Passaporte digital do produto em desenvolvimento

Enquanto não são estabelecidas regras claras sobre a informação a constar no passaporte digital do produto, entidades de países como a Finlândia e Portugal, no caso o CITEVE, têm estado a estudar como tornar a informação clara para a cadeia de valor mas também para os consumidores.

Durante um dos workshops da 10.ª Convenção Europeia do Têxtil e Vestuário, Katri Pylkkänen, conselheira de produtos, materiais e sustentabilidade na Associação de Têxteis e Moda da Finlândia, apresentou o projeto desenvolvido no âmbito do passaporte digital do produto, que teve como objetivo definir o conceito de um documento capaz de servir diferentes indústrias e cadeias de valor.

O primeiro passo consistiu em recolher informação sobre a legislação que será implementada assim como dos sistemas de governança voluntários já implementados. Em seguida, fizeram uma comparação com as soluções técnicas já existentes em relação à transparência e confiança no produto. «Quisemos também perceber quais eram verdadeiramente as necessidades das empresas e a sua capacidade de implementar o passaporte digital no futuro. Isso significa, por exemplo, perceber que informação é útil, quem deve ser responsável por manter essa informação, quem tem o direito a ler e como se poderia verificar a informação», explicou Katri Pylkkänen.

Katri Pylkkänen

O conceito desenvolvido, que envolve diversos intervenientes na cadeia de valor, como os fornecedores de matérias-primas, os produtores de têxteis e os prestadores de serviços, foi integrado com os sistemas existentes nas empresas, e os consumidores podem aceder igualmente a informações como matérias-primas, químicos e origem do produto, por exemplo, através de um QR Code.

CITEVE cria protótipo

Em Portugal, revelou António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, desde o momento em que a Comissão Europeia anunciou que «o passaporte digital do produto vai ser uma realidade em dois ou três anos» isso «mudou completamente a forma como trabalhamos», para encontrar soluções para informar o consumidor e cumprir a legislação, ao mesmo tempo que se preserva o conhecimento desenvolvido internamente.

O CITEVE está a criar um protótipo de passaporte digital para testar e verificar as dificuldades e melhorias que podem ser implementadas, até porque, asseverou António Braz Costa, «os consumidores precisam de algo fácil de entender, como um semáforo».

António Braz Costa

Até ao momento, a tecnologia blockchain mostrou ser a mais acessível financeiramente e «talvez seja a tecnologia que irá apoiar o passaporte, mas precisamos de um modelo de dados que ainda não está definido. Precisamos de um modelo de recolha de dados, como o fazer, como assegurar que a informação é fiável, uma plataforma na nuvem para manter os dados ao longo da cadeia de aprovisionamento, integração com softwares comuns, como ERP», enumerou o diretor-geral do CITEVE. É ainda necessário perceber como ligar o produto físico ao seu “gémeo” digital, através de uma etiqueta resistente, digital ou física.

António Braz Costa é apologista que sejam criados dois acessos de informação: um para o consumidor e outro para os atores da cadeia de valor. Face às muitas dúvidas e receios que subsistem, o diretor-geral do CITEVE acredita que a simplicidade será um fator crucial na implementação deste passaporte digital. «Tem de ser fácil de entender. Se a Comissão Europeia definir algo que seja difícil de entender pelos industriais, pelos técnicos e pelos consumidores, não creio que tenhamos um passaporte adequado», afirmou. Contudo, frisou, «a indústria pode ter muitas oportunidades, sobretudo a indústria europeia e em particular a indústria portuguesa».