Para cortar custos – Parte 2

Agora que a era do vestuário barato parece ter chegado ao fim, Mike Flanagan, CEO da Clothesource Sourcing Intelligence, analisa o papel que o retalho on-line poderá desempenhar como oportunidade para diminuir os custos ao longo da cadeia de aprovisionamento (ver Para cortar custos – Parte 1). É claro que não existe uma razão para que o retalho tenha de ter lugar no país onde a peça de roupa vai ser usada. Na realidade, o comércio de vestuário já está a registar alguns exemplos onde a tecnologia deslocou o ponto de venda. Na Austrália, por exemplo, não existem direitos de importação ou impostos sobre as vendas de produtos encomendados pela Internet – e a moeda australiana está actualmente em alta. Então (principalmente com alguns produtos, como botas de esqui), os australianos podem poupar muito dinheiro ao comprarem através da web no continente asiático ou europeu. Com efeito, alguns retalhistas australianos especializados neste tipo de produto começaram a cobrar depósitos aos clientes que entram nas lojas para experimentar os produtos. As pessoas experimentam a botas de esqui numa loja de desporto e depois vão on-line para comprar o calçado que acabaram de experimentar a preços muito mais baratos a um retalhista on-line a milhares de quilómetros de distância. Na região de Londres é cada vez mais comum os homens obterem as dimensões para os fatos junto de representantes de alfaiates chineses ou indianos. Os clientes seleccionam o tecido em Londres, o representante envia por e-mail os pormenores e, depois de uma semana ou mais tarde, a FedEx entrega o fato a um preço bastante abaixo do que qualquer alfaiate londrino iria cobrar. Quer com a alfaiataria em Londres ou as botas de esqui na Austrália, os clientes estão dispostos a aceitar um acordo um pouco confuso no que se refere à devolução de mercadorias com defeito ou mal ajustadas em troca da substancial economia das ofertas de compras à distância. E ninguém demonstrou ainda que o dano ambiental resultante da expedição é maior do que os danos causados pelas enormes redes de armazéns e lojas de retalho. Mas para além destas poucas excepções, a web ainda não diminuiu significativamente os preços do vestuário de primeira linha. Na prática: – Enviar uma peça de roupa à volta do mundo custa quase sempre consideravelmente mais do que as margens dos retalhistas tradicionais. Mesmo o envio uma peça de roupa à volta do mundo por correio acrescenta um atraso substancial entre a encomenda on-line e a recepção – e mesmo assim pode adicionar um custo significativo. – Mas, na maioria das vezes, encomendar vestuário on-line a partir do estrangeiro é pouco amigo do cliente. A maior parte dos compradores está satisfeita com a velocidade de chegada – mas profundamente irritada com a substancial legislação fiscal associada. O vestuário abarca geralmente os níveis mais elevados de impostos de importação de qualquer tipo de bens de consumo. E o recente fracasso da Ronda de Desenvolvimento de Doha sobre negociações comerciais na OMC torna pouco provável uma redução em termos internacionais. Apesar dos fanáticos das tecnologias sustentarem que os governos ocidentais devem parar de cobrar impostos sobre a importação de bens através da Internet, há uma probabilidade nula de sucesso: com os orçamentos governamentais sob pressão. Não existe simplesmente vontade política para irritar os retalhistas convencionais e, ao mesmo tempo, registar uma queda no rendimento público. Mas há sinais de que as coisas estão a começar a ficar mais fáceis. Um centro de distribuição na Europa pode agora servir quase qualquer endereço comunitário de um dia para o outro, sem direitos de importação ou impostos sobre as vendas. Um centro de distribuição nos EUA pode servir o mercado norte-americano da mesma forma – embora actualmente sejam apresentadas contas a alguns destinatários no Canadá por direitos de importação e taxas para peças de vestuário fabricadas fora do NAFTA. Na Ásia, uma rede em expansão de Áreas de Livre Comércio coloca-nos muito perto de enviar as peças de vestuário isentas de taxas para qualquer lugar no Japão, China, Austrália, Nova Zelândia e países do ASEAN a partir de um armazém em qualquer cidade do Sudeste Asiático (como Banguecoque, Singapura ou Kuala Lumpur). Além disso, diversas administrações postais, como o Royal Mail do Reino Unido, têm agora alguns acordos através dos quais os fornecedores estrangeiros podem pagar antecipadamente o imposto de importação sobre produtos encomendados na Internet. É quase inconcebível que qualquer país da Europa ou os EUA deixem de cobrar o imposto sobre a importação de roupa chinesa num futuro próximo. Mas já é possível que o vestuário seja embalado numa fábrica da Ásia e expedido para os consumidores, enviado em grosso para centros de distribuição na Europa, nos EUA ou no Sudeste Asiático, onde as roupas pré-embaladas são escolhidas e expedidas via aérea para um consumidor final, sem a necessidade de papelada confusa. Cerca de 80% do mercado mundial de vestuário pode ser servido com um sistema deste tipo e, para muitas peças, a entrega a um cliente seria mais rápida, mais fácil, mais barata – e provavelmente mais amiga do ambiente – do que através do retalho tradicional. A maioria dos grandes retalhistas está bastante consciente de tudo isto – mas a maioria vê esta opção como uma forma de proporcionar uma melhor experiência de compra a um maior número de potenciais clientes. Ninguém, até onde sei, está ainda a planear lançar-se no mundo como um verdadeiro vendedor de roupa de desconto on-line. Mas, mais tarde ou mais cedo, alguém vai juntar tudo isto e lançar o Apparelzon: uma verdadeira revolução no sector do vestuário, capaz de oferecer preços mais baixos do que os retalhistas que conseguem negociar com margens de 70%. Quando isso acontecer, vamos ver uma maior revolução nos preços de vestuário do que em qualquer outro momento, desde que a primeira máquina de fiação foi inventada na década de 1750. E, na minha opinião, a revolução será liderada pelos retalhistas que correm o risco de serem postos fora do negócio se deixarem outro fazer isso primeiro.