualmente indicadores geralmente positivos, nomeadamente inflação controlada, desemprego formal baixo e crescimento económico sustentado. Ainda assim, alertou para as fragilidades estruturais, como a taxa de juro de referência próxima dos 15%, o aumento da dívida pública para cerca de 80% do PIB e alguma instabilidade no sistema financeiro.
O delegado da AICEP em São Paulo salientou ainda que Portugal não figura no top 20 dos principais parceiros comerciais do Brasil, ficando geralmente entre o 18.º e o 22.º lugar e que mais de 50% das exportações portuguesas para o país são produtos agroalimentares. Francisco Saião Costa alertou ainda que, com o acordo em vigor, é expectável que as empresas brasileiras utilizem Portugal como plataforma de entrada no mercado europeu, o que aumentará a concorrência, mas também abrirá novas possibilidades de parceria.
Ainda sobre o acordo UE–Mercosul, o delegado da AICEP em São Paulo sublinhou o seu caráter estrutural e de longo prazo, afirmando que «não é um acordo concreto que, uma vez em vigor, crie oportunidades imediatas», mas sim um processo de liberalização tarifária gradual.
No plano estratégico, e dirigindo-se às empresas portuguesas, Francisco Saião Costa enfatizou que o Brasil exige uma abordagem altamente estruturada e presença local, alertando que «é um mercado duro, complexo e muito competitivo», onde abordagens pontuais tendem a falhar. Realçou ainda que «gerir o mercado brasileiro à distância não é possível», defendendo a necessidade de parceiros ou equipas locais.
Mercado digital
Marta Jorge analisou o e-commerce brasileiro, o maior mercado digital da América do Sul e o 12.º a nível mundial, com cerca de 50 mil milhões de dólares transacionados em 2025 e perspetivas de crescimento anual na ordem dos 10% até 2029.
A moda é a categoria líder nas plataformas e também aquela em que os consumidores brasileiros mostram maior disponibilidade para compras transfronteiriças. Marta Jorge sublinhou que as redes sociais são fundamentais para o comportamento de compra, sendo que cerca de 50% das aquisições online são influenciadas diretamente por estas plataformas.
No plano competitivo, identificou os marketplaces como principal motor do comércio eletrónico, com destaque para o Mercado Libre, Shopee e Amazon, referindo que estas plataformas concentram a maior parte das transações online. «Não podemos oferecer o nosso conteúdo como estávamos habituados a oferecer em termos de e-commerce», alertou, lembrando que a língua partilhada não elimina as assimetrias de comunicação entre os dois países.











