Perspetivas para a ITV em 2024

Das questões geopolíticas à pegada ambiental da indústria, o próximo ano deverá ser desafiante para as empresas do têxtil e do vestuário, mas há também oportunidades que poderão ser exploradas, nomeadamente ao nível dos avanços tecnológicos.

O covid parece ter ficado para trás nas preocupações do mundo, mas desde então surgiram outros obstáculos, nomeadamente a inflação, que começou a fazer-se sentir com a invasão da Ucrânia pela Rússia e aumentou o custo dos bens essenciais, dos combustíveis, dos transportes e das matérias-primas, mas também a pressão crescente da sustentabilidade, que traz novas exigências para os produtores, incluindo ao nível do investimento e da responsabilidade que têm de assumir.

Mas, sublinha um artigo do Just Style, que consultou diferentes especialistas, há igualmente oportunidades, proporcionadas pelo facto de marcas e retalhistas terem de ser mais responsáveis em termos éticos e ambientais para cumprir os diferentes pacotes legislativos, mas também resultantes da evolução da tecnologia, incluindo aqui a robótica e a inteligência artificial, que poderão contribuir para uma maior eficiência e, em último caso, uma maior rentabilidade.

Desafios

Um dos principais obstáculos deverá ser o abrandamento ou mesmo a estagnação da economia em termos mundiais. Os preços da energia subiram, o custo dos alimentos e da habitação registaram fortes aumentos e isso faz com que as compras de moda fiquem em segundo plano para os consumidores, que hesitam mais em fazer uma compra e, como consequência, as marcas e retalhistas estão a reduzir as suas encomendas aos fornecedores, numa espécie de efeito dominó que, segundo os especialistas ouvidos pelo Just Style, não deverá desaparecer tão cedo.

«A mudança na atitude dos consumidores é preocupante. A elevada inflação, embora de alguma forma aplacada nos países de consumo por enquanto, continua a ser uma ameaça constante», acredita Bob Antoshak, sócio da Gherzi Textile Organisation.

Embora marcas e retalhistas em toda a Europa e na China estejam a mostrar vontade de reduzir o sourcing na China, Sheng Lu, professor do Departamento de Estudos de Moda e Vestuário na Universidade do Delaware, afirma que um abrandamento económico na China poderá fazer com que esta desponte como um mercado de exportação. «Com a diminuição da procura interna, mais vestuário “made in China” pode entrar no mercado internacional e intensificar a concorrência de preços», sublinha.

Isso, indica Sheng Lu, poderá deixar muitos pequenos e médios produtores no mundo em desenvolvimento, que já lutam para sobreviver com encomendas reduzidas, numa situação financeira precária.

As questões geopolíticas deverão igualmente continuar a impactar a indústria têxtil e vestuário no próximo ano, nomeadamente as eleições nos EUA, que poderão levar a mudanças políticas nas relações com a China, mas também a instabilidade em mercados de África e da América Central. Rick Horwitch, diretor de estratégia de cadeia de aprovisionamento e sustentabilidade na Veritas Consumer Products Services, refere que «isso vai exigir que marcas e retalhistas desenvolvam estratégias para responder a uma mudança de uma procura instável e imprevisível para parceiros de aprovisionamento mais resilientes, mais flexíveis e mais estáveis».

A contrafação é outro dos obstáculos, assim como as mudanças legislativas, nomeadamente ao nível da ética e da sustentabilidade, que estão a ser preparadas e implementadas na UE, no Reino Unido e nos EUA.

«Responder às novas regulamentações focadas na responsabilidade ambiental, social e corporativa e na transparência e rastreabilidade da cadeia de aprovisionamento e dos impactos relacionados com os produtos/circularidade dos materiais e clima/ambiente (âmbito 3) vai gerar a necessidade de mapear os vários níveis da cadeia de fornecimento», destaca Rick Horwitch.

Além disso, sublinha Matthijs Crietee, secretário-geral da International Apparel Federation (IAF), numa era de denúncia de greenwashing e com os efeitos das alterações climáticas mais visíveis, em 2024 o foco dos consumidores, legisladores e funcionários vai mudar de promessas para resultados. «Mas o que é preocupante em 2024 é a chegada de legislação sem uma implementação adequada. Se a legislação tem como objetivo criar um terreno de jogo nivelado para a indústria e estabelecer metas mais ambiciosas, isso exige um seguimento adequado pelo governo», observa.

Oportunidades

A tecnologia e a inovação mantêm-se como principais oportunidades a explorar, depois da inteligência artificial ter assumido um papel importante nestes últimos dois anos.

«As empresas que abraçam iniciativas novas e criativas e não têm medo de mudar tornam-se, muitas vezes, os líderes e os pioneiros do futuro», acredita Bob Antoshak.

Sheng Lu, por seu lado, considera que é encorajador ver as empresas de moda a continuarem a investir em novas tecnologias para melhorar a sua eficiência operacional. «Os passaportes digitais do produto, o design de produto em 3D, PLM, blockchain, inteligência artificial generativa e várias ferramentas de rastreabilidade da cadeia de aprovisionamento estão entre as muitas tecnologias que as empresas de moda estão ativamente a explorar», enumera.

Mas é preciso continuar e a um ritmo mais elevado. «Movam-se rápido para testar novos produtos, novas ideias, novas experiências. Usem a inteligência artificial e modelos de dados para perceber o que funciona. Agarrem aqueles que estão a gerar valor e escalem rapidamente. Parem [a produção] dos que não [geram valor]. O maior desafio é criar a cultura e a segurança psicológica que esta mudança exige para as vossas equipas», aponta Alice Cowley, diretora-geral da Accenture UK.

Uma outra oportunidade passa pela criação de relações fortes entre todos os elos da cadeia produtiva. «A continuação do desequilíbrio da indústria da moda entre marcas, fábricas e fornecedores e o seu impacto na colaboração continua a ser um desafio. A colaboração é essencial para responder aos desafios da nossa indústria e os modelos económicos têm de servir como um incentivo para a colaboração», resume Michael Colarossi, vice-presidentse de inovação, gestão de linha de produtos e sustentabilidade para as soluções de vestuário da Avery Dennison.

Para Stephen Lamar, presidente e CEO da American Apparel & Footwear Association (AAFA), «os vencedores vão ser as empresas que compreendem que não existe o último quilómetro – sobretudo quando as cadeias de fornecimento e de bens se tornam cada vez mais circulares. Em vez disso, o sucesso começa e acaba com o primeiro quilómetro, quando as empresas tomam decisões sobre como e se um artigo deve ser produzido. Conseguir acertar no primeiro quilómetro significa que os seus parceiros da cadeia de aprovisionamento e os clientes vão estar com a empresa ao longo da jornada».