Portugal de Honra na Tunísia – Parte II

Maille Club Criada em 1976, a Maille Club é considerada líder na ITV tunisina, título certamente incontestado no segmento malheiro em particular. Com 12,5 milhões de euros de volume de negócios, 620 empregados distribuídos por duas unidades fabris, a empresa destina 80% da produção (um milhão de peças por ano, mais subcontratação) à sua marca própria- Mabrouk -, criada em 1982, que envolvepronto-a-vestir para homem, senhora, criança e pré-mamã. Mais tarde acrescentou a criação da Maille Club Diffusion, que se encarrega da distribuição da marca por 14 lojas próprias (com 1.500 m2), distribuídas pelas principais cidades do território nacional, algumas partilhadas com o franchising que detêm de marcas internacionais, como a Paul & Shark ou Max Mara, na zona nobre ao norte de Tunes, em Berges du Lac. A primeira experiência de internacionalização fez-se recentemente para a Argélia, um país vizinho com quem tem afinidades culturais, e para onde são os primeiros tunisinos a ir, aproveitando uma «first mover advantage», como refere o seu director Lassaad Abdelmoula, ao Jornal Têxtil. «Queremos aproveitar a proximidade, a linha mediterrânica da nossa colecção e a proximidade das preferências», sublinha. Nas palavras do director, na componente de subcontratação, a empresa pretende fazer a diferença pelo valor acrescentado do serviço, assegurando uma resposta rápida, e pelo factor moda da colecção que se propõe realizar em parceria com os grandes clientes com quem trabalha, apoiando-se numa equipa de 15 pessoas, liderada por italianos e franceses. São estas as nacionalidades dos seus principais clientes- franceses com 15% e os italianos com praticamente tudo o resto -, e as dos seus fornecedores de tecidos são também os italianos, a quem se acrescentam os portugueses- a colecção que estava ser elaborada no momento da visita «vestia» tecido português, não divulgado -, e os países do Oriente. Lassaad Abdelmoula destaca que é difícil trabalhar com estes últimos pelo não cumprimento dos prazos. Esta tarefa está mais facilitada pela Maille Club Export, que apenas trata da subcontratação, e esta isenta de taxas alfandegárias na sua actividade. Nesta fase, o empresário já não vai a feiras nem se preocupa tanto em aumentar a carteira de clientes, mas em estabelecer parcerias quer a montante quer no retalho. Os resultados de 2005 foram superiores aos de 2004 (11,25 milhões de euros), não acusando muito os efeitos da liberalização pela representatividade da Mabrouk na sua actividade, e pelo grande investimento que tinha realizado antes na sua força de vendas. Acredita no futuro do sector como fornecedor de grandes mercados, como a UE- oferecendo aos clientes o fully package -, pois os países do Oriente são apenas interessantes para prazos mais dilatados e grandes quantidades, e com uma aposta no retalho. Para o director, o governo tunisino tem dado uma boa ajuda às empresas, com políticas adequadas, e acredita na imprescindibilidade dos acordos internacionais e das parcerias para que esse futuro seja melhor. Le Cavalier Le Cavalier é o nome da empresa de confecção de artigos de sportswear fundada em 1982, localizada no centro do país, e que dá agora o nome a um Grupo, depois de uma parceria tuniso-suíça em 1997, sendo actualmente uma das empresas de referência na ITV tunisina, erguida por um ex-mecânico da empresa e que agora é um patrão condecorado pelo Presidente da República Ben Ali como grande industrial e empregador do país. O Grupo é composto por oito empresas, cinco delas com uma média de 150 trabalhadores – duas que asseguram a componente de confecção, com 350 e 450 trabalhadores, e uma de lavandaria e acabamentos com 100. Trabalham quase exclusivamente para grandes clientes do mercado externo, dos quais destacam a Façonnable e a a Levi’s do lado de lá do Atlântico, e a portuguesa Salsa- uma das peças em produção no momento da visita do JT, num Sábado, era desta marca da IVN -, que passaram agora de subcontratação a feitio para encomendas de produto final, e as marcas da Inditex, do lado europeu. A directora da empresa, Dhekra, acrescentou ao JT que as marcas Pull & Bear e Bershka asseguram 12% da produção, mas a parcimónia das margens classifica estes clientes como menos interessantes. A excepção à contratação é a recente aposta na marca própria com o mesmo nome, com direito a um ponto de venda em Paris, mas que ainda representa apenas 2% do volume de negócios de 6,25 milhões de euros. Os tecidos são comprados na Turquia e na Europa, e os acessórios são comprados a empresas situadas no centro de país, em Sousse, entre as quais se salienta uma empresa portuguesa para lá deslocalizada. Tem uma equipa de desenvolvimento de produto que se reúne com os clientes e prepara o design das colecções com mais uma equipa de sete designers, na componente de subcontratação, equipas que também se responsabilizam pela componente moda da sua marca, «um investimento seguro para o futuro», segundo a directora. E quando se fala no futuro, Dhekra refere a necessidade de constituir parcerias, «com portugueses e espanhóis, por exemplo, para fazer face a uma Turquia e uma China cada vez mais fortes». Este ultimo grande actor na cena têxtil internacional na era por liberalização foi, segunda a directora, uma dos causadores da redução do volume de negócios do grupo (em 2004 foi de 7,5 milhões de euros), mas acredita que com os programas de incentivos do Ministério da Indústria do seu país e com as parcerias que procura «vamos recuperar os resultados». Soprodite A capacidade produtiva que caracterizava a Soprodite no início da sua actividade, com as suas 20 pessoas em 1988, foi sendo reforçada até atingir o milhar actual, dividido por duas unidades produtivas, e «a maior capacidade de resposta e a inauguração da segunda fábrica foi a melhor forma de ganharmos mais clientes», confessa Hassen Boussaada, gerente da empresa, ao JT. Percursor da oferta do full-package no seus país, e disponibilizando confecção a grandes marcas estrangeiras, sobretudo europeias- destaca a Etam e a La Redoute em França, a Prada em Itália e a Next no Reino Unido -, ainda dedica 10% da sua produção à sua marca própria Perplexe. Produziu dois milhões de peças em 2005, representando 5,63 milhões de euros, muito abaixo dos 7,5 milhões de média que caracterizaram 2002 e os anos anteriores, «fruto da liberalização», refere. E embora se mostre optimista quanto ao futuro, pois «muitos dos clientes internacionais que partiram estão agora a regressar», as armas de que dispõe para esta guerra são sobretudo «a qualidade do serviço e a resposta rápida». Não descura as preocupações sociais com a sua mão-de-obra, que permite que «sem sindicatos, nunca tenhamos tido nenhum problema, e quando é preciso trabalhar horas extraordinárias, nunca se recusaram». Os tecidos que usam são de países europeus, e a maior concorrência vem da Turquia, «pois têm tecidos e matéria-prima». Na opinião deste empresário, a recuperação económica vai diminuir o consumo de artigos orientais, podendo a opção ser baseada na qualidade, e os desafios do futuro vencem-se com parcerias, para as quais «é muito importante o aprofundamento das relações entre os países do Euromed». GMC A Garments Manufacturing Consortium é um dos exemplos tunisinos da perspectiva da cooperação como grande solução para um futuro muito competitivo, onde a palavra de ordem também é dimensão. Assim, uma dezena de empresas- de segmentos vários, que vão desde a confecção a acessórios -, juntaram-se para promover os seus produtos internacionalmente, dividindo as responsabilidades de marketing, de procura de soluções de sourcing e de constituição de uma rede de agentes. Numa primeira fase «estamos sobretudo à procura de parceiros que queiram trabalhar neste projecto, onde propomos trabalhar 70% em sub-contratação, 25% em co-contratação e o restante com produto final, sempre com marcas de alta gama», adianta Habib Azzabi, um dos empresários da GMC ao JT. Numa segunda fase «está prevista ter uma marca própria com o nosso próprio design», complementa.