Peru em busca da retoma

A indústria têxtil e vestuário do país sul-americano espera um ano forte, numa altura em que está a reerguer-se da incerteza política e do abrandamento da economia, apoiando-se na inovação tecnológica e na transição sustentável.

[©PROMPERÚ]

Parte do plano passa por aumentar a presença internacional das empresas da indústria através da participação em feiras internacionais e novas alianças comerciais.

«A indústria teve um ano de 2023 difícil, recebeu um forte golpe», afirma, ao Just Style, Carlos Penny-Bidegaray, presidente do comité têxtil da ADEX – Asociación de Exportadores do Peru.

No ano passado, a economia do Peru contraiu 0,5% e, embora os protestos políticos tenham começado a diminuir com a chegada ao poder, em dezembro de 2022, da Presidente Dina Boluarte, os produtores estão a substituir o algodão por culturas alternativas mais lucrativas, como abacate, uva ou mirtilo. Em última análise, a recuperação pós-pandemia da indústria têxtil e de vestuário do Peru tem sido difícil. «A perceção de risco da indústria é alta», aponta Carlos Penny-Bidegaray.

Pela positiva, a inflação é agora moderada – tendo caído para 3,25% em janeiro. «O sector têxtil tem sido menos afetado pela inflação do que outras indústrias, como a construção ou o automóvel. Isto acontece porque os produtos têxteis são considerados bens básicos, pelo que a procura pelos mesmos é menos sensível às variações de preço», justifica o presidente do comité têxtil da ADEX.

Além disso, as empresas têxteis e de vestuário do Peru têm procurado soluções, aumentando os preços, reduzindo custos e procurando novos mercados. De acordo com dados da ADEX, as exportações totais de tecidos, fios e fibras FOB (free on board) em 2023 foram 12,72% superiores às de 2022, gerando receitas de 115,7 milhões de dólares.

Os principais produtos de exportação do Peru incluem fibras finas (como lã de alpaca), algodão e fibras sintéticas. Os mercados mais importantes para fios e fibras peruanos incluem os EUA (31,56%), Noruega (11,4%), Suécia (11,32%) e Reino Unido (8,62%), revela a ADEX.

Segundo dados da Superintendencia Nacional de Aduanas y de Administración Tributaria (SUNAT), a administração alfandegária e fiscal do Peru, as exportações de vestuário terão gerado mil milhões de dólares até novembro de 2023.

As expectativas para 2024 são elevadas, especialmente depois de uma feira Peru Moda & Deco de muito sucesso em outubro do ano passado, que encerrou com a expectativa de gerar 82,8 milhões de dólares em vendas, acima dos 80 milhões de dólares nas previsões originais e 17% acima das vendas do evento de 2022, de acordo com a PROMPERÚ – Comisión de Promoción del Perú para la Exportación y el Turismo.

«As principais oportunidades para o sector têxtil peruano em 2024 são o desenvolvimento de novos mercados, o investimento em inovação, o fortalecimento das marcas peruanas e a promoção da sustentabilidade», afirma Carlos Penny-Bidegaray.

A ADEX e o Ministério da Indústria do país estão a desenvolver novas alianças com o Brasil e os EUA em I&D para melhorar geneticamente o algodão, aumentando a eficiência e a rentabilidade da produção. «Queremos que os agricultores escolham plantar algodão e encontrem maneiras de plantá-lo em terras estatais que possamos tornar férteis. Temos de revitalizar o algodão Pima do Peru», acredita Carlos Penny-Bidegaray. Ao contrário de outros tipos de algodão, o Pima Peruano é colhido manualmente, limitando os danos nas fibras e proporcionando uma tonalidade branca que absorve a cor de forma eficiente e é altamente resistente ao pilling.

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Além disso, a ADEX, a PROMPERÚ e a OCEX – Oficinas Comerciales de Perú en el Exterior, entidade de promoção do comércio externo, estão a trabalhar para divulgar a indústria. Este ano, o Peru já confirmou a participação em mais de 10 feiras no Brasil, EUA, França, México e Japão, por exemplo.

«Esperamos que estes eventos facilitem o contacto direto entre empresas peruanas e potenciais compradores no exterior. Esta colaboração fortalece a estratégia de internacionalização do sector têxtil peruano e contribui para o crescimento das exportações nesta área», considera o presidente do comité têxtil da ADEX.

Ao mesmo tempo, o governo cada vez mais estável do Peru tenta impulsionar a indústria com novas estratégias, incluindo ajudar as pequenas e médias empresas. Foi aprovada uma lei para aumentar a competitividade e a criação de empregos em sectores como o têxtil e o vestuário, que inclui um crédito fiscal de 20% para empresas que reinvestem os lucros após o pagamento do imposto sobre o rendimento – de 2024 a 2028, caso a produção anual aumente em pelo menos 5%.

Há também um regime especial de benefício fiscal de desvalorização de até 33,33% para máquinas e equipamentos adquiridos entre 2024 e 2028 e uma dedução adicional no imposto sobre os rendimentos para os contribuintes que contratem novos trabalhadores no mesmo período, variando entre 70% a 30% do valor base do salário.

«Estas disposições visam incentivar o investimento, a contratação e a modernização dos equipamentos… para promover o seu desenvolvimento, competitividade e crescimento sustentável», sublinha Carlos Penny-Bidegaray.

O presidente do comité têxtil da ADEX está convencido que o sector têxtil e de vestuário peruano está preparado para o crescimento, impulsionado pelas projeções de recuperação económica global, com uma previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) de aumento de 3,1% no PIB global, o que poderá impulsionar a procura de produtos têxteis e de vestuário peruanos. Além disso, a crescente tendência do consumidor em direção à sustentabilidade alinha-se com as ofertas de algodão orgânico e fibra de alpaca do Peru. As negociações em curso para acordos comerciais com jurisdições como Hong Kong, Índia, Arábia Saudita e Emiratos Árabes Unidos (EAU) também poderão contribuir para que a indústria recupere o seu vigor e possa expandir-se ainda mais.