Os novos marajás da Índia

O país que durante várias décadas ostentou, com orgulho, os valores de simplicidade promovidos por Mahatma Gandhi, está a render-se ao luxo, sobretudo no vestuário infantil. Uma oportunidade que retalhistas locais e marcas internacionais estão a aproveitar.

No dia 14 de maio, pouco depois das 10 horas da manhã, Ruchi Aggarwal estava numa fila num centro comercial em Gurgaon. A mulher de 34 anos, entrevistada pelo Quartz, envergava uma camisa Armani azul com jeans brancos e sapatos Hogan. A filha de quatro anos, que a acompanhava, usava um vestido da H&M, conjugada com uma pequena carteira parecida com uma Birkin da Hermès. «Nem eu tenho ainda uma Birkin», disse, em tom de brincadeira, Aggarwal, apontando para a carteira cor laranja da filha.

Mas nesse dia, as roupas de Aggarwal não eram importantes. Os holofotes estavam sobre a filha que ia fazer audições para a India Kids Fashion Week (IKFW) no centro comercial Ambience Mall, em Gurgaon.

Nas suas próprias palavras, esta mãe, que não trabalha fora de casa, gasta muito tempo e dinheiro a vestir os filhos. Um par de jeans comprado recentemente para o filho custou 25 mil rupias (cerca de 330 euros). «Os meus filhos têm uma vida social muito ativa e precisam de estar bem-apresentados», justificou ao Quartz.

À medida que a economia indiana está a crescer, os pais de classe média, atentos à imagem, querem vestir os filhos em roupas de luxo. Com 29% da população de 1,2 mil milhões do país com menos de 14 anos, a Índia é potencialmente um mercado massivo para roupa de criança. E a indústria de vestuário de marca, avaliada em cerca de 10 mil milhões de euros, está a acompanhar rapidamente.

Pequenos reis

Até há uma ou duas décadas, as crianças indianas cresciam com as roupas que deixavam de servir aos irmãos mais velhos ou compradas nos mercados locais. Não havia semanas de moda nem oferta de denim desgastado.

No início dos anos 2000, retalhistas indianas como a Lilliput, Gini & Jony e Catmoss começaram a abrir lojas, embora o apetite por vestuário de marca para criança continuasse pouco visível. Os grandes fundos de investimento – incluindo a Bain Capital e a TPG Growth – começaram a financiar aquilo que era então considerado um mercado promissor.

Mas as coisas não correram bem para a maioria. Em 2011, um grande escândalo contabilístico atingiu a Lilliput, causando o caos no mercado da roupa infantil. A retalhista foi acusada de inflacionar os lucros e de especular nas avaliações. Em 2013, tanto a Catmoss como a Lilliput estavam cheias de dívidas e em guerra com os seus investidores.

«A Índia não estava preparada para essas lojas nessa altura, muito menos para tantas», explica Manoj Mahla, diretor da Craftworld Events, que organiza a IKFW em Bombaim e Deli desde 2012 para fazer a ligação entre os designers e os retalhistas. Cinco anos depois, prossegue Mahla, o mercado está finalmente a ganhar ritmo, com os pais mais atentos e as marcas estrangeiras a trazerem coleções melhores.

Olá marcas!

Para responder à crescente procura, os retalhistas estão a aumentar as áreas dedicadas ao vestuário de criança, tanto dentro das lojas existentes como com a abertura de lojas exclusivas e independentes.

Em abril, a retalhista de vestuário Pantaloons revelou que vai lançar lojas de roupa infantil sob a insígnia Pantaloons Kids. «Percebemos que há falta de lojas dedicadas a crianças e isso é verdade mesmo em centros comerciais onde há mais de 70 lojas de vestuário para homem e senhora», referiu, ao jornal Mint, o diretor-executivo da Pantaloons Retail, Shital Mehta.

A Arvind Lifestyle Brands, uma das principais retalhistas indianas, espera que as vendas do seu portefólio de marcas estrangeiras – como a The Children’s Place, Nautica Kids, U.S. Polo Kids e Elle Kids, entre outras – mais do que triplique para 7,25 mil milhões de rupias nos próximos quatro anos. O vestuário de criança representou mais de 8% nos 2,73 mil milhões de rupias de volume de negócios no ano terminado a 31 de março.

No início deste ano, a empresa americana de vestuário de criança Carter’s Inc anunciou que vai vender em 15 cidades na Índia através das lojas BabyOye, detidas pela retalhista indiana Mahindra Retail. A retalhista sueca H&M e a espanhola Zara também já oferecem roupa infantil nas suas lojas indianas. Até a Disney, a maior empresa mundial de entretenimento, estará, alegadamente, a preparar a abertura de lojas na Índia.

«Os pais estão a viver os seus sonhos de criança através dos filhos e isso gera uma enorme procura no segmento infantil», indica Mridumesh Kumar Rai, diretor de negócio da americana The Children’s Place. Por entre toda agitação, reconhece Manoj Mahla, os mais pequenos tornam-se verdadeiros reis. «As crianças estão finalmente a sentir que têm um espaço. Agora conseguem entrar numa loja e apontar o dedo para aquilo que querem», acrescenta Mahla.

Para Ruchi Aggarwal, que antigamente adquiria as roupas para os filhos durante as férias no estrangeiro, as compras estão hoje mais perto de casa. «Agora que estas marcas estão cá, posso ir ao centro comercial escolher roupas sempre que quero», assume.