Desde sempre, a coabitação entre hospedeiro e hóspede foi feita em paz e harmonia: há tempos imemoriais, ohomo sapiens servia dehabitat para milhares de bactérias e micróbios que não representavam grande perigo, muito pelo contrário.
A mistura de diversos fungos e bactérias funcionavam como um tipo de protecção, pois mantinham o sistema imunitário em alerta e a funcionar. «A maior parte dos germes são benéficos e mantêm aqueles poucos que são malignos sob controlo», explica Hans-Jürgen Tietz, microbiólogo em Berlim. Porém, desde há pouco tempo, a harmonia parece ter terminado e observa-se que o equilibro importante da pele é cada vez mais perturbado por inovações vindas da indústria têxtil. O sector arma-se contra uma invasão de germes malignos que, na opinião de Hans-Jürgen Tietz, não existe. «Pretendem resolver problemas que não existem», afirma. Hoje aplicam-se químicos e fibras especiais em meias, roupa interior, camisas desportivas, luvas, sapatilhas e até em colchões para combater possíveis inimigos bacteriológicos. Existem projectos mais sofisticados, mas que de momento ainda não saíram do âmbito laboratorial: a empresa Cogins Textile Technology está a desenvolver meias de senhora com um tratamento redutor do crescimento de pêlos. E nos seus projectos mais iminentes estão o desenvolvimento de cuecas para homem que incorporam substâncias análogas ao Viagra, de encostos contra dores de cabeça, de fraldas de bebé que permitem evitar inflamações e tecidos com elevada resistência à radiação ultravioleta. Os metais preciosos são bastante utilizados nesta guerra contra os germes: iões de prata em lençóis e em vestuário criam um ambiente anti-bacteriano. Algumas empresas, como a Padycare, experimentam roupa auto-esterilizável que, ao mesmo tempo, elimina odores desagradáveis. Inúmeros dermatologistas duvidam dos efeitos benéficos, nomeadamente para a pele, desta forma de prevenção. Alguns agentes químicos, como por exemplo o Triclosan, podem mesmo representar algum perigo. As substâncias cuja presença no produto não tem de ser indicada podem aumentar a resistência a bactérias e fungos e provocar alergias. Wolfgang Lingk do Instituto para a Avaliação de Riscos, uma entidade pública alemã, alerta também para as possíveis consequências nefastas. Em associação com o Instituto Robert-Koch, Wolfgang Lingk tem vindo a lutar contra a aplicação exagerada de desinfectantes. Segundo este especialista, o vestuário com bactericidas «é contraproducente e simplesmente desnecessário. Lavar, secar e arejar é suficiente». «Quase todos os especialistas alemães são contra estes desenvolvimentos, mas a indústria simplesmente se recusa a levar isso em conta», declara Franz Daschner, médico especializado nos efeitos ambientais na saúde. Bem pelo contrário, algumas empresas chegam a prometer verdadeiros milagres. A Patagónia, por exemplo, garante que a sua roupa interior desportiva «pode continuar a ser usada mesmo após uma caminhada de trinta dias». Outro caso típico são as luvas comercializadas pela Best, cujo tratamento Sanitized diminui não só o crescimento de fungos e outros micróbios da pele mas também o do míldio. Um pormenor relevante é que o míldio aparece apenas em plantas e não em seres humanos. Entretanto, a mania de um mundo estéril e a fobia dos odores vão gerando enormes lucros à indústria têxtil. A Trevira, produtora de fibras de poliéster com prata, constata uma procura crescente em relação à limpeza e higiene no vestuário. «Quase não há nenhum outro assunto no mercado de camisas e blusas que provoque mais interesse do que a prevenção de maus odores», adianta um porta-voz da empresa. As camisas Splendesto Fresh da Seidensticker são um sucesso de vendas graças ao seu sistema de frescura. Os americanos foram dos primeiros a desenvolver têxteis anti-bacterianos. Depois da Segunda Guerra Mundial, o exército americano encomendou meias quimicamente impregnadas para combater os fungos dos pés. Nos anos 70, um grande número de soldados tiveram reacções alérgicas ao óxido de tributil-estanho (TBTO), um agente químico contra bactérias. No entanto, é sobretudo o Triclosan que está no centro da discussão. O Triclosan é sobretudo utilizado em roupa de cama, meias,collants e colchões. Este composto, que pertence ao grupo dos clorofenois, base de diversas dioxinas, é também utilizado em pastas de dentes e sabonetes. Facilmente absorvido pela pele não provoca, normalmente, alergias. No entanto, registaram-se casos em que a reacção com outros químicos presentes nos artigos provocou alguns casos de alergias. E são já conhecidas bactérias resistentes a este químico. Muitos dermatologistas duvidam que os inúmeros químicos aplicados em têxteis sejam realmente eficazes no combate a bactérias e fungos. Nos sítios mais expostos, como os dedos, as substâncias nem sequer aí chegam. As pessoas apanham os fungos normalmente em locais onde andam descalças, como por exemplo nas piscinas. «Um fungo não aparece simplesmente. Trata-se de uma infecção e não compreendo como é que umas meias podem impedi-la», declara Hans-Jürgen Tietz. Os especialistas alemães têm também dúvidas em relação à eficácia dos tecidos à base de fios com prata. O risco para a saúde é inferior ao do Triclosan, mas no contacto com a pele libertam agentes que podem perturbar o seu equilíbrio. Além disso, ainda não existem análises sérias que provem a eficácia deste método de prevenção. «Pequenos ensaios de laboratório não contam, pois não correspondem à situação normal», sustenta Armin Schuster, microbiólogo em Freiburg. Muitos produtores alemães refugiam-se num estudo feito pela Universidade de Munique onde os dermatologistas provaram que os tecidos com prata diminuem o número de bactérias na pele. No entanto, existem dúvidas relativamente à fiabilidade desses testes, que duraram apenas duas semanas e os participantes já sabiam de antemão se vestiam roupa com ou sem fios com prata. Deste modo, não foi possível estabelecer um grupo de referência fiável. Em relação ao primeiro ponto, a própria universidade admite que o prazo de ensaio foi curto de mais para obter resultados em relação aos efeitos gerados e à aceitabilidade a longo prazo».Segundo Armin Schuster, ainda não existe nenhum estudo científico que prove os efeitos positivos dos têxteis quimicamente tratados. «Por que não há têxteis deste género nos sítios mais críticos em relação à contaminação bacteriana como é o caso dos blocos operatórios? Nestes locais, onde o corpo humano está exposto da forma mais vulnerável, ninguém fala deste assunto», argumenta.









